O navio que encalhou no Canal de Suez na semana passada causou prejuízos bilionários. Quase do tamanho do Empire State, a embarcação obstruiu uma das principais vias de transporte do mundo, responsável por 30% da circulação de contêineres. Nada menos que 10 navios petroleiros com 13 milhões de barris – o equivalente à produção diária da Arábia Saudita e do Iraque, os maiores produtores da Opep – ficaram presos no “engarrafamento”.

Esses cálculos, liberados quase que em tempo real por bancos de investimentos, analistas e players do setor, foram feitos por uma empresa chamada Vortexa. Fundada em 2016, em Londres, ela foi criada por um brasileiro: o administrador Fabio Kuhn.

Após alguns anos trabalhando na Uniper (Alemanha) e na BP (Londres), ele percebeu que a tomada de decisão no segmento de gestão de energia era feita de maneira lenta e pouco eficiente. Decidiu, então, criar uma plataforma que analisa dados de satélite sobre a movimentação internacional de navios que carregam energia, como petróleo, diesel e gás natural.

A startup desenvolveu algoritmos que conseguem prever, com base em dados como padrões de movimentação e nível dos navios em movimento, o fluxo de combustíveis entre portos. A partir dessas informações, é possível saber se faz sentido enviar um carregamento de combustível para determinada região. Ou acelerar uma tomada de decisão, como no caso do acidente no Canal de Suez.

Dashboard da Vortexa, que analisa dados de satélite sobre a movimentação de navios que carregam energia, como petróleo, diesel e gás natural (Crédito: Divulgação)

“Enxerguei uma oportunidade na maneira como a tecnologia poderia solucionar diversos problemas do setor”, disse Kuhn à Fast Company Brasil. “Cada navio carrega, em média, o equivalente a quase US$ 20 milhões em energia”, explica. “Cada decisão é vital, e nossa plataforma permite tomá-las em tempo real”.

Kuhn surfou na onda da digitalização do setor de energia. Ele conta que, há 10 anos, havia apenas um satélite em órbita para monitorar o fluxo dos navios no mundo. Há 5 anos, eram três. Hoje são 147 satélites em funcionamento. “O mercado é gigantesco, movimenta quase US$ 2 trilhões por ano e 10% do PIB mundial. Com o avanço da tecnologia, não fazia mais sentido monitorar o fluxo de energia de maneira analógica”, afirma Kuhn. “Depois que a SpaceX entrou no mercado global de satélites, os custos caíram dramaticamente. Vi uma porta aberta e entrei”.

A Vortexa cresce de maneira acelerada. Triplicou de tamanho de 2019 para 2020. Do ano passado para cá, triplicou novamente. Além do escritório em Londres, há um em Houston (EUA) e outro em Cingapura. Neste ano, estão previstos novos escritórios na China e em Dubai. A empresa tem como clientes as principais companhias do setor de energia, além de bancos de investimentos, estaleiros e empresas de carga.

O desempenho e, sobretudo, o potencial de crescimento fizeram a empresa captar recentemente um aporte de US$ 19 milhões, numa rodada Série B liderada pela Monashees – um dos principais players da indústria de venture capital do Brasil, gestora de investimentos em sete unicórnios (99, Rappi, Loggi, Pipedrive, Loft, Gympass e MadeiraMadeira) e ativa em empresas como Fazenda Futuro, Enjoei, Méliuz, PetLove e Neon. O investimento na Vortexa é o primeiro aporte da gestora numa empresa sediada em Londres.

“Abrimos uma rodada internacional, a Monashees competiu e venceu”, diz ele. “Vou confessar que está sendo ótimo ter um sócio brasileiro”. A Vortexa já havia captado US$ 11 milhões em duas rodadas anteriores. O cheque novo – e polpudo – da Monashees está sendo usado para ampliar a equipe, financiar a expansão internacional e aumentar o poderio tecnológico. “Vamos focar no aprimoramento da inteligência artificial e do machine learning para tornar nossas previsões ainda mais precisas”, diz Kuhn.

Fundada pelo brasileiro Fabio Kuhn em Londres, a Vortexa acaba de receber um aporte de US$ 19 milhões, numa rodada Série B liderada pela também brasileira Monashees (Crédito: Divulgação)

“A parceria com a Vortexa tem um significado muito especial para nós. É uma honra e um privilégio para a Monashees apoiar um empreendedor brasileiro tão talentoso e com valores tão alinhados com os nossos como o Fabio”, afirma Eric Acher, sócio da gestora. “Ele lidera um time em escala global num mercado altamente complexo. Isso tem o poder de inspirar uma nova geração de empreendedores brasileiros a criar soluções para problemas globais”, diz Acher.

A aventura empreendedora de Kuhn começou no Brasil. Com 18 anos, após se formar em administração em Salvador (BA), criou um provedor de acesso à Internet (o EliteNet) e o vendeu para o Terra. Mudou-se então para os Estados Unidos, onde fez MBA na Purdue University e mestrado em Harvard. Depois mudou-se novamente, desta vez para a costa oeste, onde atuou em fundos de investimento na Califórnia. Conheceu a mulher, de origem croata, e depois de sete anos vivendo nos EUA decidiu morar com a família na Europa, onde passou a trabalhar no mercado de energia.

O próximo passo da Vortexa – além de uma abertura de capital no horizonte – é, segundo seu fundador, ajudar o mundo na transição das energias. “ESG é algo essencial, temos metas agressivas, e também para diversificar os tipos de energia monitorados, sobretudo eólica, solar e hidrogênio. O mundo precisa ser mais eficiente e transparente na gestão energética”, afirma Kuhn.