Starlink é realmente à prova de autoritarismo?

A internet via satélite, como qualquer plataforma, não é imune à intimidação de regimes autoritários nem aos interesses de seus donos privados

Créditos: Morteza Nikoubazl/ NurPhoto/ Getty Images/ Starlink/ Shutterstock

Rebecca Heilweil 6 minutos de leitura

As redes de comunicação por satélite têm se mostrado resilientes em meio à repressão.

Em meio ao crescimento dos protestos e à escalada da violência no Irã, o governo do país bloqueou o acesso a sistemas domésticos de comunicação e impôs um apagão quase total da internet que durou cerca de uma semana.

Mas a Starlink, serviço de internet via satélite operado pela SpaceX, funciona exclusivamente com terminais pessoais que se conectam diretamente à sua constelação de satélites e não depende de nenhuma infraestrutura controlada pelo regime.

Como resultado, a tecnologia se tornou uma tábua de salvação e uma das poucas formas de as pessoas no Irã mostrarem ao resto do mundo a dura realidade vivida no país.

“A maior parte da comunicação [no país] está sendo feita pela Starlink”, afirma Amir Rashidi, diretor de segurança da internet e direitos digitais do Miaan Group, organização que vem monitorando o apagão de comunicações no Irã. “Sem a Starlink, você não veria esses vídeos nem receberia notícias.”

Mais novidades envolvendo a Starlink no Irã podem surgir nos próximos dias. A SpaceX isentou usuários iranianos da taxa inicial de assinatura do serviço e organizadores vêm compartilhando orientações sobre como usar a tecnologia da forma mais segura possível em meio a uma repressão brutal.

A situação é um lembrete de que, em emergências – e em momentos de turbulência política – o acesso à internet pode ser uma ferramenta essencial. De fato, é fácil enxergar a Starlink como uma tecnologia, em essência, à prova de autoritarismo.

Mas a internet via satélite, como qualquer plataforma, não é totalmente imune à intimidação de regimes autoritários. Embora a SpaceX esteja prestando um serviço crucial neste momento, a empresa, assim como seu líder, Elon Musk, é uma entidade privada, cujos objetivos não estão necessariamente alinhados com valores como a liberdade de expressão ou mesmo com os interesses da política externa dos Estados Unidos, onde fica a sua sede.

ACESSO LIMITADO

Neste momento, mesmo com protestos se espalhando por grande parte do país, apenas um pequeno número de iranianos tem acesso aos terminais da Starlink, necessários para se conectar à constelação de satélites da empresa.

Esse hardware é difícil de conseguir. O Irã não tem vendedores autorizados da Starlink, o que obriga pessoas comuns a recorrerem ao mercado ilegal, onde os equipamentos são caros, como a revista "Forbes" já havia reportado anos atrás.

No momento, não há muitos terminais disponíveis, embora relatos indiquem que o número tenha crescido recentemente. Em dezembro de 2022, Elon Musk afirmou que havia cerca de 100 terminais no país.

essa é uma das empresas do biolionário
Crédito: Imagem criada com o uso de IA via ChatGPT

No final de 2024, havia cerca de 20 mil usuários iranianos, segundo estimativas, e possivelmente dezenas de milhares agora, diz Rashidi. Ainda assim, o Irã tem cerca de 90 milhões de habitantes, o que significa que a maioria das pessoas não terá acesso aos serviços da Starlink tão cedo.

O governo iraniano também vem adotando medidas ativas para interromper o serviço. No ano passado, o parlamento aprovou uma lei que proíbe o uso da rede da Starlink. Quem utiliza a tecnologia corre o risco de prisão ou até mesmo da pena de morte, caso seja acusado de espionagem.

Embora o governo iraniano já tenha reclamado, no passado, da facilidade de ocultar dispositivos da Starlink (alguns equipamentos cabem em uma mochila), autoridades teriam começado a vasculhar o país em busca de sinais de terminais, inclusive usando drones para procurar antenas e equipamentos instalados em telhados.

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A Starlink também pode ser vulnerável a interferências. O governo iraniano parece ter prejudicado parcialmente o serviço em algumas regiões ao interferir no sinal de GPS do qual a Starlink depende, reduzindo, na prática, sua capacidade total.

Esses problemas não parecem ter tirado a rede do ar completamente. Ainda assim, a interrupção pode sinalizar futuras tentativas de outros governos de enfraquecer o serviço e mostra que existem maneiras de comprometê-lo.

No futuro, à medida que a infraestrutura comercial da SpaceX se torne cada vez mais integrada aos sistemas de segurança nacional e defesa dos Estados Unidos, cresce também o incentivo para que adversários estrangeiros investiguem formas de derrubá-la. Pesquisadores na China já estudaram maneiras de interferir em um serviço como o da Starlink usando enxames de drones.

QUEM SE BENEFICIA?

A Starlink muitas vezes vira uma plataforma essencial de comunicação em lugares que vivem intensas crises políticas – mais recentemente, na Ucrânia, em Gaza e na Venezuela.

Em emergências, o serviço pode até ser fornecido gratuitamente. A SpaceX ofereceu terminais sem custo à Ucrânia e está fornecendo conexões gratuitas na Venezuela até fevereiro.

O acesso à internet é vital para as pessoas no terreno, mas essas iniciativas também têm um peso geopolítico. Esses acordos ajudaram a estreitar ainda mais a relação da SpaceX com o governo dos Estados Unidos. Hoje a empresa mantém inúmeros contratos com agências civis e de defesa.

antena terrestre para comunicação via satélite

Mas, embora essas ações possam ser lidas sob a ótica do combate ao autoritarismo ou da liberdade na internet, especialistas ouvidos pela Fast Company afirmam que elas devem ser entendidas, antes de tudo, como esforços para avançar os interesses da política externa dos EUA – além dos interesses da própria SpaceX e de Elon Musk.

Sempre existe o risco de Musk ou da liderança da SpaceX desligarem o serviço para influenciar um resultado político. Um bom exemplo ocorreu há alguns anos, quando Musk ordenou o desligamento da Starlink em uma área disputada da Ucrânia, deixando tropas sem comunicação e comprometendo uma contraofensiva ucraniana.

“A SpaceX usa conflitos geopolíticos para provar a capacidade de seus serviços para comunicações seguras e para demonstrar como eles são indispensáveis”, afirma Joscha Abel, pesquisador da Universidade de Tübingen, que estuda o serviço.

em emergências e em momentos de turbulência política, o acesso à internet pode ser uma ferramenta essencial.

“Empresas de tecnologia como a SpaceX frequentemente se alinham aos objetivos geoestratégicos do governo dos EUA para garantir contratos públicos lucrativos e ver suas tecnologias incorporadas ao planejamento de segurança nacional e militar”, explica.

Em outras palavras, a Starlink foi apresentada à Ucrânia como uma tecnologia libertadora, que ajudaria o país em sua luta contra a Rússia. Mas depender dela acabou submetendo suas tropas às preferências políticas da liderança da empresa.

Embora Musk se apresente como um defensor da liberdade de expressão, ele já tomou medidas no passado para silenciar críticos em sua plataforma de mídia social, o X.

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Como muitos outros líderes empresariais, ele também mantém interesses comerciais em alguns países autoritários – locais onde operar plataformas abertas nem sempre atende aos seus interesses de negócio.


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