Projeto para refletir a luz do Sol na Terra à noite é autorizado nos EUA

Comissão dos EUA aprovou satélite experimental, enquanto pesquisadores temem efeitos sobre astronomia, fauna, flora e saúde humana

projeto quer colocar espelhos em órbita para refletir a luz do Sol na Terra
Crédito: NASA/ Unsplash

Chris Morris 3 minutos de leitura

A Comissão Federal de Comunicações (FCC, na sigla em inglês) dos Estados Unidos autorizou uma startup da Califórnia a lançar e testar um satélite que usaria um espelho gigante para refletir a luz do Sol de volta à Terra após o pôr do sol.

A decisão foi tomada apesar das objeções de astrônomos, especialistas em vida selvagem e outros pesquisadores, que afirmam que o projeto pode prejudicar pesquisas científicas e interferir nos ciclos de sono de seres vivos.

A Reflect Orbital pretende lançar, ainda este ano, um satélite equipado com um espelho de cerca de 18 metros de largura – na prática, um refletor de filme fino – em órbita baixa da Terra.

No futuro, a empresa espera colocar em órbita até 50 mil desses espelhos, que refletiriam a luz solar para abastecer usinas solares, iluminar ruas e auxiliar equipes de resgate.

“O satélite de demonstração da Reflect Orbital é um exemplo de uma tecnologia potencialmente revolucionária”, escreveu a FCC na decisão que concedeu a licença.

Mas cientistas afirmam que a tecnologia pode provocar efeitos colaterais importantes. Em uma carta enviada à FCC, a Sociedade Astronômica Americana afirmou que os espelhos poderiam comprometer o trabalho de observatórios financiados pelo governo.

Astrônomos dependem de céu escuro para observar o espaço profundo. Até observadores amadores poderiam ser prejudicados. A entidade também alertou que o projeto poderia eventualmente ofuscar pilotos de avião e motoristas que trafegam à a noite.

IMPACTO EM PLANTAS E ANIMAIS

Outros pesquisadores afirmam que a iniciativa pode interferir no ritmo circadiano, que orienta humanos e animais sobre quando dormir ou migrar e ajuda as plantas a determinar o momento da floração. Ao todo, a FCC recebeu mais de 1,8 mil comentários públicos sobre o pedido da empresa, a maioria deles contrária à proposta.

“Está claro que as atividades propostas pela Reflect Orbital terão impacto sobre o ambiente terrestre, incluindo a saúde humana, a agricultura e a vida selvagem, além da astronomia”, escreveu a Sociedade Astronômica Americana.

A FCC rejeitou esses alertas, classificando as preocupações como “hipotéticas” e afirmando que atividades no espaço não estão sujeitas à legislação ambiental.

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Crédito: Reprodução/ Reflect Orbital

“Mesmo que a comissão tivesse autoridade para revisar e impor condições a essas operações (o que não tem), é improvável que esses danos ocorram”, escreveu a agência.

Embora a FCC tenha aprovado apenas um satélite até o momento, a Reflect Orbital já planeja espelhos espaciais maiores. O maior modelo proposto teria cerca de 55 metros de largura e refletiria para a Terra uma luminosidade equivalente à de 100 luas cheias.

A empresa espera lançar mil satélites com espelhos até o fim de 2028 e outros cinco mil até 2030.

adicionar milhares de satélites agravaria o crescente problema do lixo espacial.

Segundo a Reflect Orbital, o sistema poderia reduzir o uso de combustíveis fósseis ao ampliar o período em que usinas solares conseguem gerar energia, potencialmente ajudando a combater as mudanças climáticas.

“Somos gratos à FCC por reconhecer a importância de testar novas tecnologias no espaço”, afirmou Ben Nowack, CEO da Reflect Orbital, em comunicado enviado à Fast Company. “Esta licença é o primeiro passo para testar com rigor a eficácia da nossa tecnologia e das salvaguardas que desenvolvemos.”

A FCC informou que astrônomos e outros especialistas poderão apresentar novamente suas preocupações caso a Reflect Orbital solicite autorização para lançar satélites adicionais.

PLANOS "AINDA MAIS MALUCOS"

Além dos possíveis impactos sobre astrônomos, pilotos, plantas e animais, pesquisadores alertam que adicionar milhares de satélites agravaria o crescente problema do lixo espacial.

Leia mais: Lixo espacial se acumula em órbita mas ninguém parece disposto a recolhê-lo

Em uma mesa-redonda realizada em junho pela Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, Tony Tyson, professor da Universidade da Califórnia e cientista-chefe do Observatório Vera C. Rubin, afirmou que os planos da Reflect Orbital são “ainda mais malucos” do que a proliferação de satélites de internet operados por empresas como SpaceX e Amazon.

Tyson também demonstrou preocupação com a possibilidade de os refletores de filme fino espalharem a luz solar por uma área ampla, em vez de direcioná-la com precisão para um alvo específico. “Imagine um céu cheio de luas”, alertou.


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais