Quer combater a desinformação? Comece pelas redes, não pelos fatos
A desinformação não é apenas um problema de comunicação. É um problema de redes – e exige uma estratégia igualmente conectada

Em 2011, o ativista das teorias da conspiração sobre o 11 de Setembro Charlie Veitch publicou um vídeo gravado pelo celular no qual renunciava à sua antiga crença de que o ataque terrorista havia sido um "trabalho interno".
Como David McRaney explicou em seu livro "How Minds Change" (“Por que acreditamos no que acreditamos: como as opiniões são formadas e como mudá-las”) , a reação foi "rápida e brutal". Veitch sofreu assédio incessante e teve seu site hackeado. Houve até ameaças de morte.
Hoje, líderes empresariais enfrentam reações semelhantes em diversas áreas, incluindo tecnologias de inteligência artificial e os data centers que as alimentam, políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) e suas posições sobre ações federais controversas, como as operações do ICE, a agência de imigração dos Estados Unidos.
Assim como Charlie Veitch, esses líderes provavelmente vão descobrir que, qualquer que seja a posição que adotem, haverá alguém falando contra. O que é preciso entender é que isso é menos um problema de comunicação do que um problema de redes.
Criar mensagens já não é suficiente. Não operamos mais em um único ambiente de informação, mas em um multiverso deles, cada um com seus próprios influenciadores e bolhas de opinião. Entender essas redes e como elas funcionam é fundamental para navegar por elas com sucesso.
ENTENDENDO O PODER NAS REDES
O poder nas redes é uma função da centralidade.
Para entender o conceito, vale observar a rede em formato de pipa desenvolvida no início dos anos 1990 por David Krackhardt, professor de organizações da Universidade Carnegie Mellon.
Em seu site Orgnet, o pesquisador de redes sociais e organizacionais Valdis Krebs oferece uma análise matemática útil da rede em formato de pipa usando três medidas de centralidade.

Normalmente pensamos em poder em termos de hierarquias. Se fosse esse o caso, Carol teria mais poder por estar no topo, enquanto Ed, na parte inferior, teria menos.
Mas os cientistas de redes enxergam as coisas de maneira diferente. Eles calculam valores com base nas conexões existentes dentro da rede. Por exemplo:
Centralidade de grau: se você observar quem tem mais conexões, Diane é claramente a pessoa mais central. Se quiser entender sobre o que as pessoas estão falando, quem influencia quem ou como as narrativas circulam pela rede, ela provavelmente será sua melhor primeira conversa.
Centralidade de proximidade: se você observar quem tem o melhor acesso geral às outras pessoas da rede, Fernando e Garth se destacam. Eles estão posicionados de forma a alcançar todos os demais mais rapidamente do que qualquer outra pessoa, o que os torna aliados valiosos para entender como informações (e desinformações) circulam pela rede.
Centralidade de intermediação: embora Heather não tenha muitas conexões diretas, ela ocupa a posição mais estratégica, funcionando como a única ponte para Ike e Jane. Nós estrategicamente posicionados como Heather são chamados de boundary spanners (algo como "agentes de ligação"), porque conectam comunidades que, de outra forma, continuariam separadas. Isso os torna fundamentais para entender como ideias (e desinformações) circulam entre esses grupos.
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Heather demonstra uma das lições mais contraintuitivas da ciência das redes: a maneira mais rápida de se tornar mais central não é necessariamente disputar atenção no centro. Muitas vezes, é construir pontes para lugares aos quais ninguém mais está conectado.
Nós centrais costumam ser mais difíceis de acessar. Mas, quando você estabelece conexões para além da sua rede atual, desloca o centro de gravidade em sua direção, ampliando seu potencial de poder e influência.
COMO BOTNETS "FABRICAM" INFLUÊNCIA
Depois de entender como as redes funcionam, você pode começar a utilizá-las de maneira estratégica.
A ciência, por exemplo, mostra que existe uma vantagem em se conectar com amigos de amigos. Você não apenas se beneficia de uma apresentação feita por alguém conhecido, como também é provável que os amigos dos seus amigos sejam mais influentes do que uma pessoa escolhida aleatoriamente.
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Mas, e se fosse possível construir sua própria rede artificial? E se Ike e Jane não fossem pessoas reais, mas personagens fabricados por Heather para aumentar sua influência? E se Heather começasse a fabricar Ika e Janes aos milhares, ou até aos milhões?
Tecnicamente, Heather poderia criar uma fonte quase infinita de poder para influenciar o restante da rede.
O problema é que as redes atuais não são formadas apenas por pessoas. Cada vez mais, elas são povoadas por contas automatizadas (bots) criadas para manipular o modo como as informações se espalham.

