Restaurantes começam a proibir celulares para incentivar conversas à mesa

Estabelecimentos nos EUA e na Europa começam a banir smartphones para criar refeições mais imersivas e transformar o jantar em um experimento social

restaurantes sem celular
Créditos: Deagreez/ urbazon/ Getty Images

Ben Ikenson 4 minutos de leitura

Imagine-se sentado com amigos diante de uma tábua de frios e uma garrafa de vinho em um bistrô francês. Se você pegar o celular, um garçom sopra um apito como o do árbitro de esportes, mostra um “cartão de penalidade” e avisa que uma segunda infração pode resultar em expulsão do restaurante.

Esse tipo de fiscalização de gafes sociais é rotina no Le Petit Jardin, em Montpellier, no sul da França, que implementou uma rígida política de “proibido usar o celular” em 2017.

Embora a abordagem pareça quase uma caricatura de tão radical, a ideia de restringir o uso de celulares em restaurantes e bares vem ganhando força em várias localidades.

O Sneaky’s Chicken, em Sioux City, Iowa (nos EUA), por exemplo, oferece incentivos para quem coopera: agora concede descontos todas as quartas-feiras à noite para clientes que colocam seus celulares em uma caixa.

Em Nashville, no Tennessee, o Monell’s é um restaurante de comida típica do sul dos EUA que mantém uma regra clara de “nada de celulares à mesa”, justamente para incentivar uma experiência de refeição coletiva autêntica. Outros estabelecimentos também estão começando a exigir que os clientes deixem seus dispositivos logo na entrada.

Com o celuar à mão, “de repente você ouve aquele pequeno ding ou algo assim, e sua atenção deixa a experiência da refeição – você já está em outro lugar”, diz Kara Nielsen, especialista em tendências gastronômicas com ampla experiência no mundo da culinária.

Ela não se surpreende com o apelo dessas restrições. “A chamada 'experiência gastronômica' está ficando muito popular entre os mais jovens e parece fazer parte do movimento dos millennials e da geração Z de voltar ao analógico. Por isso, acho que vamos ver cada vez mais esse tipo de experiência sem celular no futuro.”

INTERAÇÕES "ANALÓGICAS"

“Se você não consegue ficar duas horas sem o seu telefone, então este definitivamente não é o lugar para você”, disse o chef celebridade Tim Love à NBC pouco depois de abrir o Caterina’s, em Fort Worth, Texas, em 2022.

O restaurante italiano, aconchegante e sofisticado, mantém uma política rígida de proibição de celulares – algo que, aparentemente, não afastou os clientes, dado que o local continua bastante popular. “Você pensa: ‘vou só sentar aqui e aproveitar.’ E é exatamente isso que acontece. Tem sido realmente revigorante”, resume Love.

restaurante Caterina's, no Texas, proíbe celulares à mesa
Caterina's, em Fort Worth, Texas (Crédito: Divulgação)

Britnee Wentworth é gerente assistente, bartender e também trabalha como atendente no Caterina’s. “No começo, a política contra celulares gerou muitos comentários questionando a regra, mas eu não diria que isso afetou negativamente o negócio”, afirma. “Na verdade, acabou contribuindo positivamente para o movimento da casa.”

Segundo ela, uma das partes mais interessantes do trabalho é observar os resultados inesperados que surgem quando as pessoas se desconectam de seus dispositivos.

“Temos muita gente que sai daqui amiga das pessoas da mesa ao lado, mesmo quando existe uma diferença grande de idade entre elas, simplesmente por causa das conversas que começam”, diz. “Tem sido um dos experimentos sociais mais legais de acompanhar.”

Nicosi Dessert Bar, no Texas, proíbe celulares à mesa
Nicosi Dessert Bar,em San Antonio, Texas (Crédito: Divulgação)

Cerca de 400 quilômetros ao sul, em San Antonio, o Nicosi Dessert Bar abriu em junho de 2024. Premiado com estrela Michelin, oferece “um menu degustação de oito etapas, com quatro pequenas porções e quatro pratos principais”, em um “ambiente íntimo de 20 lugares que envolve a cozinha, convidando os clientes a uma jornada de demonstração culinária ao lado dos chefs”. Celulares e fotografias são proibidos.

Já o Antagonist, um bar de coquetéis em Charlotte, na Carolina do Norte, deve abrir ainda este ano prometendo em seu site: “Bebidas fortes. Conversas afiadas. Sem celulares. Sem distrações.” E a lista de lugares com essa proposta continua crescendo.

AMBIENTES SEM TELAS VÃO VIRAR TENDÊNCIA?

Como observou no ano passado uma reportagem do jornal "The Washington Post" sobre a reação positiva às proibições de celulares em bares de da capital dos EUA, Washington, D.C., “existe uma percepção cada vez maior de que essa exposição constante ao mundo digital nos faz sentir menos conectados ao mundo real”.

Julio Alvarez é coach de liderança, podcaster e ex-executivo de tecnologia – alguém que já esteve dos dois lados da tela – e acredita que uma mudança profunda está em curso. “Estar realmente presente com outro ser humano em uma troca, em uma conexão verdadeira, está se tornando o bem mais raro que existe”, afirma.

Le Petit Jardin, em Montpellier, França, restaurante que proíbe celulares à mesa
Le Petit Jardin, em Montpellier, França (Crédito: Tourisme Montpellier)

Com a chegada da inteligência artificial, Alvarez acredita que a tendência de ambientes sem telas pode se expandir além do setor de alimentação e bebidas. “Vamos entrar em uma nova fase, com a oportunidade de combater o vício em telas com as novas tecnologias que surgirem na próxima década”, diz.

“Há um movimento crescente não para adicionar mais telas, mas para removê-las. E o que isso vai provocar? Vai nos obrigar a aprofundar nossas habilidades de conexão humana… e a voltar a estar presentes uns com os outros”, acredita.


SOBRE O AUTOR

Ben Ikenson é jornalista freelancer e escreve sobre design, arquitetura, desenvolvimento sustentável e meio ambiente, entre outros temas. saiba mais