Tem filhos e nunca ouviu falar sobre sharenting? Entenda fenômeno

Especialistas alertam que o sharenting, compartilhamento excessivo da vida dos filhos, pode gerar consequências que só aparecem anos depois.

Mulher tirando foto do filho
Embora muitas vezes motivada pelo afeto ou pela vontade de dividir momentos do dia a dia. Foto: Canva IA

Joyce Canelle 3 minutos de leitura

Cada vez mais presente nas redes sociais, o sharenting vem ganhando atenção de especialistas, pesquisadores e entidades de defesa da infância. 

O termo descreve o hábito de mães, pais e cuidadores compartilharem rotineiramente fotos, vídeos e informações sobre crianças no ambiente digital

Embora muitas vezes motivada pelo afeto ou pela vontade de dividir momentos do dia a dia, a prática levanta alertas importantes sobre privacidade, segurança e direitos fundamentais de crianças e adolescentes, segundo a organização Alana.

Leia também: Irlanda lança campanha para alertar pais sobre exposição dos filhos nas redes sociais; veja vídeo

O QUE É SHARENTING ?

Sharenting resulta da junção das palavras em inglês share (compartilhar) e parenting (paternidade). O conceito se refere à exposição frequente e, em alguns casos, excessiva da vida infantil nas mídias digitais. Isso inclui desde imagens aparentemente inofensivas até relatos detalhados de comportamentos, rotinas, dificuldades e situações íntimas.

O principal ponto de preocupação é que esse tipo de conteúdo cria um histórico digital permanente sobre a criança, muitas vezes sem qualquer possibilidade de escolha ou consentimento.

Diferentemente de um álbum de família guardado em casa, as publicações nas redes podem circular por tempo indeterminado, alcançar públicos desconhecidos e ser reutilizadas fora do contexto original.

IMPACTOS NA PRIVACIDADE E NO DESENVOLVIMENTO

Especialistas alertam que o sharenting pode gerar consequências que só aparecem anos depois. Imagens e informações divulgadas na infância podem se transformar em fonte de constrangimento, discriminação ou bullying na escola e no ambiente virtual durante a adolescência ou a vida adulta.

Há ainda riscos mais graves. Conteúdos publicados por familiares podem ser apropriados por terceiros, inclusive em contextos ilegais, como redes de exploração sexual infantil.

Além disso, o excesso de exposição contribui para a chamada datificação da vida, processo no qual comportamentos, preferências e informações pessoais são transformados em dados.

CRIANÇAS COMO DADOS

Quando fotos, vídeos e relatos sobre crianças circulam nas plataformas digitais, eles passam a integrar sistemas de coleta e análise de dados. Esses dados, quando reunidos, podem revelar padrões de comportamento, hábitos familiares, localização e aspectos da vida íntima desde os primeiros anos de vida.

Esse cenário interessa a empresas de tecnologia, ao mercado publicitário e até a órgãos governamentais. Em alguns casos, o sharenting está associado à monetização de conteúdo, com perfis infantis usados para gerar engajamento, parcerias comerciais e lucro, o que pode caracterizar exploração comercial infantil.

Leia também: Governo Lula propõe novas regras para redes sociais com foco em proteção infantil

O QUE DIZ A LEI GERAL DE PROTEÇÃO DE DADOS?

No Brasil, a proteção legal às crianças no ambiente digital ganhou um marco importante com a Lei Geral de Proteção de Dados, sancionada em agosto de 2018 e em vigor desde 2020.

A legislação se aplica não apenas a empresas e ao poder público, mas também a pessoas físicas que tomam decisões sobre o tratamento de dados pessoais.

O artigo 14 da LGPD estabelece regras específicas para dados de crianças e adolescentes. O tratamento dessas informações só pode ocorrer quando estiver claramente alinhado ao melhor interesse dessa população. 

Na prática, isso significa que a proteção da privacidade, da dignidade e do desenvolvimento da criança deve prevalecer sobre qualquer outro objetivo, inclusive interesses econômicos.

Leia também: Sharenting: quais os riscos de expor a vida dos filhos nas redes sociais?

O avanço das redes sociais colocou famílias diante de um dilema contemporâneo de como equilibrar o desejo de compartilhar momentos afetivos com a responsabilidade de proteger crianças em um ambiente digital cada vez mais complexo, sem cometer sharenting.


SOBRE O(A) AUTOR(A)