Robôs humanoides made in China dão baile nos made in USA
Empresas chinesas lideram nova era da automação com robôs humanoides em larga escala e apoio estatal

Em dezembro de 2025, a CATL, maior fabricante de baterias do mundo, iniciou o que chama de primeiro grande projeto de implantação em massa de robôs em sua fábrica de Luoyang, na China.
Em abril de 2026, a State Grid Corporation of China deu início a um plano de US$ 1 bilhão para colocar em operação um exército de humanoides dedicado à manutenção autônoma da rede elétrica do país.
Poucos dias atrás, a Japan Airlines anunciou o início de testes com robôs humanoides para transporte de bagagens em aeroportos.
Há duas razões principais para que os humanoides estejam avançando muito mais rápido na Ásia do que nos Estados Unidos ou na Europa. A primeira é puramente econômica: a China está obcecada por eficiência e redução de custos.
Há anos, a robótica industrial é um dos pilares da estratégia chinesa para diminuir preços e acelerar a produção. As chamadas “fábricas escuras” do país – linhas totalmente automatizadas operando sem iluminação porque os robôs não precisam dela – já se tornaram símbolo dessa transformação.
“A China é, de longe, o maior mercado de robótica do mundo em 2024. O país representa 54% das implantações globais”, afirma a Federação Internacional de Robótica em seu relatório World Robotics 2025. “Os números mais recentes mostram que 295 mil robôs industriais foram instalados no país, o maior total anual já registrado.”

Nesse contexto, humanoides (bípedes ou com rodas) surgem como o próximo passo natural. Principalmente agora que modelos de IA começam a compreender o mundo físico e empresas percebem o potencial gigantesco para tarefas gerais e especializadas que apenas robôs com características humanas conseguem executar adequadamente.
MENOS GENTE, MAIS ROBÔS
A segunda razão pela qual o Oriente está mais avançado que o Ocidente nesse campo é demográfica. O Japão envelhece rapidamente, enquanto na China cada vez menos pessoas querem assumir trabalhos pesados e perigosos, como manutenção de redes elétricas.
No Japão, mais de 30% da população já tem 65 anos ou mais. O país perde quase um milhão de habitantes por ano. A escassez de trabalhadores jovens tornou praticamente impossível preencher vagas em áreas como logística e aviação, forçando o país a uma dependência crescente de máquinas.

Na China, o problema é diferente, mas igualmente urgente. Embora o país tenha uma população gigantesca, sua tradicional força de trabalho industrial está envelhecendo rapidamente. Cerca de 300 milhões de trabalhadores migrantes – responsáveis pela construção da moderna infraestrutura chinesa nas últimas quatro décadas – estão próximos da aposentadoria.
As gerações mais jovens não querem substituir esses profissionais em funções altamente perigosas, como manutenção de linhas energizadas de 10 mil volts.
Diante da escassez crítica de mão de obra, a China decidiu apostar em eletricistas robóticos, capazes de operar 50% mais rápido do que equipes humanas e com taxa de sucesso de 98%.
O INCENTIVO DE GOVERNOS E EMPRESAS
China e Japão também têm recursos e disposição política para acelerar essa transformação. A China controla grande parte da cadeia global de suprimentos necessária para fabricar robôs em larga escala.
O Japão, por sua vez, trabalha com robótica há décadas e agora começa a sair de pequenas implementações hospitalares para projetos industriais de grande escala. O movimento em direção à logística aeroportuária nasce, sobretudo, do problema demográfico.
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Segundo o jornal britânico "The Guardian", o país precisará de de 6,5 milhões de trabalhadores estrangeiros até 2040 apenas para atingir suas metas de crescimento econômico. Ao mesmo tempo, enfrenta forte pressão política para limitar a imigração.
A solução encontrada é mecânica. A partir deste mês, um humanoide de 1,30 metro fabricado pela chinesa Unitree começará a transportar bagagens e cargas no aeroporto de Haneda, um dos maiores hubs do Japão, com mais de 60 milhões de passageiros por ano. Os robôs conseguem operar continuamente por duas a três horas.
Enquanto o Japão testa soluções para preencher um enorme vazio demográfico, a China mergulha de cabeça em uma industrialização robótica em massa.
Maior empresa de serviços públicos de energia elétrica do mundo, a Corporação Estatal de Redes Elétricas da China reservou 6,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 1 bilhão) para comprar aproximadamente 8,5 mil robôs apenas neste ano.

