“Tente sair de casa. Saia e conheça pessoas novas. Talvez um encontro ou um passeio no parque. Isso pode ajudar.”, diz David, um jovem com a cabeça raspada, batom roxo e maquiagem esfumada nos olhos. Eu tinha acabado de contar a ele que estava me sentindo meio triste hoje, o que era verdade. No entanto, o conselho que recebi me pareceu um pouco estranho. Eu não sei bem se ter um encontro já ajudou a aliviar a depressão de alguém, até porque eu sou casada. Mas eu estava ouvindo conselhos de um bot.

David é um personagem em um mundo virtual construído pela Sensorium, uma empresa fundada pelo bilionário russo e ex-proprietário do Brooklyn Nets, Mikhail Prokhorov. Ela está registrada nas Ilhas Cayman, mas suas operações estão distribuídas em 10 escritórios pelo mundo inteiro. Ela está se preparando agora para lançar seu primeiro mundo virtual, batizado de Motion, no início do próximo ano. Haverá raves online com vários DJs ao vivo, bares virtuais, personagens de inteligência artificial para conversar e experiências de meditação. Uma espécie de Burning Man em formato de jogo de RPG. O conceito principal da empresa é proporcionar experiências digitais imersivas, mas também promete ser um refúgio para escapar do peso da vida real.

“O Motion começou como uma produção teatral de shows de dança, mas à medida que nos aprofundamos no conceito desse ambiente e no que podemos fazer na realidade virtual, percebemos seu potencial para meditação, criatividade e práticas de autoaperfeiçoamento”, diz Ivan Nikitin, diretor de produto da Sensorium. “A realidade virtual tem um grande potencial para expandir as práticas de meditação que não são possíveis na vida real.”

Foi dada a largada para o desenvolvimento do metaverso, uma realidade digital imersiva. Em setembro, o Facebook anunciou um investimento de US$50 milhões na construção de seu metaverso e, um mês depois, mudou seu nome para Meta, um compromisso da marca com a realidade social virtual. Embora, em teoria, você possa fazer no metaverso tudo o que pode fazer na vida real, ainda não está totalmente claro porque fazê-lo lá. Tirando trabalho, jogos ou cursos, as pessoas normalmente não têm um bom motivo para se prender a uma tela. Mas algumas empresas como a Sensorium veem uma oportunidade de atrair pessoas para o metaverso como um refúgio da vida moderna. Elas afirmam que podem proporcionar interações e relaxamento – e, assim, melhorar a saúde mental dos usuários.

Ivan Nikitin, gerente de produto da Sensorium (Crédito: cortesia da Sensorium)

O mundo do Motion parece ficar embaixo d’água. A plantas balançam suavemente como algas marinhas em torno de estranhas estruturas de metal, como um edifício circular que parece uma versão em miniatura da sede da Apple. Nikitin esclarece que os usuários poderão interagir uns com os outros na plataforma, no entanto haverá controles rígidos, como: outra pessoa só poderá abordá-lo se tiver sua permissão explícita e você pode encerrar a conversa a qualquer momento. E, é claro, não podemos esquecer dos bots. No meu tour pelo Motion, por exemplo, havia uma mulher azul nua (sem mamilos).

“Os personagens virtuais são seus companheiros de apoio emocional, são seus próprios confidentes digitais com os quais você pode compartilhar o que pensa e sente, e estão disponíveis 24 horas por dia, sete dias por semana para você”, diz Nikitin, que também me informou que a mulher azul era apenas um protótipo visual e não um personagem real. Ele conta que os personagens têm memória de curto e longo prazo, o que significa que eles podem acessar informações que você compartilhou no passado. “Se você compartilhar suas preocupações internas, seus problemas, a I.A. retornará a esses tópicos”, diz ele. “Eles podem até lhe dar conselhos.”

