Vazamento de dados no Brasil chegou a R$ 7,44 milhões em 2026

Com ataques mais rápidos e vulnerabilidades que podem se espalhar por fornecedores, empresas precisam investir em prevenção, monitoramento e resposta a incidentes para reduzir prejuízos

vazamento de dados no Brasil em 2026
Créditos: Rmcarvalhobsb/ Adobe Stock/ Beyza Kaplan/ Engin Akyurt/ Pexels

Isabella Lura 8 minutos de leitura
Favoritar no Google

A digitalização das operações ampliou a quantidade de informações que circulam e são armazenadas pelas empresas. Com isso, proteger dados e sistemas tornou-se um desafio cada vez maior para as organizações.

De acordo com o Relatório do Custo das Violações de Dados de 2026, elaborado pelo Ponemon Institute e analisado pela IBM, uma violação de dados custa, em média, R$ 7,44 milhões às empresas brasileiras – alta de 3,5% em relação ao período anterior.

Ao mesmo tempo em que a inteligência artificial amplia a capacidade dos criminosos de automatizar ataques e explorar vulnerabilidades, a tecnologia também oferece ferramentas para identificar ameaças e reduzir prejuízos. O desafio é fazer com que a preparação das organizações acompanhe a velocidade das ameaças.

O levantamento avaliou 602 organizações, incluindo 42 brasileiras, entre março de 2025 e fevereiro de 2026. Segundo o estudo, uma em cada quatro ações criminosas já utiliza IA. Globalmente, os ataques que recorrem a esses recursos custam, em média, R$ 35 milhões, cerca de R$ 6 milhões a mais do que outras invasões.

Para Fábio Roma, CEO da empresa de infraestrutura de IA Impossibl, esse cenário cria um desequilíbrio entre criminosos e organizações. Enquanto atacantes conseguem automatizar tarefas e investigar possíveis vulnerabilidades em menos tempo, as empresas precisam identificar falhas, avaliar riscos e corrigir sistemas antes que sejam explorados. “É um cenário desproporcional”, afirma Roma.

A VELOCIDADE DOS ATAQUES

A inteligência artificial permite analisar grandes volumes de código, reconhecer padrões e testar hipóteses em menos tempo. Na prática, isso pode acelerar a identificação de vulnerabilidades e facilitar a execução de etapas de um ataque que antes exigiam mais trabalho manual.

Esse processo pode contribuir para a descoberta de falhas inéditas, conhecidas como zero-days. O Relatório Global de Ameaças 2026 da CrowdStrike registrou um aumento anual de 42% nas vulnerabilidades exploradas antes de sua divulgação pública.

O indicador mostra a evolução desse tipo de exploração, mas não significa que todas essas ocorrências tenham sido causadas pela inteligência artificial.

Roma ressalta que nem todos os ataques dependem de vulnerabilidades inéditas. Uma parcela dos incidentes explora brechas conhecidas que permanecem sem correção, o que reforça a importância de manter sistemas atualizados e corrigir falhas já identificadas.

O RISCO PODE ESTAR NOS FORNECEDORES

Entre as ameaças que preocupam o executivo estão os ataques à cadeia de fornecimento de software (supply chain). Nesse tipo de ocorrência, uma vulnerabilidade em um componente desenvolvido por terceiros pode comprometer todas as organizações que dependem dele.

Aplicações digitais utilizam bibliotecas, ferramentas e outros componentes externos para funcionar. Por isso, mesmo uma empresa que protege adequadamente seus próprios sistemas pode ficar exposta se uma das tecnologias das quais depende apresentar uma falha.

O relatório da CrowdStrike também destaca o uso de fornecedores, softwares legítimos e repositórios de código como possíveis caminhos para comprometer ambientes corporativos. A exploração desses pontos pode ampliar o alcance de um ataque, atingindo organizações que utilizam os mesmos componentes.

Hacker computador
Crédito: Pixabay

Além disso, a IA pode tornar fraudes por mensagens mais convincentes. O relatório da CrowdStrike descreve o uso da tecnologia para adaptar mensagens fraudulentas, traduzir abordagens de engenharia social e criar identidades falsas. O objetivo é explorar a confiança das vítimas para obter credenciais ou facilitar o acesso inicial aos sistemas.

No Brasil, o relatório da IBM aponta que fraudes por mensagens e ataques contra parceiros e fornecedores representam 16% dos incidentes cada. O custo médio chega a R$ 7,93 milhões nos casos de fraude por mensagens e a R$ 7,32 milhões nas ocorrências envolvendo terceiros.

Para as empresas, isso significa que a segurança não pode se limitar à infraestrutura interna. É necessário avaliar os riscos dos fornecedores, acompanhar vulnerabilidades nos componentes utilizados e orientar funcionários sobre como reconhecer abordagens suspeitas.

O PAPEL DA LIDERANÇA NA SEGURANÇA DIGITAL

A adoção acelerada de inteligência artificial dentro das empresas também pode criar riscos quando não é acompanhada de orientações claras. Roma questiona a pressão para que funcionários utilizem essas ferramentas sem que as lideranças definam objetivos, limites e critérios para o compartilhamento de informações.

Segundo o executivo, a preocupação não deve recair exclusivamente sobre o comportamento dos funcionários. Gestores que incentivam o uso de IA sem estabelecer regras de acesso e procedimentos de segurança podem ampliar a exposição de dados e sistemas.