O pacote inclui cinco mil cães-robôs para inspeção de linhas elétricas em áreas montanhosas, mas a companhia também vem introduzindo humanoides e modelos de braço duplo para executar tarefas perigosas na rede de ultra-alta tensão.
Segundo a Zheshang Securities, a explosão da chamada IA incorporada (“embodied AI”) está apenas começando: a produção chinesa pode atingir 2,1 milhões de unidades até 2030. “Acreditamos que 2026 será o ano em que os robôs humanoides alcançarão produção em massa. O futuro chegou”, afirma a instituição financeira.
EXÉRCITO ROBÓTICO MARCHA RUMO À AUTOMAÇÃO
Esse futuro já está trabalhando na fábrica da CATL em Zhongzhou. Operando com um modelo de IA do tipo visão-linguagem-ação, os robôs humanoides Xiaomo, da Spirit AI, identificam visualmente posições incorretas de conectores e ajustam automaticamente sua pegada para conectar componentes de baterias de alta voltagem com taxa de sucesso de 99%.
Além de perigosa para humanos, a tarefa exige repetição constante, e os robôs não fazem pausas. Um único humanoide consegue executar uma carga diária de trabalho três vezes maior do que a de um funcionário humano.
E a CATL não está sozinha nessa corrida industrial. Um enorme ecossistema de fabricantes altamente especializados e bem financiados está impulsionando essa expansão.

A Unitree Robotics registrou mais de 5,5 mil entregas em 2025 e recentemente entrou com pedido de oferta pública de ações (IPO) de US$ 610 milhões na Bolsa de Xangai para ampliar sua capacidade produtiva.
Outra estrela do setor é a AgiBot. Fundada em 2023, a empresa de Xangai entregou mais de 5,1 mil robôs humanoides apenas em 2025, tornando-se líder global em volume de embarques e participação de mercado.
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No início de abril de 2026, a AgiBot chegou à unidade de número 10 mil na linha de produção, consolidando sua posição como maior fabricante comercial de robôs humanoides do mundo.
Para efeito de comparação, concorrentes norte-americanos como Figure AI, Agility Robotics e Tesla entregaram apenas uma fração do volume alcançado pela indústria chinesa.

Mas o avanço não se limita às startups de robótica. Empresas de tecnologia e montadoras também estão migrando rapidamente para a chamada IA incorporada.
A Xpeng iniciou, no primeiro trimestre de 2026, a construção de uma fábrica de 111 mil metros quadrados em Guangzhou para produzir seus populares robôs humanoides Iron ainda este ano.
A Xiaomi também entrou na corrida. O CEO Lei Jun anunciou recentemente que os humanoides da empresa concluíram testes autônomos em linhas de montagem de veículos elétricos, alcançando taxa de sucesso de 90% na instalação de porcas autotravantes de janelas em chassis de automóveis. A empresa pretende implantar essas máquinas em larga escala até 2030.
A QUESTÃO DA CADEIA DE SUPRIMENTOS
A China lidera essa corrida porque, além da vontade política e econômica, domina a infraestrutura industrial necessária para torná-la realidade.
É exatamente esse o desafio enfrentado por empresas norte-americanas como a Tesla: competir contra um exército robótico sustentado por uma cadeia de suprimentos quase totalmente chinesa.
O centro dessa estrutura está em Shenzhen, o hiperconcentrado polo manufatureiro que funciona como principal “forja robótica” do planeta.
a robótica industrial é um dos pilares da estratégia chinesa para diminuir preços e acelerar a produção.
No fim de 2025, Shenzhen produziu quase oito milhões de robôs de serviço – categoria que inclui máquinas logísticas, robôs de limpeza e plataformas que servem de base para humanoides mais avançados. Esse volume representou 43% de toda a produção nacional chinesa, elevando o valor da indústria robótica da cidade para mais de US$ 35,4 bilhões.
Yang Qian, diretor de operações da X Square Robot, afirma que a vantagem da cadeia local permite que “peças customizadas sejam entregues em dias, e não meses, como ocorre no exterior”. Segundo ele, os custos de iteração em Shenzhen são “apenas um décimo dos praticados fora da China”.
Enquanto isso, fabricantes dos EUA enfrentam dificuldades pela ausência de uma cadeia doméstica robusta. Um dos gargalos mais críticos está nos ímãs de terras raras. Um único Tesla Optimus precisa de até 3,6 quilos de ímãs de neodímio-ferro-boro para alimentar seus servomotores.

Quando Pequim interrompeu as exportações desses materiais em 4 de abril de 2025, após o presidente Donald Trump iniciar uma nova guerra tarifária contra a China, a produção do Optimus praticamente parou.
Fontes anônimas da cadeia de suprimentos do robô disseram ao site AInvest que a Tesla limitou seu estoque a cerca de mil unidades. Com o congelamento das compras, a meta de fabricar cinco mil robôs humanoides este ano se tornou “praticamente inalcançável”.
O problema para os EUA é que, enquanto Washington tenta desesperadamente construir uma cadeia doméstica de ímãs por meio de empresas como a MP Materials, a China também avança rapidamente nos modelos de IA usados por robôs humanoides, alcançando – e, em alguns casos, superando – concorrentes norte-americanos.
Se Washington e o Vale do Silício não investirem rapidamente em independência tecnológica em relação à China, os Estados Unidos correm o risco de ficar assistindo aos vídeos promocionais de Elon Musk enquanto a China constrói, na prática, a força de trabalho robótica do futuro para resolver problemas reais.