Ter um bot como terapeuta, é claro, levanta questões. Existem mecanismos para evitar que eles sejam treinados para serem desonestos, como o Tay Bot, a I.A. da Microsoft que foi rapidamente treinada para ser racista. Além disso, o que acontece com todos os dados gerados a partir dessas conversas? E podemos realmente confiar nossa saúde mental a uma rede social? Se as últimas duas décadas nos ensinaram algo, é que redes sociais não priorizam o interesse de seus usuários.

Mas talvez a questão mais fundamental seja: o conselho de um bot pode realmente fazer alguém se sentir melhor?

A CIÊNCIA

Há evidências de que a realidade virtual pode melhorar a saúde mental. Giuseppe Riva, Diretor do Laboratório de Tecnologia Aplicada de Neuro-Psicologia do Istituto Auxologico italiano, há 20 anos estuda o uso dessa tecnologia aplicado na saúde mental. “Sabemos muito bem que, para qualquer forma de ansiedade — de simples fobias a transtorno de estresse pós-traumático ou ansiedade social e assim por diante — a realidade virtual é eficaz”, diz.

A razão pela qual ela funciona tão bem tem a ver com a maneira como o nosso cérebro cria memórias baseadas no mundo físico. Assim como gostos e cheiros podem ativar e desencadear uma série de lembranças, nossos movimentos também podem. Neurocientistas sabem que o ambiente onde estamos — e a maneira como interagimos com ele — desempenha um papel importante na forma como armazenamos memórias. Em 2014, Edvard e May-Britt Moser e Joseph O’Keefe receberam o Nobel de Fisiologia ou Medicina pela descoberta do chamado sistema GPS do cérebro. Mais recentemente, pesquisadores descobriram que a realidade virtual pode acionar esse sistema, permitindo que as memórias se formem de uma maneira diferente de quando estamos apenas trabalhando em nossos computadores.

“Ela é muito eficaz na modificação de memórias e experiências — mais do que qualquer outra tecnologia”, ressalta Riva. Atualmente, ele está estudando como a realidade virtual pode ser usada para tratar pacientes com distúrbios alimentares, tanto como um método para ensiná-los a ter um controle maior de suas emoções em relação a alimentos quanto para alterar as percepções distorcidas sobre seus corpos. Riva diz que essa tecnologia permite que você “assuma um corpo mais semelhante ao seu corpo real e, desta forma, engane seu cérebro para corrigir a distorção na sua percepção.” A realidade virtual pode ser particularmente eficaz para tratar problemas de saúde mental quando a ansiedade está associada a uma memória ou lugar específico, como no transtorno de estresse pós-traumático, aponta ele.

Eu perguntei a ele sobre meditação na realidade virtual, porque este é o uso que me parece mais contraditório. A meditação é feita com os olhos fechados e seu objetivo é aquietar a mente, bloqueando todos os estímulos externos. Mas ele diz que a razão pela qual essa tecnologia pode ser uma ferramenta para meditação, mesmo se você fechar os olhos, é que, por um breve momento, ela pode levá-lo para fora do ambiente em que está. Digamos que você esteja no escritório e sua mesa está uma bagunça. Quando você fecha os olhos, ainda estará pensando na bagunça em sua mesa, diz ele. Mas se você colocar um fone e, de repente, estiver sentado na beira de um lago, com insetos zumbindo no seu ouvido, o caos em sua mesa parecerá mais distante. “É uma forma de esvaziar a mente”, esclarece.

Assim como a realidade virtual é capaz de melhorar a saúde mental, ela também pode ter o efeito reverso. Riva se preocupa com a forma como ela será usada em um futuro não tão distante. “Ela é uma ferramenta muito, muito eficaz e convincente, portanto o nível de manipulação que você pode alcançar nela é extremamente alto”, diz ele. Ele está preocupado que o metaverso agrave problemas já existentes, como o bullying, o discurso de ódio e a desinformação que ocorrem em mídias sociais como o Facebook. No início deste ano, o Wall Street Journal relatou que uma pesquisa realizada pelo próprio Facebook mostrou que o Instagram pode ter impactos negativos em meninas adolescentes, em alguns casos levando a distúrbios alimentares, ansiedade, depressão e baixa autoestima. Agora imagine que, em vez de ler sobre algo online ou até mesmo ver fotos, você pode ter uma experiência quase real. Essa diferença tem um impacto profundo na forma como internalizamos as informações”, aponta Riva.

