POR ISABELLA LESSA

Tão ou mais surpreendente do que a notícia sobre a saída de Jeff Bezos do posto de CEO da Amazon, anunciada na última terça-feira, 02 de fevereiro – durante a apresentação do balanço financeiro do quarto trimestre da companhia – foi o nome escolhido para a sucessão: Andy Jassy, diretor executivo da AWS (Amazon Web Services). Nas horas e dias subsequentes, diversas publicações, inclusive a Fast Company, esmiuçaram o perfil do executivo que substituirá um dos maiores líderes da indústria de tecnologia dos últimos tempos e terá a árdua missão de continuar expandindo os negócios da gigante norte-americana.

Passada a surpresa inicial, porém, ao saber minimante quem é Jassy e o que a AWS representa pela companhia, fica evidente que a escolha não poderia ser mais óbvia e certeira para o futuro da companhia. Um “amazoniano” nato, ele trabalha na empresa desde 1997 e lançou, em 2006, este que é o pedaço mais lucrativo da Amazon. Somente no último trimestre a AWS foi responsável por metade (52%) dos lucros totais da companhia. Mas como e por que a empresa se tornou tão atrativa, ainda que serviços de computação na nuvem sejam ainda menos sexy do que o segmento de e-commerce?

NECESSIDADE DE ESCALABILIDADE

Tudo começa há catorze anos, quando a Amazon começava a ganhar escala e se deparava com a necessidade de lidar com a demanda cada vez maior de pessoas comprando no site. Naquela época, em uma data movimentada como a Black Friday, uma média de 300 milhões de usuários faziam compras online e, em um dia comum, o fluxo de compradores chegava a ser três vezes menor. A empresa precisou, portanto, começar a fazer esse balanço dentro do servidor. “Antes da AWS, era preciso fazer estimativas de que em determinado mês você teria um aumento de tantos por cento do seu serviço de hospedagem e isso custa muito dinheiro”, explica Gustavo Hansel, CEO da GH Branding. Para impedir o site de cair e perder milhões de vendas, a AWS entrou em cena no desenvolvimento de serviços de disponibilidade de servidor.

Inicialmente, essa inteligência servia à própria Amazon e fazia prototipagens para startups no Vale do Silício. Muitas dessas startups, que hoje também são grandes corporações, como a Netflix, utilizam os serviços de nuvem da AWS. “Hoje, muitos players mundiais existem somente por causa da AWS. Grande parte do modelo de negócio e de custo operacional de uma plataforma é baseada na AWS, daí a importância da empresa e do Andy, que conseguiu produtizar e vender esses serviços. Se 30 milhões de pessoas assistem à La Casa de Papel ao mesmo tempo, a Amazon liga esses servidores para a Netflix dar conta dessa demanda. Seria insustentável para a plataforma pagar por tantos servidores o tempo todo. Então ela paga somente pelo tempo utilizado”, afirma Hansel.

Serviços como o S3 (Amazon Simple Storage Service) rapidamente se tornaram populares porque cobram somente pelo tempo utilizado, não pela máquina em si. Esta era uma oferta até então inédita na ciência da computação: antes, uma startup precisava investir até US$ 200 mil para ter servidores de reserva. Ou seja, pode-se dizer que a AWS contribuiu para o modo com que empresas de tecnologia são formadas devido à acessibilidade dessas ferramentas de escabilidade. Hoje, uma startup brasileira de vinho, por exemplo, tem acesso ao mesmo tipo de ferramenta e conhecimento sobre machine learning que o e-commerce da Amazon, que funciona como o protótipo da AWS, comenta Hansel. Um cliente da empresa pode adquirir um servidor básico, mas as opções de camadas adicionais são diversas: blockchain, internet das coisas e realidade virtual, entre outros.

Assim como a AWS foi originada a partir de uma necessidade da Amazon, a AWS se valerá do conhecimento obtido a partir de seus clientes espalhados pelo mundo para testar novas ferramentas. No melhor estilo consumer-centric defendido pela companhia, as inovações continuarão a acontecer a partir dos estudos de caso dos próprios clientes. E, com isso, a Amazon pode vir a ter, segundo Hansel, ferramentas de low code, que são softwares que prescindem de longos processos de programação. “Pessoas com pouco ou nenhum background em tecnologia terão acesso a essa ferramenta. Isso irá democratizar o acesso a determinados tipos de tecnologia. Acredito que isso e a criação de ferramentas corporativas serão o foco da Amazon pelos próximos dez anos”.

LUCRATIVIDADE

Em 2019, a AWS foi responsável por cerca de 10% do faturamento da Amazon como um todo: dos US$ 280,5 bilhões alcançados naquele ano, a AWS teve participação de US$ 35 bilhões. Do lado dos lucros, no entanto, ocorre o inverso: a empresa foi responsável por 75% do lucro da companhia, respondendo por US$ 9,2 bilhões de um total de US$ 14 bilhões. E é isso que importa no final do dia, afirma Marcelo Coutinho, coordenador do mestrado profissional em Administração da FGV. “A AWS tem alta margem de lucro, tende a ser mais resiliente e mais atrativa para o acionista do mercado financeiro”. Para ele, a escolha de Andy Jassy para a função de chefe executivo sinaliza para o mercado que a companhia poderá buscar lucro de forma mais agressiva daqui em diante, já que, historicamente, suas margens de lucro sempre se mantiveram baixas.

SOBRE A AUTORA

Isabella Lessa é redatora-chefe da Fast Company Brasil.