Vitória democrata no Texas pode mudar planos para o crescimento da IA
Nova governadora quer rever incentivos fiscais e suspender projetos de data centers que podem consumir grandes volumes de energia e água

Menos de um ano atrás, o governador do Texas, Greg Abbott, estava ao lado de Sundar Pichai, CEO do Google, para comemorar o investimento de US$ 40 bilhões da empresa na infraestrutura de nuvem e inteligência artificial do estado. Três novos complexos de data centers ajudariam a transformar o Texas no “epicentro do desenvolvimento de IA”, declarou Abbott.
Nesta terça-feira (3 de novembro), Abbott, do Partido Republicano, perdeu a disputa pela reeleição para Gina Hinojosa, do Partido Democrata, que fez campanha prometendo suspender a construção de novos data centers até que os parlamentares estaduais aprovassem proteções mais rigorosas para os moradores.
Em entrevista coletiva durante o verão no hemisfério norte, Hinojosa acusou as empresas de se aproveitarem dos texanos e operarem com pouca fiscalização, responsabilizando Abbott por criar o “Velho Oeste dos data centers”.
Sua vitória surpreendente faz dela a primeira democrata eleita governadora do Texas desde Ann Richards, em 1990. E, considerando que o Texas abriga o segundo maior mercado de data centers dos Estados Unidos (atrás apenas do estado da Virgínia), essa reviravolta política pode ter implicações profundas para o boom da inteligência artificial.
O TAMANHO DA APOSTA DO TEXAS NA IA
Com uma economia de US$ 2,9 trilhões, o Texas tem a segunda maior economia dos Estados Unidos. Se fosse um país, ocuparia a oitava posição no ranking mundial.
O estado dispõe de abundantes recursos energéticos, grandes extensões de terras relativamente baratas e uma tradição de pouca intervenção regulatória. Todos esses fatores atraíram empresas de IA (e companhias de praticamente todos os outros setores, aliás).
Pesquisadores do Baker Institute, da Universidade Rice, estimam que os investimentos anuais em data centers no Texas saltaram de US$ 3,4 bilhões em 2022 para uma projeção de US$ 66,2 bilhões em 2026.
E há muito mais projetos a caminho. O Texas concentra cerca de 26% da capacidade de data centers planejada nos Estados Unidos, segundo uma análise do banco de investimentos Jefferies, divulgada pelo "The Wall Street Journal".
O Jefferies estima que a moratória proposta por Hinojosa poderia colocar em risco 13,3 gigawatts em projetos de data centers anunciados no Texas, potencialmente adiando as obras ou levando os incorporadores a abandonar seus planos.
a governadora eleita quer dar aos moradores mais poder de decisão sobre novos empreendimentos.
Não é à toa que o Bank of America classificou a eleição para governador do Texas como a disputa mais importante das eleições legislativas de meio de mandato de 2026 para os mercados de serviços públicos e energia.
Os riscos vão muito além do Texas. As empresas que disputam a liderança no desenvolvimento da IA dependem de investimentos gigantescos em infraestrutura, que levam anos para ser planejados e exigem muito mais do que financiamento.
Elas precisam de eletricidade, água, terrenos, licenças e, cada vez mais, do apoio das comunidades onde pretendem construir.
QUEM FICA COM OS BENEFÍCIOS? E QUEM PAGA A CONTA?
Hinojosa propôs uma moratória até que os parlamentares aprovem salvaguardas permanentes. Ela também quer proibir acordos de confidencialidade que mantêm as comunidades no escuro e dar aos moradores mais poder de decisão sobre novos empreendimentos.
Além de exigir que as empresas comprovem que seus projetos não vão elevar as contas de água e eletricidade das casas, a nova governadora pretende eliminar os subsídios que ajudaram a tornar o Texas tão atraente para os incorporadores.
As vantagens não se limitam aos benefícios fiscais. Uma análise do jornal "Texas Tribune" constatou que mais ou menos metade dos data centers planejados está prevista para áreas não incorporadas a municípios.

Nesses locais, os condados geralmente não têm os poderes de zoneamento que as cidades utilizam para regulamentar construções. Isso pode deixar os moradores das regiões próximas com pouca influência sobre projetos capazes de transformar suas comunidades.
A dimensão das ambições do Texas no campo da IA está exercendo uma pressão cada vez maior sobre seus recursos. Pesquisadores da Universidade do Texas estimam que os data centers hoje respondem por menos de 1% do consumo de água do estado, mas essa participação pode chegar a 9% até 2040.
Enquanto isso, os projetos em discussão estão solicitando tanta energia que a operadora da rede elétrica do Texas precisou repensar a maneira como avalia os pedidos de conexão de novas instalações.
A REAÇÃO CONTRÁRIA
Essas preocupações alimentaram uma onda de oposição surpreendentemente ampla. Em uma pesquisa recente da Universidade de Houston, 79% dos entrevistados apoiaram a imposição de limites à construção de data centers e 76% esperavam que novas instalações elevassem as contas de eletricidade.
Abbott percebeu esses números e, de fato, já havia começado a recuar no tema. Em setembro, depois de anos cortejando incorporadores, suspendeu a aprovação de novas licenças enquanto eram realizadas auditorias sobre as demandas dos projetos por água e eletricidade. Também prometeu trabalhar para eliminar os incentivos fiscais.
Mas as restrições do governador estavam vinculadas à realização dessas auditorias, enquanto Hinojosa quer manter a construção suspensa até que os parlamentares criem proteções mais permanentes.
as empresas de ia dependem de investimentos gigantescos, mas também do apoio das comunidades onde pretendem construir seus data centers.
De qualquer forma, a mudança de posição de Abbott em relação aos data centers não foi suficiente para salvá-lo. Mas seria um erro interpretar a vitória de Hinojosa apenas como um referendo sobre os data centers. Os texanos também estavam profundamente insatisfeitos com o custo de vida, a corrupção política e uma série de outras questões.
É claro que conquistar o governo estadual não dá carta branca a Hinojosa. Um governador pode estabelecer prioridades e orientar as agências estaduais dentro dos limites da legislação vigente, mas mudanças permanentes nas isenções fiscais ou a ampliação dos poderes de zoneamento dos condados exigiriam a cooperação da Assembleia Legislativa estadual.
E sim, uma moratória em todo o estado também poderia enfrentar obstáculos jurídicos. Ainda assim, incorporadores que planejam investimentos de bilhões de dólares agora precisam levar em conta a possibilidade de regras mais rigorosas, que podem continuar em vigor por anos.
Os incorporadores podem, e em alguns casos vão, procurar outros lugares. Mas outros estados também enfrentam limitações de eletricidade, água e terrenos, além de comunidades cada vez mais céticas.
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O Texas pode ser um exemplo particularmente importante das dificuldades políticas que o setor enfrenta, mas está longe de ser um caso isolado.