Uma parcela dos incidentes explora brechas conhecidas que permanecem sem correção.

Para além da definição de regras, Roma defende uma mudança de postura das lideranças, com o reconhecimento de que nenhuma organização está imune a ataques. Empresas que trabalham com a possibilidade de um incidente tendem a dar mais atenção à preparação, com sistemas de backup, protocolos de emergência e planos de recuperação.

O especialista também aponta a falta de controle sobre o acesso a sistemas e informações e o desconhecimento das ameaças como fatores de risco. Para reduzi-los, as empresas precisam definir quais ferramentas estão autorizadas, quais dados podem ser compartilhados e como as equipes devem comunicar atividades suspeitas.

O TEMPO DE RESPOSTA INFLUENCIA OS PREJUÍZOS

A preparação antes de um incidente também pode fazer diferença no custo de uma violação. No levantamento global da IBM, violações que levaram mais de 200 dias para serem identificadas e contidas custaram, em média, US$ 5,65 milhões. Nos casos com duração inferior a 200 dias, o custo médio foi de US$ 4,32 milhões.

O relatório também aponta diferenças no tempo de identificação e contenção conforme a estrutura responsável pela resposta.

Equipes internas de tecnologia e segurança levaram, em média, 209 dias para identificar e conter violações, ante 247 dias na média global. Quando a identificação e a contenção envolveram terceiros, o prazo chegou a 281 dias.

tendências em cibersegurança
Crédito: AnnaStills/ iStock/ pngegg

Os números não significam que equipes internas sejam sempre mais eficientes, mas mostram a importância de avaliar a capacidade de resposta da organização e evitar atrasos na identificação de incidentes.

Uma das principais diferenças entre empresas que conseguem retomar as operações rapidamente e aquelas que enfrentam interrupções prolongadas está na preparação. Isso inclui manter cópias de segurança, criar redundâncias para evitar pontos únicos de falha e estabelecer procedimentos de resposta.

O executivo cita o ransomware como exemplo de ameaça capaz de paralisar uma empresa. Nesse tipo de ataque, criminosos bloqueiam o acesso a sistemas ou arquivos e exigem pagamento para liberá-los. Sem cópias de segurança e um plano de recuperação, a organização pode enfrentar dificuldades para retomar suas atividades.

A adoção acelerada de IA nas empresas pode criar riscos quando não é acompanhada de orientações claras.

O levantamento da IBM aponta crescimento de 5% nos ataques de ransomware, que representam 39% das ocorrências analisadas. Além de bloquear sistemas, criminosos recorrem à ameaça de divulgar informações para pressionar as vítimas.

Medidas preventivas podem ajudar a reduzir prejuízos. Segundo o material do levantamento, simulações de ataques estão associadas a uma economia média de R$ 579,4 mil por incidente. A criptografia representa uma economia de R$ 478,1 mil, enquanto o controle de credenciais e permissões está associado a uma redução de R$ 454,7 mil.

Roma também recomenda o uso de senhas longas e seguras, autenticação em dois fatores e revisão dos pontos únicos de falha. Funcionários e gestores precisam compreender que nenhum sistema está completamente protegido e saber como reagir quando algo dá errado.

TESTAR OS PRÓPRIOS SISTEMAS ANTES DOS CRIMINOSOS

Além de preparar a resposta a incidentes, as empresas também podem antecipar possíveis vulnerabilidades testando seus próprios sistemas.

Uma das práticas que Roma considera importantes é o red teaming, que consiste em avaliar a segurança de uma organização a partir da perspectiva de um invasor. O objetivo é identificar vulnerabilidades antes que sejam exploradas em um ataque real.

Leia mais: Como funcionam os golpes digitais e como proteger dados?

Tradicionalmente, empresas recorrem a consultorias especializadas e profissionais de segurança para realizar testes de invasão, também conhecidos como pentests. Com o avanço da IA, o executivo acredita que as organizações precisarão ampliar sua capacidade de realizar essas avaliações e incorporá-las à rotina de segurança.

Na prática, isso significa não depender só de auditorias pontuais. As empresas podem desenvolver equipes internas e adotar ferramentas que permitam testar sistemas de maneira recorrente, identificar falhas e priorizar correções.

SEGURANÇA COMO INVESTIMENTO ESTRATÉGICO

O custo de uma violação não se limita às despesas para conter o ataque e recuperar os sistemas. Dependendo da ocorrência, a empresa pode enfrentar interrupções operacionais, exposição de informações sensíveis e danos à reputação.

No Brasil, o setor de saúde registra o maior custo médio por violação: R$ 12,55 milhões, segundo o levantamento da IBM. Tecnologia aparece em seguida, com R$ 8,96 milhões, e serviços, com R$ 8,63 milhões.

Para Roma, a segurança digital precisa ser considerada parte da gestão financeira e operacional das empresas. A capacidade de identificar vulnerabilidades, controlar acessos e responder rapidamente a incidentes pode ser determinante para limitar perdas.

Com a evolução das ameaças, a segurança digital deixa de ser uma preocupação restrita às equipes de tecnologia. A capacidade de antecipar riscos, limitar prejuízos e recuperar operações passa a fazer parte das decisões estratégicas das empresas.


SOBRE A AUTORA

Isabella Lura é estudante de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, dedicada e curiosa com interesse em contar histórias e transformar... saiba mais