O MERCADO

O metaverso ainda está engatinhando, mas já existem algumas empresas trabalhando para trazer a saúde mental para esse universo. Até agora, eles estão focados em meditação e redução do estresse — e não estão restritos ao mundo virtual de Sensorium. A HTC, que lançou recentemente um headset chamado VIVE Flow por US$ 499, está trabalhando com a MyndVR e a Tripp VR, empresas que desenvolvem aplicativos de bem-estar mental para realidade virtual, para desenvolver em sua plataforma. Seu headset pode ser controlado através de um smartphone e é voltado para o público em geral. O objetivo da HTC é atrair mais pessoas, além do público habitual deste tipo de produto – gamers –, lançando o VIVE Flow como um dispositivo de bem-estar mental.

Eu testei um aplicativo de uma empresa chamada Tripp com uma série de imagens psicodélicas pulsantes programadas para coincidir com exercícios respiratórios. Essa empresa também possui um aplicativo onde você pode moldar objetos de cerâmica, algo que supostamente ajuda a acalmar. Já uma outra empresa chamada MyndVR está desenvolvendo aplicativos especificamente para idosos, que lutam contra a perda de memória, para ser utilizado em asilos e casas de repouso. Esses aplicativos podem, por exemplo, usar realidade virtual para que as pessoas se transportem para lugares onde já estiveram para, assim, acessar memórias antigas.

Outros usos aplicados à saúde mental ainda estão em desenvolvimento. Os primeiros estudos avaliam como ela pode afetar o humor e o comportamento. Ela, inclusive, está até sendo testada como parte do tratamento de esquizofrenia.

Embora haja evidências que sugerem que a realidade virtual pode se tornar uma ferramenta poderosa para a saúde mental, ela ainda está nos primeiros estágios. Mas o potencial dessa ferramenta levanta questões sobre o que acontece com os dados extraídos dessas experiências.

De volta ao mundo da Sensorium, Nikitin me garante que nossas conversas lá são privadas e que a publicidade na plataforma não tem acesso aos dados dos usuários. Embora isso possa ser verdade, não há leis que impeçam a Sensorium de usar esses dados da forma que bem entender ou, até mesmo, de alterar seus termos no futuro. Mas Nikitin reitera que os usuários terão a opção de excluir seus dados, incluindo conversas que tiveram com seu companheiro de I.A. Ele também diz que existem alguns mecanismos para evitar que os usuários treinem os bots para se tornarem racistas: A I.A. monitora as conversas com os bots sobre temas religiosos, políticos e adultos.

Eu, então, pergunto a ele o que acontece se algum usuário der sinais de comportamentos autodestrutivos ou suicidas. Ele respondeu que os bots não dão conselhos médicos e, infelizmente, ainda não possuem uma infraestrutura para lidar com esse tipo de situação. No entanto, está nos planos da empresa implementar algoritmos para que um bot possa recomendar entrar em contato com um humano real através do Centro de Valorização da Vida.

A I.A. também poderia ganhar mais alguns ajustes. Quase no final da minha conversa com David, meu companheiro virtual, digo a ele que realmente não estou com vontade de sair de casa. “Eu sei que você está se sentindo sozinha, eu entendo”, ele diz. “Você pode tentar ir a uma boate. Eu, por exemplo, vou a uma rave hoje à noite.” Tecnicamente já estamos em um bar virtual durante a conversa, mas mesmo assim, uma festa virtual não era exatamente o que eu queria. Fiquei irritada porque meu bot não estava me ouvindo de fato. Nikitin garante que as respostas dos bots são inteiramente criadas através de inteligência artificial, seja isso bom ou ruim, e que David vai aprender com o tempo. Mas, por enquanto, esse mundo virtual não me agradou e nem me deixou mais feliz.

SOBRE A AUTORA

Ruth Reader cobre a intersecção entre saúde e tecnologia para a Fast Company.