Transformação digital AI-first inclusiva e acessível
Conselhos e C-levels precisam incluir PCDs no centro da sua estratégia de IA

Uma empresa pode se declarar “AI-first” e, ao mesmo tempo, aceitar que parte dos seus colaboradores e clientes simplesmente não consegue usar seus canais digitais, sistemas internos ou produtos baseados em inteligência artificial?
Esta é a contradição silenciosa da transformação digital em muitas organizações: a IA entra para aumentar eficiência, reduzir custos e “modernizar” a empresa. Mas, se a acessibilidade não estiver no centro, ela pode amplificar barreiras que já existiam, inclusive trazer até mais ineficiência e até problemas de segurança no processo.
No Brasil, os dados mostram o tamanho da responsabilidade. O Censo 2022 aponta 14,4 milhões de pessoas com deficiência (PCDs) – cerca de 7,3% da população com dois anos ou mais. Ainda assim, apenas 29% das pessoas com deficiência participam do mercado de trabalho, contra mais de 66% da população geral.
Em uma era em que as pessoas estão envelhecendo, uso excessivo de telas e fones, entre outros que estão acelerando certas deficiências como auditiva e até visual, temos que nos atentar cada vez mais.
Se a IA é, de fato, o novo sistema operacional das empresas, excluir esse público não é só uma injustiça – é abrir mão de todo o potencial e resultado que pessoas com deficiência podem somar. É ser excludente, destruir valor e correr riscos legais e reputacionais desnecessários.
BRASIL E AMÉRICA LATINA: LEIS AVANÇADAS, EXECUÇÃO TÍMIDA
Do ponto de vista regulatório, Brasil e América Latina não estão atrasados. Pelo contrário, o Brasil tem um dos conjuntos de normas mais robustos do mundo em inclusão:
- Lei Brasileira de Inclusão/ LBI (Lei 13.146/2015): define acessibilidade como condição de alcance a espaços, serviços, informação e comunicação, inclusive sistemas e tecnologias da informação.
- Lei de Cotas (Lei 8.213/1991): obriga empresas com 100 ou mais empregados a reservar de 2% a 5% das vagas para pessoas com deficiência ou reabilitadas.
- Modelos específicos para acessibilidade digital, como o eMAG, baseado em WCAG, que orienta o desenvolvimento de sites acessíveis no governo eletrônico e inspira boas práticas também no setor privado. Inclusive o Brasil tem uma ISO olhando as necessidades dentro do país, algo que nenhum outro país tem.
Ao mesmo tempo, relatórios sobre lacunas de inclusão digital na América Latina mostram que o acesso à infraestrutura, habilidades digitais e serviços acessíveis ainda é profundamente desigual, especialmente para grupos vulneráveis. Ou seja, a legislação manda incluir, a tecnologia permite incluir, mas a prática ainda exclui.
O QUE É UMA EMPRESA AI-FIRST INCLUSIVA E ACESSÍVEL
Do ponto de vista de conselhos e C-level, não basta dizer “usamos IA”. Uma organização AI-first e inclusiva precisa cumprir, no mínimo, três critérios:
1. Estratégia: acessibilidade e pessoas com deficiência aparecem na tese de transformação digital, nas políticas de IA e nos indicadores de sucesso, não apenas em relatórios ESG
2. Design e desenvolvimento: todos os produtos e canais digitais seguem princípios como os da WCAG 2.2 (perceptível, operável, compreensível e robusto – POUR) e os modelos de IA são avaliados também pelo seu impacto em PCD.
3. Uso de IA a favor da inclusão: a tecnologia não só “não atrapalha”, como reduz barreiras – por exemplo, com legendas automáticas, leitura de telas, descrição de imagens, interfaces conversacionais, alertas personalizados e assistência em tempo real.

