É de fato uma das melhores coisas da vida pra quem, como eu, gosta de trabalhar: você entra numa sala – seja física ou remota – e quando olha pro lado só tem gente muito fazedora ali: gente que experimenta muito, que não tem medo de arriscar, que não fica na teoria e fala só do que aprendeu fazendo, testando. Gente que está na linha de frente de algo com o qual se é realmente comprometido e que sabe identificar uma boa solução quando está diante de uma.

Parece um sonho impossível, mas é a realidade da minha vida desde que eu abri mão de ser dona do talento. Vamos lá, ergamos nossas taças. Quero fazer um brinde a tudo o que você ganha quando perde a exclusividade dos talentos que trabalham para você.

Não é que eu não saiba da importância que é ter um grupo de fazedores que acorda e dorme pensando na missão da sua organização. No entanto, a ideia de que 100% do talento deveria ser 100% dedicada te leva muito mais perto dos talentos médios do que dos excelentes. Porque muitos dos melhores talentos do mercado não estão mais contratáveis.

“Já colocamos a CEO de uma empresa que tinha acabado de fazer IPO sentada na mesma mesa que o time de uma organização centenária. As pessoas estão abertas a esse tipo de proposta”

Quer fazer um teste simples? Converse com alguém que está no último ano de um curso universitário. Pergunte a esta pessoa se os alunos em que todos os pares e professores apostam como futuro de suas indústrias estão, neste momento, sonhando com um emprego fixo ou sonhando com ter seu próprio negócio, fazer seus próprios projetos. Muitos dos melhores talentos não estão mais em busca de estabilidade ou de fazer carreira em uma grande companhia. E essa é uma excelente notícia. Porque finalmente você tem a chance de trabalhar só com os melhores.

Te conto como:

1. Vá além do fácil e disponível
Quebre as barreiras em busca de talentos. Digo por experiência: funciona. Cada vez mais, pessoas muito talentosas e muito apaixonadas pelo que fazem querem se conectar com o trabalho e sua capacidade de dar passos concretos em direção a um mundo mais dinâmico, mais distribuído, mais aberto. Para elas, o senso de autoria e de aventura são as duas características mais relevantes na hora de escolher no que vão investir sua energia. Uma das melhores estrategistas de marca com que trabalhei nos últimos anos se recusa a ter um emprego fixo. Faz só o que quer (inclusive para a Mesa, minha empresa, costuma dizer muitos nãos, deixando os “sins” para projetos que realmente a desafiem). Tem semanas em que ganha R$ 2 mil. Em outras, R$ 40 mil. A condição não é o dinheiro; ela só entra em projetos nos quais acredita. Já contratamos uma pessoa do New York Times para passar cinco dias trabalhando em um projeto com uma das gigantes de tecnologia. Já colocamos a CEO de uma empresa que tinha acabado de fazer IPO sentada na mesma mesa que o time de uma organização centenária. As pessoas estão abertas a esse tipo de proposta, trabalhar em um projeto específico, sair um pouco da rotina e aprender também com gente nova. Convide-as. A chance de dizerem sim é maior do que dizerem não.

2. Respeite seus talentos internos na hora de montar times
Tão ruim quanto pensar que você tem todo o conhecimento de que precisa dentro de casa é pensar que todo o conhecimento que está na sua organização é raso ou ultrapassado. Várias grandes empresas que conheço têm excelentes profissionais, que trabalham de acordo com a cultura corporativa e estão cheios de energia. Conhecem profundamente suas áreas e a realidade de executar mudanças. Além disso, profissionais que estão numa organização há muito tempo são capazes de acessar conhecimentos essenciais, sem os quais é impossível dar um passo adiante.

3. “O que ele perde? Mas e tudo o que ele ganha?”
Quem me falou a frase acima foi a pedagoga da escola do meu filho quando eu quis saber como ele reagiria a uma aventura de 3 meses fora da sala de aula, no meio do ano letivo. Cheguei na sala dela perguntando o que ele perderia ao deixar o grupo e ela me fez ver a riqueza a que ele estaria submetido. Uma preocupação comum de quem resiste a misturar talentos fixos com temporários é achar arriscado abrir sua cozinha. Há muitos riscos, considera-se. Minha sugestão é seguir o conselho da pedagoga e focar no que se ganha. Em 221 times mistos que vi trabalhar nos últimos 10 anos, não me lembro de uma situação em que a empresa que abriu sua cozinha perdeu algo.

4. Aprenda muito
A vantagem de ter por perto profissionais que trabalham por projeto é que eles costumam ter clareza sobre seu papel e responsabilidade. Sabem exatamente o que o cliente ou a empresa parceira está buscando na hora da contratação. Trabalham com foco. Sabem qual habilidade deve ser aplicada naquele momento, para resolver aquela questão. Quando eles são líderes de suas próprias companhias e projetos, então, é impressionante a capacidade que têm de mostrar novos caminhos e ajudar a avaliar, construir e estruturar por novos ângulos. Aprenda com eles. Uma única experiência ao lado de gente que não é seu subalterno ou seu superior pode ser transformadora.

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE A AUTORA

Bárbara Soalheiro é fundadora de Mesa Company, uma empresa global, fundada no Brasil, que trabalha hoje com os tomadores de decisão nas matrizes de clientes como Google, Bayer e Nestlé, ajudando-os a resolver seus problemas mais complexos. Neste mês, ela estreia a coluna Brindes para Lideranças.