YouTube empurra homens e mulheres para bolhas políticas opostas
Sistema de recomendação da plataforma cria redes de informação diferentes para perfis masculinos e femininos

O poder de persuasão de plataformas como o YouTube já é conhecido há muito tempo. Não à toa, a campanha de Donald Trump, por exemplo, comprou o espaço principal de anúncios no topo da página do YouTube 20 vezes durante o ciclo eleitoral de 2020, incluindo uma aquisição agressiva no próprio dia da eleição para presidente dos EUA.
Mas o algoritmo da plataforma também pode exercer influência política de outra forma. Um novo estudo publicado no repositório arXiv, da Universidade Cornell, sugere que o sistema de recomendações do YouTube direciona usuários homens e mulheres para ambientes de informação política radicalmente diferentes, mesmo quando seus interesses políticos iniciais são idênticos.
Os pesquisadores utilizaram 160 bots automatizados: 80 programados com hábitos de visualização considerados “masculinos”, como esportes e games, e outros 80 com hábitos classificados como “femininos”, como moda e vlogs. Os dois grupos receberam exatamente o mesmo interesse-base na categoria Notícias e Política do YouTube.
Em seguida, os bots passaram por 150 etapas consecutivas de interação para que os pesquisadores acompanhassem os caminhos indicados pelo algoritmo de recomendação.
Embora os perfis codificados como femininos tenham encontrado um volume maior de vídeos políticos no geral, os tipos de temas sugeridos divergiram bastante dependendo de o perfil apresentar hábitos masculinos ou femininos.
Perfis masculinos foram conduzidos, de modo desproporcional, a um conjunto restrito de temas domésticos mais confrontacionais, incluindo segurança pública, criminalidade e defesa.
Eles também receberam forte direcionamento para conteúdos ligados a órgãos de poder estatal, como o Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos Estados Unidos e o Departamento de Justiça norte-americano.

Já os perfis femininos receberam uma mistura mais ampla e moderada de assuntos relacionados a políticas públicas, macroeconomia e estilo de vida, incluindo relações internacionais, cultura e artes. Esses perfis também foram expostos a um volume maior de conteúdo político neutro, enquanto os masculinos receberam mais vídeos polarizadores.
“O YouTube é uma das plataformas mais utilizadas do planeta, mas seus algoritmos continuam opacos e pouco compreendidos”, afirma Jonathan Gray co-diretor do Centro de Cultura Digital do King’s College de Londres (ele não participou do estudo, mas revisou suas conclusões).
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O sistema de recomendação também enredou os perfis masculinos em uma rede altamente concentrada de vídeos sobrepostos, criando uma espécie de câmara de eco, na qual os usuários encontravam repetidamente os mesmos conteúdos. Já os perfis femininos navegaram por uma rede de informações muito mais difusa e diversificada.
“Para muitas pessoas, o YouTube é uma fonte primária de notícias, conselhos e orientação”, diz Gray. Segundo ele, o estudo se soma a um corpo crescente de pesquisas que investigam o papel dos algoritmos na formação da sociedade, da cultura e da política, destacando a necessidade urgente de maior escrutínio público e supervisão.