Por que tantos artistas fazem sucesso no streaming — mas não veem a cor do dinheiro

Metadados incompletos, royalties pulverizados e sistemas que não se conectam ajudam a explicar por que transformar audiência em receita ainda desafia a indústria da música.

Instrumento musical e estojo aberto com máquina de cartão sobre elementos de uma plataforma de streaming
Créditos: faishalabdula via Adobe Stock / MART PRODUCTION via Pexels

Victor Calazans 7 minutos de leitura
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Uma música pode acumular milhões de reproduções e ainda deixar parte do dinheiro pelo caminho.

O streaming derrubou uma das principais barreiras da indústria musical. Hoje, um artista independente consegue colocar uma faixa no Spotify, na Apple Music ou na Deezer em poucos dias. Fazer a receita chegar corretamente a todos os envolvidos continua sendo uma operação bem mais complicada.

Parte dos royalties fica retida no que o setor chama de black box: valores arrecadados que não podem ser distribuídos porque faltam informações para identificar quem tem direito a recebê-los.

O problema começa nos bastidores. Cada reprodução pode gerar receitas ligadas aos direitos fonográficos, relacionados à gravação, e aos direitos autorais, ligados à composição. Uma faixa pode envolver vários compositores, produtores e intérpretes, todos vinculados a contratos, associações e sistemas diferentes.

No meio do caminho estão códigos, planilhas, distribuidoras, entidades de gestão coletiva, redes sociais e contratos de participação. Quando uma informação chega errada ou incompleta, o dinheiro pode não alcançar o destino correto.

André Izidro, CEO da Atabaque e cofundador da musictech Rumpi, vê a governança dessa operação como uma das partes mais negligenciadas da carreira artística.

A democratização da música parou praticamente na porta de entrada da distribuição.

Com mais de 20 anos de atuação na indústria e passagens por Globo, Som Livre e KondZilla, Izidro trabalha com gestão e marketing musical. A Atabaque já participou de projetos de artistas como Ludmilla, Jota Quest, Felipe Amorim, Toquinho e Thiaguinho.

Para ele, a facilidade de distribuir música criou um paradoxo: nunca foi tão simples chegar às plataformas — e administrar tudo o que acontece depois nunca foi tão complexo.

A inteligência artificial adicionou outra camada ao problema. A Deezer afirma receber quase 75 mil faixas inteiramente geradas por IA por dia. A indústria também tenta conter esquemas de streaming fraudulento, nos quais bots reproduzem músicas artificialmente para capturar parte dos royalties.

Nesse cenário, Izidro defende que o número de reproduções já não basta para medir o sucesso de um artista. O tamanho e o engajamento da comunidade, a venda de ingressos, o consumo recorrente e a capacidade de transformar audiência digital em receita também entraram nessa conta.

A ENTREVISTA COM ANDRÉ IZIDRO

André Izidro, CEO da Atabaque e cofundador da musictech Rumpi
Para André Izidro, a falta de governança e a fragmentação dos dados ainda dificultam o pagamento correto dos royalties.

FC Brasil - O streaming democratizou a distribuição, mas não a gestão?

André Izidro - Sim. A democratização da música parou praticamente na porta de entrada da distribuição. Hoje, qualquer artista independente consegue subir uma faixa no Spotify, na Apple Music ou na Deezer em questão de dias por meio de distribuidoras digitais abertas e acessíveis.

O problema começa depois. O artista ou empresário precisa navegar por dezenas de sistemas que não conversam entre si. A distribuidora entrega um relatório em CSV com milhares de linhas. O ecossistema de execução pública, formado pelo ECAD e suas associações no Brasil, exige outros cadastros. As redes sociais apresentam métricas separadas, enquanto contratos de coautoria muitas vezes ficam espalhados em mensagens e PDFs.

Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica, as receitas globais da música gravada chegaram a US$ 31,7 bilhões em 2025. Já a CISAC, que reúne sociedades de autores e compositores, registrou € 12,59 bilhões em royalties musicais em 2024. Desse total, € 5 bilhões vieram do uso digital.

Sem governança, o artista trabalha muito, preenche arenas, mas pode não ver a cor do dinheiro que gerou no ecossistema digital

Apesar do volume de dinheiro em circulação, falhas na padronização e no preenchimento de metadados contribuem para que valores fiquem retidos na chamada black box. Entre os dados essenciais estão o ISRC, que identifica a gravação, e o ISWC, usado para identificar a composição.

Foi olhando para essa fragmentação que criamos a Atabaque e o Rumpi. A ideia é centralizar dados, divisão de royalties e fluxos de pagamento. Gerenciar um volume tão grande e fracionado de dinheiro sem um centro de governança é parte do que mantém a receita dos músicos dentro dessa caixa-preta.