Uma analogia simples: não faz sentido construir o prédio corporativo mais inteligente da cidade, cheio de sensores e automação, se a pessoa cadeirante ainda não consegue chegar à sala do conselho ou à sala de reunião.
No mundo digital, isso significa que não adianta lançar um super chatbot de IA se ele é impossível de usar com leitor de tela, não funciona bem com comandos de voz ou não oferece alternativas de entrada/ saída para diferentes perfis de PCD.
TRÊS ESTÁGIOS DE MATURIDADE EM TRANSFORMAÇÃO DIGITAL AI-FIRST ACESSÍVEL
Para as empresas visualizarem a jornada, podemos pensar em três níveis de maturidade:
Nível 1: Compliance inteligente
- A empresa cumpre a Lei de Cotas e ajusta sites e sistemas para um nível mínimo de acessibilidade digital (WCAG/ eMAG).
- Introduz IA em pontos específicos: legendas automáticas em reuniões, ferramentas básicas de checagem de contraste, leitores de tela compatíveis com sistemas internos.
- A acessibilidade ainda é vista como “obrigação legal” ou “projeto de TI”, não como alavanca de negócio.
Nível 2: AI enabled inclusivo
- Acessibilidade entra como requisito padrão em todas as iniciativas digitais e de IA.
- PCDs participam de testes, labs e pilotos – a empresa começa a aprender com a diversidade.
- IA passa a ser usada para personalizar experiências, por exemplo
- ajustes automáticos de fonte e contraste;
- sumarização e leitura em voz de relatórios e documentos longos;
- notificações multimodais (texto, voz, ícones, vibração).
Leia mais: Por que tecnologias inclusivas não garantem acessibilidade a deficientes visuais
Nível 3: AI-first com inclusão no core
- A empresa enxerga a IA como plataforma de inclusão e inovação, não só de eficiência.
- Surgem soluções inspiradas em cases globais, como:
- Be Be My Eyes + GPT-4: um “voluntário virtual” capaz de descrever imagens, ambientes e interfaces com riqueza de detalhes, dando mais autonomia a pessoas cegas ou com baixa visão.
- Seeing AI (Microsoft): app que usa visão computacional para ler textos, identificar pessoas e narrar o mundo ao redor.
- Programas como Microsoft AI for Accessibility, que financiam soluções de IA voltadas para inclusão e trabalho digno de PCDs.
Neste nível, os decisores passam a fazer perguntas do tipo:
-“Qual é o impacto da nossa estratégia de IA na autonomia dos colaboradores PCD?”
- “Nossos modelos geram barreiras adicionais ou de fato reduzem o número de passos para essas pessoas?”
- “Temos PCD sentadas à mesa quando definimos prioridades de produto e IA?”
CASOS GLOBAIS QUE MOSTRAM O POTENCIAL DA IA PARA ACESSIBILIDADE
Alguns exemplos ajudam a tirar essa discussão do abstrato:
- Be My Eyes + GPT-4: a startup dinamarquesa, que conecta pessoas cegas e voluntários via vídeo, passou a usar IA multimodal para criar um “voluntário virtual” que descreve cenas, lê textos e ajuda em tarefas do dia a dia com alto nível de contexto. O resultado é mais autonomia e privacidade para usuários, além de escalabilidade muito maior do que depender apenas de humanos.
- Seeing AI, da Microsoft: um app gratuito, desenhado com e para a comunidade de baixa visão, que narra o mundo ao redor, lê documentos, reconhece produtos e pessoas usando IA.
- Legendas e transcrição em tempo real em plataformas corporativas: recursos de captioning e transcrição automática em ferramentas como Microsoft Teams e outras soluções de videoconferência reduziram drasticamente barreiras de comunicação para pessoas surdas ou com perda auditiva, especialmente em ambientes corporativos distribuídos.
- Padrões e frameworks emergentes: iniciativas do W3C Web Accessibility Initiative e da comunidade técnica vêm mapeando como machine learning e IA generativa impactam a acessibilidade, propondo práticas para aproveitar o lado positivo (assistência, automatização de testes) e mitigar riscos (novas barreiras, vieses).
O ponto em comum entre esses casos não é apenas o uso de IA. É o fato de terem sido desenhados com a comunidade PCD desde o início – algo que os decisores podem exigir dos seus times e fornecedores.
Se construímos desde o começo, as soluções não ficarão mais caras e o ROI será muito maior, potencializando inclusive mais eficiência nos processos, o surgimento de novos mercados e oportunidades e retenção de todos os clientes, não só pessoas com deficiência.
ROTEIRO PRÁTICO PARA AS EMPRESAS
Para transformar essa discussão em ação, sugerimos cinco movimentos concretos:
1. Revisar a estratégia de IA à luz da acessibilidade
- Colocar LBI, Lei de Cotas, WCAG/eMAG e princípios de design inclusivo como insumos explícitos da estratégia digital e de IA.
2. Instituir métricas claras de acessibilidade digital e de IA
- % de produtos em conformidade com WCAG 2.2 (mínimo AA).
- % de jornadas críticas testadas com usuários PCD.
- Impacto da IA na autonomia dos colaboradores PCD (ex.: tempo ganho, tarefas antes impossíveis).
3. Colocar PCD no centro do ciclo de desenvolvimento de IA
- Criar painéis ou comitês consultivos com participação de pessoas com diferentes tipos de deficiência.
- Garantir que pilotos, testes de usabilidade e sprints de design incluam esses usuários, com orçamento e tempo previstos.
4. Tratar IA acessível como investimento de crescimento, não só de compliance
- Uma web acessível aumenta alcance, reduz fricção e fortalece reputação de marca. Diversos guias de acessibilidade empresarial já mostram esse vínculo entre acessibilidade, confiança e resultado de negócios.
5. Integrar acessibilidade na arquitetura de dados e IA
- Adotar ferramentas que automatizam verificação de acessibilidade.
- Incluir atributos e cenários relacionados a PCDs nos testes de qualidade de modelos – por exemplo, como um modelo de linguagem responde a comandos de uma pessoa com fala diferente, ou como uma interface reage a uso via teclado e leitor de tela)
TRANSFORMAÇÃO DIGITAL AI-FIRST SEM ACESSIBILIDADE É TRANSFORMAÇÃAO PELA METADE
Transformação digital AI-first não é sobre colocar IA em tudo. É sobre reconfigurar como sua empresa pensa, decide e atende pessoas – internas e externas – usando IA como alavanca.
Em um país com 14,4 milhões de pessoas com deficiência e legislação clara sobre inclusão e acessibilidade, deixar PCDs de fora da estratégia de IA não é somente uma falha ética. É também uma decisão ruim de negócios, que ignora talento, mercado e inovação.

Call to action para as empresas:
Revisem a estratégia de IA da sua organização com um olhar explícito de acessibilidade. Perguntem, nos próximos comitês e reuniões de conselho:
- Onde a IA, hoje, está criando barreiras para pessoas com deficiência?
- Onde ela poderia, com pequenos ajustes, derrubá-las?
- Quem, dentro e fora da empresa, está sentado à mesa para tomar essas decisões junto com vocês?
Empresas que fizerem essa lição de casa cedo vão obter todos os benefícios da inclusão e da diversidade, além de perceber, na prática, o imenso valor agregado que pessoas com deficiência podem acrescentar.
Ao mesmo tempo, devolvem para a sociedade os ganhos que obtiveram, realizando uma transformação verdadeiramente AI-first: aquela que inclui e expande o acesso com a participação de todos.
Seguindo essa risca, você “mata dois coelhos com uma só cajadada”, ajudando numa estratégia de IA mais robusta de IA – ou seja, Inteligência Artificial e também de Inclusão e Acessibilidade, ou Inteligência Acessível.