Este robô-centauro foi criado para salvar vidas — e parece saído de um pesadelo
Com quatro pernas, ferramentas no lugar das mãos e controle remoto, Threehalves foi projetado para incêndios, áreas tóxicas e desastres

Em algum lugar de Auburn, na Califórnia, uma startup de robótica chamada Satyress observou as duas grandes vertentes da robótica moderna — o humanoide bípede e o cão-robô — e decidiu que nenhuma delas estava exatamente certa.
Assim, criou o Threehalves, uma máquina de cerca de dois metros de altura com um torso humanoide acoplado a uma base de locomoção com quatro pernas, um crânio angular com chifres, olhos iluminados e ferramentas elétricas no lugar das mãos. Basicamente, um robô-centauro.
A forma do robô da Satyress impressiona, mas também é matéria-prima para pesadelos. Tanto que você pode até pensar que se trata de uma brincadeira. A empresa não respondeu a um pedido de comentário até a publicação desta reportagem.
Mas, quando deixamos de lado o visual digno de um filme de Guillermo del Toro, o Threehalves se revela como a aposta mais recente em uma longa disputa pelos formatos da robótica.
A aparência é uma escolha deliberada e está conectada à marca. O nome Satyress faz referência à versão feminina dos sátiros da mitologia grega.
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Bípedes, quadrúpedes, torsos sobre rodas, robôs-cobra, drones com braços e “replicantes”: laboratórios e empresas estão apostando em formas diferentes, tentando prever por qual delas o mercado da robótica estará disposto a pagar.
A lógica de design da Satyress é um ataque frontal ao dogma dos robôs humanoides, mas não chega a ser inédita. A NASA já desenvolveu o Centaur 2, uma base robusta com quatro rodas para o Robonaut 2 atuar em terrenos difíceis e ambientes perigosos.
Na década de 2010, o Instituto Italiano de Tecnologia também desenvolveu o Centauro, um robô de resposta a desastres que utilizava uma combinação de pernas e rodas.
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POR QUE UM ROBÔ-CENTAURO PODE SER MAIS SEGURO
“O torso e os braços semelhantes aos humanos permitem uma teleoperação natural e a interação com ferramentas e ambientes projetados para pessoas”, afirma a Satyress em seu site.
A parte superior do corpo humano é útil. As pernas, porém, representam um risco.
Nas palavras da empresa, “o corpo quadrúpede, com articulações dotadas de freios por fricção, oferece uma plataforma estável sem consumo residual de energia quando não está em movimento, além de maior estabilidade e mecanismos de segurança do que um bípede, tanto durante a operação normal quanto no caso de perda de controle dos motores”.
Ou seja: um bípede que perde energia pode desabar sobre a pessoa que foi enviado para salvar. Um centauro simplesmente permanece em pé, com os freios travados e sem consumir energia. É uma filosofia de design que já apareceu em outros projetos de robótica. Em vez de reproduzir integralmente o corpo humano, a máquina mantém apenas as características necessárias para interagir com espaços e objetos criados para pessoas.
POR QUE ELE NÃO TEM MÃOS