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FC Brasil - Por que a tecnologia que existe por trás da operação de um artista ainda recebe tão pouca atenção?

André Izidro - A indústria da música mudou completamente depois da crise da pirataria e da ascensão dos modelos de assinatura. A mentalidade de gestão de muitos agentes não acompanhou essa transformação.

Muitos artistas e empresários ainda enxergam o show como a fonte de receita imediata e tratam o streaming e as redes sociais principalmente como métricas de audiência. O desafio é transformar essa audiência em fluxo de caixa real.

O dinheiro da música é extremamente fracionado. Cada vez que uma faixa toca no streaming, há receitas ligadas aos direitos fonográficos, que envolvem a gravação, e aos direitos autorais, relacionados à composição.

Streaming e redes sociais não deveriam ser o destino final da estratégia

Uma única música pode ter cinco compositores, dois produtores e três intérpretes, cada um ligado a associações e contratos diferentes. Auditar e distribuir esses centavos exige uma infraestrutura contábil sofisticada.

A operação de um artista de médio ou grande porte já se parece com a de uma empresa. São milhões de reais movimentados em diferentes fontes de receita. Administrar essa complexidade apenas com planilhas e repasses sem critérios claros de auditoria aumenta o risco de perda de receita e de problemas fiscais.

Esse backoffice é uma parte invisível da indústria, mas fundamental. Sem governança, o artista trabalha muito, preenche arenas, mas pode não ver a cor do dinheiro que gerou no ecossistema digital.

FC Brasil - Como a inteligência artificial está entrando nesse mercado?

André Izidro - O ecossistema cultural brasileiro costuma adotar novas tecnologias rapidamente. Com a IA generativa, estamos vendo uma mistura de entusiasmo criativo, cautela regulatória e mobilização jurídica.

A discussão não envolve apenas ferramentas que ajudam a fazer arranjos ou masterizações. A IA também passou a representar um risco financeiro e uma questão de propriedade intelectual.

A Deezer afirma receber quase 75 mil faixas totalmente geradas por IA por dia. Isso representa mais de 44% de todo o conteúdo enviado diariamente à plataforma.

Outro problema são as redes de streaming fraudulento, com bots programados para reproduzir faixas sintéticas em sequência e capturar parte do dinheiro destinado aos royalties.

É importante separar os usos. Produtores e compositores já utilizam IA para separar pistas, limpar ruídos, sugerir harmonias e criar guias. São ferramentas que ajudam no processo criativo.

O principal embate está nas plataformas capazes de gerar faixas inteiras e que foram treinadas com catálogos protegidos sem autorização ou compensação aos titulares.

A indústria já começou a buscar acordos. Em novembro de 2025, a Warner Music Group fechou uma parceria com a Suno que encerrou uma disputa judicial e abriu caminho para o desenvolvimento de modelos treinados com músicas licenciadas.

A tendência, na minha visão, será criar regras de licenciamento e remuneração para o uso da tecnologia.

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FC Brasil - Em tempos de streaming, qual é o verdadeiro termômetro do sucesso de um artista?

André Izidro - O sucesso sustentável deixou de ser apenas o volume bruto de streams ou a posição em uma parada.

Ele está na profundidade da comunidade que o artista consegue construir, na capacidade de transformar ouvintes ocasionais em compradores de ingressos, na venda de produtos e no consumo orgânico recorrente.

Streaming e redes sociais não deveriam ser o destino final da estratégia. Eles funcionam como porta de entrada para ampliar a presença do artista e gerar receita também fora das plataformas.

Estamos vivendo uma mudança importante. Na indústria analógica, o espaço nas lojas de discos e nas rádios era limitado. Poucas empresas tinham enorme poder para decidir quem se transformaria em um artista de massa.

Com a distribuição praticamente ilimitada do streaming, esse modelo perdeu força. Hoje vemos uma hipersegmentação do consumo e o fortalecimento de mercados locais e regionais.

O Brasil é um bom exemplo. Artistas como Taty Girl, Michele Andrade, Raphaela Santos e Nadson O Ferinha conseguem construir bases gigantescas de fãs e agendas rentáveis sem depender da validação do eixo Rio-São Paulo ou da mídia nacional.

Isso mostra que um artista pode manter uma carreira sustentável concentrando sua força em determinada região ou comunidade.

A régua do sucesso mudou. O objetivo não precisa ser se tornar global. Em muitos casos, ser extremamente relevante para uma comunidade específica pode formar um negócio muito mais sólido.


SOBRE O AUTOR

Victor Calazans tem mais de 15 anos de experiência em redes sociais, com uma década dedicada ao universo de celebridades e entretenime... saiba mais