OpenAI x Apple: o que há por detrás dessa disputa judicial?
Caso reacende debate sobre práticas de recrutamento e a competição por talentos na indústria de tecnologia

Pela segunda vez em poucos meses, a OpenAI enfrenta uma batalha judicial que pode alterar os rumos da empresa. Desta vez, o embate é com a Apple, em uma disputa cujas origens, em certa medida, remontam a um período muito anterior ao surgimento da gigante da inteligência artificial.
O processo movido pela Apple gira em torno da acusação de que a OpenAI teria se apropriado de propriedade intelectual da empresa. A fabricante do iPhone alega que a OpenAI incentivou ex-funcionários seus e candidatos em processo de recrutamento a levar informações sobre produtos ainda não anunciados.
A OpenAI nega as acusações e afirma, em comunicado, que "não tem interesse nos segredos comerciais de outras empresas" e que continuará focada "no desenvolvimento de tecnologias inovadoras".
Mas há um elemento não declarado por trás do conflito: a disputa por talentos. Até o momento, mais de 400 ex-funcionários da Apple deixaram a empresa para trabalhar na OpenAI, atraídos por pacotes de remuneração altamente competitivos. Em resposta, a Apple passou a oferecer bônus de retenção acima do habitual para evitar novas perdas.
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Por muito tempo, a prática de "roubar" profissionais de concorrentes foi relativamente incomum no Vale do Silício. Mas, à medida que uma nova geração de gigantes da tecnologia ganha força, essa regra parece estar mudando.
AS BARREIRAS À TROCA DE EMPREGO
O histórico controverso de acordos contra a contratação de funcionários entre empresas do Vale do Silício remonta pelo menos a 2007.
Naquele ano, Steve Jobs enviou um e-mail ao então CEO do Google, Eric Schmidt, reclamando de uma tentativa da empresa de recrutar um engenheiro da Apple. "Ficaria muito satisfeito se o seu departamento de recrutamento parasse de fazer isso", escreveu Jobs.
Schmidt encaminhou a mensagem a colegas, acrescentando: "vocês conseguem interromper isso e me explicar por que está acontecendo?"
Também em 2007, o CEO da Palm alertou Jobs de que um acordo para não contratar funcionários uns dos outros seria "provavelmente ilegal".

No mesmo período, o então CEO da Intel, Paul Otellini, escreveu um e-mail revelando um entendimento semelhante com o Google: "temos um acordo informal de 'não recrutar' entre Eric e eu. Prefiro que isso não seja amplamente conhecido."
Esses e-mails vieram à tona após uma ação antitruste movida em 2010 pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos contra Adobe, Apple, Google, Intel, Intuit, Pixar, Lucasfilm e eBay.
A ação civil alegava que as empresas haviam conspirado para não contratar funcionários umas das outras, em violação à Lei Sherman, que proíbe práticas anticoncorrenciais. Segundo o Departamento de Justiça, esses acordos reduziram salários e bônus em ações dos trabalhadores.
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As empresas fecharam um acordo com o governo. Poucos meses depois, funcionários entraram com uma ação coletiva de US$ 3 bilhões. Em menos de três anos, todas as companhias chegaram a acordos, sem admitir culpa. Ao final, mais de 64 mil trabalhadores receberam, em média, US$ 5.770 cada.
Hoje, não existe nenhum acordo formal que impeça empresas de tecnologia de recrutar profissionais de concorrentes. Ainda assim, essa prática continua relativamente incomum.
UMA NOVA GERAÇÃO DE GIGANTES
As empresas emergentes de tecnologia parecem menos dispostas a seguir essa tradição. Nos anos 2000, a Meta contratou centenas de funcionários do Google, irritando executivos da empresa, que pressionaram a então diretora de operações, Sheryl Sandberg, a interromper a prática. Ela recusou.
Mais recentemente, a Meta intensificou o recrutamento de profissionais de rivais da IA, contratando nomes importantes vindos da Apple, da OpenAI e de outras startups.
a prática de "roubar" profissionais de concorrentes era relativamente incomum no Vale do Silício.
Fundada em 2015, a OpenAI agora parece adotar uma estratégia semelhante. Entre os ex-executivos da Apple que migraram para a empresa de Sam Altman estão Tang Tan, ex-vice-presidente de design de produto; Paul Meade, que liderava os projetos do Vision Pro e dos óculos inteligentes; e Chang Liu, que trabalhou por mais de oito anos no desenvolvimento do iPhone.
Jony Ive, que deixou a Apple anos atrás para fundar sua própria empresa, também passou a integrar a OpenAI após a aquisição da startup io no ano passado.
Não há relatos de que outras empresas emergentes estejam promovendo uma ofensiva semelhante contra as gigantes tradicionais do Vale do Silício, mas isso não significa que o movimento não esteja acontecendo.
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A Anthropic já protocolou documentos para abrir capital e deverá enfrentar pressão para acelerar seu crescimento – e contratações de peso podem ajudar nesse processo. Elon Musk, à frente da SpaceX, também tem um longo histórico de ignorar convenções do setor.
Uma nova geração de empresas de tecnologia ameaça substituir as antigas gigantes como força dominante do Vale do Silício. Se isso acontecer, resta saber se elas vão tentar restringir a circulação de talentos, como fizeram suas antecessoras, ou vão transformar a disputa pelos melhores profissionais em uma competição sem limites.