Não é mais fandom, é fanfic! Fãs querem viver dentro das histórias

A ascensão dos subfandoms está mudando a lógica do entretenimento. Com ajuda da inteligência artificial, fãs deixam de apenas consumir franquias para criar, remixar e expandir seus próprios universos narrativos

Mulher em cenário surreal cercada por livros abertos, representando a participação dos fãs na criação de novas histórias e universos narrativos.
A ascensão dos subfandoms está transformando fãs em participantes ativos, capazes de expandir e reinterpretar universos narrativos com ajuda da IA.

Karandeep Anand 5 minutos de leitura

Há uma década, o sucesso na mídia significava conquistar a maior audiência possível. Hoje, cada vez mais, ele depende de atender aos superfãs.

Mas uma transformação ainda mais profunda está em curso. As audiências mais engajadas já não se organizam em torno da franquia original, e sim de momentos, personagens ou interpretações específicas dela. Os subfandoms já geram mais engajamento do que o material que lhes deu origem.

Isso pode ser observado em diferentes áreas do entretenimento, de vídeos virais aos games, onde assistir outras pessoas jogarem se tornou tão popular quanto, ou até mais popular do que jogar.

No entanto, o ciclo tradicional de criação de conteúdo não acompanha essa mudança. Os estúdios lançam grandes filmes a cada poucos anos, ou jogos a cada cinco a sete anos, deixando longos intervalos entre os momentos de engajamento.

Surge então um descompasso: o público quer interações constantes e personalizadas, enquanto as franquias continuam estruturadas em torno de lançamentos esporádicos e de alto custo. Para manter os subfandoms ativos, os estúdios precisam encontrar maneiras de estimular microengajamentos contínuos com seus fãs.

É nesse ponto que entra a inteligência artificial generativa. Hoje, detentores de propriedades intelectuais (IPs) conseguem criar novos pontos de contato com suas comunidades para além dos lançamentos tradicionais. Isso oferece aos fãs novas formas de personalizar sua relação com as franquias que acompanham.

Para os detentores de IP e criadores de ideias, a pergunta deixou de ser "que conteúdo devemos produzir?" e passou a ser "que ferramentas devemos oferecer para que o público desenvolva seus próprios subfandoms?". A verdadeira oportunidade está em dar às pessoas os recursos para criarem suas próprias histórias.

POR QUE OS SUBFANDOMS SUPERAM AS FRANQUIAS ORIGINAIS

Tradicionalmente, os fandoms se organizavam em torno de uma obra específica: uma série, um filme, um artista ou um criador. O engajamento estava ancorado principalmente na narrativa original.

Os subfandoms funcionam de outra forma. Eles se concentram em uma parte específica desse universo. Pode ser um relacionamento entre dois personagens, uma versão alternativa do que acontece após o fim da história ou uma releitura de um personagem secundário que nunca foi totalmente explorado.

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Os subfandoms funcionam de outra forma. Eles se concentram em uma parte específica desse universo.

Nessas comunidades, o enredo principal se torna secundário. Vemos isso acontecer diariamente na cultura da internet. Milhões de pessoas participam de tendências construídas a partir de uma única frase, cena ou ideia. Muitas delas, porém, nunca assistiram às obras nem leram as histórias que deram origem àquele conteúdo.

Essa dinâmica revela algo importante: aquilo com que as pessoas realmente se conectam nem sempre é a história completa, mas sim um elemento específico dela.

O MODELO TRADICIONAL DE FRANQUIAS NÃO FUNCIONA NO NÍVEL DOS SUBFANDOMS

As empresas de mídia foram construídas para se comunicar com grandes audiências, a ideia tradicional da mídia em massa. Estúdios investem pesadamente em franquias globais, blockbusters e narrativas capazes de atrair o maior número possível de pessoas.

Mas o público está se movendo na direção oposta. Ele está gravitando em direção a experiências mais específicas e personalizadas que refletem seus interesses individuais, muitos dos quais não estão ligados a franquias tradicionais. As redes sociais aceleraram essa mudança ao fragmentar o público e acostumar os usuários a esperar feeds hiperpersonalizados.

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Esse nível de engajamento profundo tem se mostrado mais lucrativo do que o alcance massivo. Segundo o relatório Digital Media Trends 2026, da Deloitte, a era da "mídia de massa" já se desvinculou do modelo tradicional. Os superfãs gastam, em média, US$ 71 por mês com streaming, valor 27% superior ao desembolsado por espectadores comuns.

Ao mesmo tempo, as plataformas e a lógica econômica do setor ainda não acompanharam essa mudança. Produções de grande orçamento continuam exigindo audiências gigantescas para justificar seus custos, mesmo com o crescimento do streaming desacelerando para cerca de 7% e um mercado cada vez mais saturado.

O resultado é que os estúdios não conseguem criar conteúdo para cada nicho, narrativa paralela ou comunidade específica. Isso deixa uma enorme demanda reprimida por histórias mais personalizadas.

A IA ALIMENTA OS SUBFANDOMS

A inteligência artificial generativa elimina a barreira econômica que antes tornava inviável atender aos subfandoms e aos microengajamentos diários que os mantêm ativos.

Em vez de produzir conteúdo para as audiências, as empresas podem permitir que as próprias audiências o produzam.

Com ferramentas de IA cada vez mais integradas ao cotidiano digital, criar, remixar e transformar conteúdo tornou-se um comportamento comum.

Na Character.ai, estamos observando como essa mudança acontece na prática. Com produtos como o Books, nossa experiência interativa de narrativa impulsionada por IA, os usuários podem entrar em uma história e explorar novas possibilidades, levando narrativas para direções diferentes ou inserindo personagens em universos completamente novos.

O objetivo não é substituir nem recriar a história original, mas expandi-la.

A IA reduz drasticamente os custos de criação. Depois que um modelo é desenvolvido, gerar finais alternativos ou novas linhas narrativas custa praticamente nada. Em comparação, decisões de produção tradicionais podem custar milhões de dólares.

Isso permite criar quase infinitas variações narrativas, oferecendo às franquias os pontos de contato necessários para manter os fãs engajados durante o intervalo entre grandes lançamentos.

Na prática, os fãs deixam de ser apenas consumidores e passam a atuar como criadores, expandindo os universos pelos quais já são apaixonados.

O FUTURO DA MÍDIA EM MASSA É PARTICIPATIVO

A mídia de massa não está desaparecendo. Mas está deixando de ser o destino final para se tornar o ponto de partida.

As franquias continuarão importantes, mas sua função mudará. Em vez de produtos acabados, passarão a ser estruturas abertas, que comunidades poderão expandir, remixar e reinterpretar ao longo do tempo.

À medida que o público deixa de ser apenas espectador para se tornar participante, as franquias mais poderosas do futuro não serão aquelas que alcançarem mais pessoas.

Serão aquelas capazes de inspirar mais mundos.


SOBRE O AUTOR

CEO da Character.AI saiba mais