App francês de streaming de música ganha espaço com uma promessa: aqui não tem IA

O Qobuz remove milhões de faixas artificiais e aposta na curadoria humana para se diferenciar em um mercado dominado por algoritmos

no streaming de música Qobuz a curadoria é feita por seres humanos
Créditos: Qobuz/ Cai Fang/ Unsplash

Harry Levin 5 minutos de leitura
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Assim como todos os outros serviços de streaming de música, o Qobuz vem enfrentando uma onda repentina e violenta de faixas geradas por inteligência artificial. Mas Dan Mackta, diretor-geral da plataforma Qobuz, se recusa a usar o termo “música de IA”.

“Vou chamar isso de conteúdo com aparência de música”, diz Mackta, referindo-se às dezenas de milhares de faixas criadas por IA que chegam diariamente às plataformas musicais. “A música vai direto às emoções das pessoas. Não é algo com que se possa brincar.”

O Deezer, outro importante serviço de streaming, revelou recentemente que recebe 90 mil faixas geradas por IA por dia. Mackta não faz questão de descobrir o número exato de músicas que chegam ao Qobuz, mas sabe que são muitas.

“Quem pediu isso? É tudo fraude”, afirma Mackta. “É uma pena que tenhamos de dedicar tanta energia e tantos recursos ao combate a esse problema. Mas, é claro, precisamos fazer isso. É um problema que afeta todo o setor.”

Ainda assim, de certa perspectiva, o “conteúdo com aparência de música” pode acabar sendo uma bênção disfarçada para o Qobuz.

Desde que o lixo gerado por IA começou a inundar as plataformas, o serviço vem registrando um crescimento expressivo. Em 2025, a receita da empresa aumentou 45,7%, ante 8,8% do mercado de streaming como um todo, enquanto o número de usuários ativos mensais chegou a 1,2 milhão.

Esse tipo de salto pode ser explicado por diversos fatores, como o aumento do reconhecimento da marca, recomendações de produtos e, em 2026, momentos virais na internet. Recentemente, o Qobuz se beneficiou dos três.

Seu momento viral aconteceu quando o Spotify veiculou anúncios do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos, desencadeando uma corrida de usuários norte-americanos para o Qobuz.

FEITO POR HUMANOS

Mas há algo que o Qobuz manteve no centro de sua estratégia durante o crescimento: o foco na criatividade autêntica. O serviço francês segue princípios claros nessa abordagem: áudio de alta qualidade, curadoria humana e conteúdo editorial original. Para quem quer ter certeza de que não será exposto a conteúdos que apenas parecem música, o Qobuz surge como uma escolha natural.

Assim que abre o aplicativo, o usuário vê em destaque a mensagem “Lançamentos selecionados a dedo pelo Qobuz”. Em vez de exibir um algoritmo que acompanha cada clique, a plataforma mostra que sua equipe está trabalhando para encontrar as melhores músicas possíveis.

no streaming de música Qobuz a curadoria é  feita por seres humanos
Crédito: Qobuz

“A música é absolutamente única como forma de arte”, afirma Mackta. “Ela não funciona como nenhuma outra mídia, nem mesmo como outras formas de arte, porque é um veículo de comunicação entre seres humanos.”

Parte da preservação desse veículo envolve limpá-lo regularmente. A empresa removeu cerca de quatro milhões de faixas geradas por IA de sua ferramenta interna de busca porque elas não registravam nenhuma atividade de audição.

O Qobuz também excluiu cerca de 60% das reproduções de faixas geradas por IA dos cálculos de pagamentos de royalties devido a atividades fraudulentas. Além disso, em setembro, a empresa lançou um selo que identifica as músicas criadas por inteligência artificial.

EXPERIÊNCIA IMERSIVA

A curadoria humana é um processo semanal. A equipe global do Qobuz se reúne para discutir as músicas de que mais gostou recentemente. Em seguida, seleciona os melhores lançamentos para o aplicativo como um todo e para cada região específica. A plataforma opera em 26 países (inclusive no Brasil).

O carrossel de lançamentos na página inicial do aplicativo, o Álbum da Semana e até mesmo as playlists organizadas por clima ou estilo, como Summer Reggae, são selecionados manualmente.

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Por fim, o Qobuz conta com uma revista integrada ao aplicativo, que combina artigos com perfis de artistas. Os usuários podem ler e ouvir música simultaneamente, mergulhando por completo na experiência musical. Tudo isso é feito por uma equipe de 120 funcionários em tempo integral. O Spotify, por sua vez, tem mais de sete mil funcionários.

“Algumas das maiores empresas que já existiram são nossas concorrentes”, diz Mackta. “Seria ótimo conseguir lançar novos recursos em nossos aplicativos mais rapidamente, mas não fazemos isso. Tentamos ser a melhor loja de música online possível, com uma revista para fãs integrada.”

A REALIDADE DA IA NO STREAMING

Muitas pessoas podem ter migrado para o Qobuz, mas Tatiana Cirisano, vice-presidente de estratégia musical da empresade pesquisa e consultoria MIDiA, não prevê um êxodo em massa capaz de afetar consideravelmente a posição dominante do Spotify no mercado.

“A maioria das pessoas vai escolher a conveniência, independentemente de suas atitudes ou valores pessoais”, afirma Cirisano. “As pessoas podem dizer ‘não quero ouvir música gerada por IA’, mas acabarão ouvindo mesmo assim, sem perceber ou sem se importar.”

Por isso, ela relaciona o aumento no número de usuários do Qobuz aos superfãs de música. O Spotify tem 761 milhões de usuários ativos mensais. Apenas uma fração desse total está disposta a comprar produtos de seus artistas favoritos ou participar de um festival de três dias.

“A música é absolutamente única como forma de arte.”

Por sua própria natureza, o Spotify atrai fãs menos engajados. Por uma pequena mensalidade, os usuários têm acesso sem anúncios a praticamente todas as músicas da história, enquanto um algoritmo apresenta continuamente novas descobertas.

Some-se a isso a explosão de conteúdo gerado por IA e o resultado é um cenário em que os artistas precisam disputar com a inteligência artificial uma parcela cada vez menor dos royalties pagos pelo Spotify.

“Além de muitas dessas faixas terem sido criadas com ferramentas treinadas em catálogos de artistas humanos sem autorização, essas músicas agora estão competindo pelos mesmos ouvintes”, afirma Cirisano. “O montante disponível para pagar cada música e cada artista não está crescendo tão rápido quanto o número de pessoas que precisam ser remuneradas.”

Diante desse cenário, a executiva presta consultoria a serviços de streaming sobre como lidar com essa disparidade. E seus conselhos provavelmente soariam familiares a Mackta.

“Se estivéssemos em um cenário no qual as pessoas ouvissem artistas, e não apenas músicas, e no qual o contexto sobre o artista fosse apresentado junto com a faixa, não sei se a música gerada por IA estaria desestabilizando o mercado da maneira como está”, afirma.


SOBRE O AUTOR

Harry Levin é jornalista com mais de 20anos de experiência na cobertura da indústria musical e criador da plataforma Orchestrology. saiba mais