Há ainda as mãos — ou melhor, a ausência delas.
Dedos robóticos capazes de movimentos precisos estão entre os projetos mais caros e ambiciosos da indústria de humanoides. Modelos como o Figure 03 já usam câmeras e sensores táteis nas mãos para manipular objetos delicados.
O problema é que essas estruturas também podem ser frágeis demais para o trabalho pesado. Por isso, o Threehalves não tem mãos.
“A interface de conexão rápida no pulso proporciona precisão e repetibilidade no posicionamento das ferramentas sem perda de desempenho. Energia de 12 V, 18 V e 48 V, além de ar comprimido, pode ser fornecida aos acessórios pelo próprio robô”, explica a empresa.
Cada braço termina em um encaixe resistente, capaz de levar eletricidade e ar comprimido diretamente a motosserras, furadeiras, chaves de impacto e outras ferramentas. Por que imitar uma mão quando o próprio braço pode ser a ferramenta elétrica?
FEITO PARA O TRABALHO PESADO
Toda a máquina foi projetada para aguentar um trabalho que o corpo humano ou o corpo de um animal não aguentaria.
“Todos os membros, o torso e a cabeça podem ser substituídos e recalibrados em minutos caso sejam danificados, e apenas três tipos de fixadores são usados em todos os conjuntos que podem passar por manutenção”, afirma a Satyress.
O robô também foi projetado para ser transportado facilmente até os locais de trabalho. Segundo a empresa, duas unidades “cabem lado a lado, agachadas, na caçamba de uma picape com 1,7 metro ou mais, mantendo a tampa traseira fechada”.
Mas não é apenas o formato que separa o Threehalves dos demais humanoides. Ao menos no estágio atual, o robô funciona por teleoperação. Uma pessoa o pilota a distância, com controles semelhantes a joysticks e resposta em tempo real, como se estivesse usando um avatar resistente.
“Estamos adotando uma abordagem concentrada na teleoperação não para substituir trabalhadores qualificados, mas para dar superpoderes a eles”, afirma a declaração de missão da empresa.
A proposta é atuar “em trabalhos que hoje são perigosos para os seres humanos ou impossíveis devido ao risco de ferimentos ou morte, calor extremo, frio intenso, escuridão total ou outras condições desumanas”.
A Satyress pretende usar os robôs em frentes de incêndios florestais e em áreas industriais tóxicas. Também planeja colocá-los em ação durante deslizamentos de terra, buscas em escombros e outros lugares nos quais o valor do investimento possa ser medido em funerais evitados.
Como resumiu o analista de robótica CyberRobo no X: “A ideia é simples: não substitua o profissional qualificado. Dê a ele um corpo capaz de sobreviver ao trabalho. A operação remota mantém o especialista em segurança enquanto a máquina enfrenta o calor, os impactos e a exposição”.
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A DISPUTA PELO FORMATO DOS ROBÔS
O Threehalves não está sozinho na aposta contra o modelo humanoide bípede popularizado pela ficção científica e hoje representado, de forma mais conhecida, pelo Optimus, da Tesla.
A indústria atravessa uma explosão cambriana, fragmentando-se em uma coleção de formatos concorrentes. Cada um busca seu próprio nicho em um mercado que pode moldar o futuro da economia e da sociedade.

A disputa também acontece entre países. Fabricantes chinesas já superam concorrentes norte-americanas em volume de produção e entregas de robôs humanoides.
Em um extremo estão os “replicantes”, como a série UWORLD U1, da chinesa UBTECH, apresentada pela empresa como a primeira linha de robôs humanoides ultrarrealistas projetada para produção em massa.
A aposta é que o futuro pertencerá à “companhia emocional” para milhões de pessoas que vivem sozinhas.
No outro extremo, há pequenos robôs transformáveis como o Qiyuan T1, apresentado como o primeiro robô pessoal capaz de mudar de forma.
Ele foi projetado para seguir uma pessoa e registrar sua vida. A máquina alterna entre uma postura humanoide sobre rodas, voltada para interações frente a frente, e uma configuração quadrúpede agachada, utilizada em terrenos irregulares. O próprio robô escolhe a posição de acordo com os dados captados por seus sensores.
Também na Califórnia, a Genesis criou o Eno, um “anti-humanoide” que combina mãos semelhantes às humanas, capazes de movimentos precisos, com uma base minimalista sobre rodas que se dobra como um origami.
Segundo seus criadores, ele foi concebido para corrigir o maior defeito de design da robótica moderna: o ego humano.
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COMO PARAR O ROBÔ
Meu detalhe favorito é que a Satyress publicou instruções para neutralizar seu próprio robô. A empresa planejou abertamente um cenário de “rebelião das máquinas” e desenvolveu três camadas de defesa.
Um gesto com a palma da mão levantada interrompe a máquina no meio de uma tarefa. Freios pneumáticos e travas por pinos são acionados automaticamente caso haja perda de energia ou da pressão do ar.
Como último recurso, os reservatórios pressurizados instalados no peito e nas costas podem ser perfurados por um projétil ou instrumento pontiagudo, imobilizando fisicamente a unidade.

Crédito: Satyress/ Divulgação
Há até uma contenção baseada na geometria. A máquina foi intencionalmente projetada para ser grande demais para atravessar com facilidade uma porta padrão norte-americana de 81 centímetros.
Ela também não consegue se virar em um corredor de 107 centímetros. Além disso, chifres maiores podem ser instalados para impedir sua passagem por entradas destinadas a pedestres.
Em um mercado inundado por humanoides que dançam em feiras de tecnologia, um monstro com cabeça de bode que segura firmemente uma motosserra e cabe em uma picape talvez seja o projeto de robô mais honesto do ano.
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A indústria não para de perguntar qual será a forma do futuro. A Satyress conjurou três metades de um pesadelo e construiu um demônio cujo próprio corpo funciona como jaula.