Foi exatamente isso que a vencedora do Nobel Maria Ressa e sua equipe na Rappler começaram a perceber nas Filipinas em 2016.
Em suas memórias, "Como fazer frente a um ditador: a luta pelo nosso futuro" ("How to Stand Up to a Dictator"), ela explica como eles descobriram uma rede coordenada de influência ao mapear as relações entre contas, páginas e publicações do Facebook.
Usando uma análise semelhante à da rede em formato de pipa, a equipe conseguiu identificar o ponto central do problema.
Não era apenas o fato de contas falsas estarem publicando mentiras. Elas estavam fortemente conectadas e coordenavam suas ações, fazendo com que cada publicação fosse amplificada milhares ou até milhões de vezes.
Ao fabricar a aparência de popularidade e consenso, essas redes conseguiam convencer pessoas comuns de que ideias de grupos minoritários eram amplamente compartilhadas. Em outras palavras, as redes não apenas espalhavam desinformação, elas "fabricavam" influência.
QUANDO AS REDES SE TRANSFORMAM EM BOLHAS
Recentemente, uma equipe de pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês) investigou como compartilhamos informações e desinformações com as pessoas em torno. O que descobriram foi preocupante.
Quando estamos cercados por pessoas que pensam como nós, compartilhamos informações com mais liberdade porque não esperamos ser questionados. Também temos menos probabilidade de checar os fatos, porque sabemos que aqueles com quem estamos compartilhando são menos propensos a verificá-los.
Quando uma rede de bots começa a influenciar uma rede, passa a moldar o comportamento de pessoas reais. Elas não apenas começam a compartilhar as publicações falsas, mas também a criar suas próprias publicações baseadas no falso consenso fabricado pelos bots.
Entender as redes e como funcionam é fundamental para navegar por elas com sucesso.
Por exemplo, quando pesquisadores do Facebook criaram o perfil de uma mulher branca chamada "Carol", interessada em política, criação de filhos, cristianismo e Fox News, ela rapidamente foi conduzida por uma espiral de discurso de ódio e teorias conspiratórias do QAnon.
É possível entender como pessoas como Charlie Veitch começam a acreditar em teorias da conspiração semelhantes às dos "crentes" do 11 de Setembro.
Também temos décadas de pesquisas mostrando que tendemos a nos adaptar às opiniões das pessoas em torno de nós. Esse efeito se estende por três graus de distância social.
Isso significa que até os amigos dos amigos dos nossos amigos – pessoas ou bots que nem sequer conhecemos – nos influenciam de maneiras que muitas vezes não percebemos.

Durante a pesquisa para seu livro, McRaney descobriu algo interessante e potencialmente muito útil: pessoas que abandonaram teorias da conspiração ou grupos sectários não costumavam ser convencidas por novos fatos, mas pela entrada em novas redes sociais.
Mudar de opinião, ao que parece, muitas vezes começa pela mudança de redes.
É PRECISO UMA REDE PARA DERROTAR UMA REDE
Hoje, líderes de organizações de todos os tipos estão sob pressão.
Grandes marcas como a Bud Light, órgãos de governo e até instituições de caridade são alvo de campanhas de desinformação alimentadas por redes sociais, operadores políticos e redes de bots controladas por governos rivais. Essas campanhas podem se espalhar rapidamente e provocar danos graves.
Quando o general Stanley McChrystal assumiu o comando das Forças Especiais dos Estados Unidos no Iraque, em 2003, enfrentou desafios semelhantes.
"O mundo havia passado à nossa frente", escreveria depois em "Team of Teams". "No tempo que levávamos para levar um plano da criação à aprovação, o campo de batalha para o qual o plano havia sido elaborado já teria mudado. Quando era implementado, o plano, por mais engenhoso que fosse em sua concepção inicial, muitas vezes já era irrelevante."
Com o tempo, McChrystal percebeu que qualquer tentativa de controlar todas as variáveis das quais o sucesso dependia era inútil. Então fez o contrário.
Ao perceber que "é preciso uma rede para derrotar uma rede", trabalhou para moldar as redes que influenciavam seu ambiente operacional, criando conexões entre uma grande variedade de parceiros e outras partes interessadas. Como resultado, a eficiência operacional aumentou 17 vezes.
Líderes corporativos precisam adotar uma abordagem semelhante. Não dá para apenas esperar que um ataque de desinformação aconteça, divulgar uma resposta cuidadosamente elaborada e torcer para que o problema desapareça.
Mudar de opinião muitas vezes começa pela mudança de redes.
Quando o processo de relações públicas chega ao fim, narrativas falsas já terão circulado por múltiplas redes, ampliando os danos e aprofundando a crise.
Isso significa ser proativo na construção de redes: aproximar-se de comunidades de partes interessadas e criar relacionamentos genuínos antes que um ataque aconteça.
Confiança não é construída durante uma crise, mas muito antes de ela começar. Quando as pessoas já conhecem você, ou confiam em alguém que conhece você, é muito mais provável que lhe deem o benefício da dúvida.
Em uma era de desinformação, continua sendo preciso uma rede para derrotar uma rede.