Este ChatGPT não é uma IA. É uma pessoa respondendo

Em meio à febre da inteligência artificial, o ChatTJB encaminha cada pergunta a um “indivíduo real”

Colagem mostra a interface do ChatTJB ao lado de um homem apontando para a tela.
Créditos: ChatTJB.org

Grace Snelling 6 minutos de leitura
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Recentemente, um novo outdoor de chatbot surgiu em São Francisco. Ele se parece com as dezenas de anúncios de inteligência artificial que se espalharam pela cidade nos últimos anos: tipografia simples, paleta em preto e branco e um texto que parece ter sido escrito por um robô.

“ChatTJB.org”, anuncia o outdoor. “A principal interface de chat movida por uma AI.” Um asterisco após a última palavra revela o detalhe: “AI”, neste caso, não significa artificial intelligence, mas actual individual — “indivíduo real”, em português.

O outdoor não foi patrocinado por uma empresa, mas por Tucker Bryant, ex-gerente de marketing do Google que hoje atua como palestrante, artista, poeta e criador de conteúdo para redes sociais.

O ChatTJB é seu projeto digital mais recente — e um serviço de chatbot bastante real. Cada comando enviado pela plataforma é encaminhado a Bryant, que responde da melhor maneira possível.

Se o projeto parece familiar, provavelmente é porque outros artistas vêm adotando estratégias semelhantes para expressar seu descontentamento com empresas que promovem recursos de inteligência artificial.

À medida que polos tecnológicos como Nova York e São Francisco são inundados por startups e publicidade de IA, artistas independentes criam seu próprio subgênero de paródias digitais e físicas.

Essas iniciativas miram a publicidade de “AI slop” — conteúdo de baixa qualidade produzido em massa por inteligência artificial — e convidam o público a refletir criticamente sobre sua relação com a tecnologia.

A LUTA CONTRA A PUBLICIDADE DE “AI SLOP”

“Contrate todas as pessoas do planeta para não fazer nada.” “O primeiro avô vestível com IA do mundo.” “UnderwAIr: calcinhas que pensam.”

Esses são alguns dos anúncios falsos que, assim como o outdoor de Bryant, surgiram no mundo real, espalhados pelo sistema de metrô de Nova York.

As peças são criações dos comediantes Harris Alterman e Dave Ross, que passaram os últimos dois meses produzindo e exibindo anúncios falsos de inteligência artificial pela cidade.

Em uma entrevista à Fast Company, os dois explicaram que o objetivo é satirizar aquilo que chamam de slop voice — ou “linguagem do slop”.

Trata-se de um formato publicitário facilmente reconhecível, que combina jargões tecnológicos, design minimalista e afirmações sem contexto para se comunicar com um grupo familiarizado com a linguagem de tecnologia e software como serviço, o chamado SaaS.

Como Bryant destacou em um vídeo publicado no Instagram, o problema é igualmente evidente em São Francisco.

Entre os anúncios reais encontrados por ele estão frases como: “Adeus, chamadas perdidas. Olá, recepcionista de IA”; “Agentes que melhoram sozinhos começam com avaliações”; e “Não existe IA sem APIs”.

“São Francisco está absolutamente tomada por outdoors de IA, e parece que eles apareceram quase da noite para o dia”, afirma Bryant.

“Pode ser estranho estar em uma cidade onde, por um lado, os otimistas da IA fazem grandes promessas e a tecnologia está realizando coisas realmente incríveis, mas onde ela também deixa as pessoas ansiosas em relação ao futuro.”

Segundo ele, essa dissonância cognitiva pode tornar a experiência de viver na cidade um tanto surreal.

“Como os outdoors se tornaram uma característica visual tão marcante da cidade, eles pareceram o lugar natural para provocar essa onipresença cultural da IA”, explica.

Assim como Alterman e Ross, Bryant decidiu responder a essas mensagens confusas com um anúncio próprio. Ele pagou US$ 6 mil para alugar um outdoor no centro de São Francisco durante o mês de julho.

Outdoor do ChatTJB instalado em São Francisco anuncia uma interface de chat movida por um indivíduo real.
Tucker Bryant pagou US$ 6 mil para exibir o outdoor do ChatTJB durante um mês no centro de São Francisco.

O ChatTJB, porém, leva a provocação um passo adiante. O anúncio direciona as pessoas para uma interface funcional, na qual elas podem conversar com o próprio Bryant.

“TALVEZ OS MODELOS DE LINGUAGEM NÃO TENHAM SEMPRE A MELHOR RESPOSTA”

Embora o outdoor tenha sido instalado no início de julho, o ChatTJB está no ar desde abril.

A interface, que Bryant afirma ter criado usando a plataforma de desenvolvimento com IA Lovable, é muito parecida com a de um chatbot convencional. Ela inclui um logo abstrato em forma de vórtice e uma área de conversação bastante simples.

Ao contrário de um chatbot de inteligência artificial, porém, o ChatTJB pode demorar um pouco para responder. Suas respostas vêm da memória de um único homem, não de um banco de dados gigantesco.

“Inicialmente, criei o projeto como uma espécie de comentário informal sobre a rendição cognitiva — a ideia de que as pessoas, inclusive eu, às vezes caem na armadilha de confiar tão prontamente nos modelos de linguagem que deixam de pensar criticamente sobre as respostas recebidas”, afirma Bryant.

Segundo ele, essa confiança pode fazer com que as pessoas se tornem dependentes da IA até mesmo para resolver questões que seriam capazes de analisar por conta própria.

Quando a plataforma entrou no ar, Bryant respondia às perguntas de cerca de mil pessoas por dia. Os usuários queriam saber qual cor deveriam usar para pintar suas casas, o que comer no almoço e como lidar com situações constrangedoras.

Depois que ele alugou o outdoor e publicou a novidade no Instagram, o volume disparou para aproximadamente cinco mil comandos por hora.

Diante da demanda, Bryant suspendeu temporariamente o funcionamento do site. Agora, trabalha na seleção de voluntários para ajudar a responder às perguntas e na criação de mecanismos de segurança, como filtros automáticos de mensagens e recursos de atendimento para pessoas em situações de crise.

O modelo coletivo de Bryant lembra outra interface que ganhou popularidade recentemente. Chamada Your AI Slop Bores Me, a plataforma viralizou depois que os internautas descobriram que suas funções de desenho e escrita eram inteiramente alimentadas por usuários humanos.

Na época, seu programador, Mihir Maroju, explicou à Fast Company que a inspiração veio da frustração com a arte produzida por IA e sua proliferação. Segundo ele, essa avalanche de conteúdo prejudica a vida dos artistas e preenche a internet com material cada vez mais genérico e parecido, produzido com pouco esforço.

Outros criadores adotaram estratégias mais diretas para ajudar os usuários a pensar criticamente sobre a relação que mantêm com os chatbots. Em dezembro de 2025, a artista Tega Brain lançou o Slop Evader, uma extensão para o Chrome criada para filtrar conteúdos de AI slop dos resultados de busca.

Em março, o designer Sam Lavigne apresentou o Slow LLM, uma extensão que obriga os chatbots a responder em um ritmo propositalmente lento e irritante.

Enquanto executivos de IA e anúncios de startups promovem a ideia de que a adoção universal da inteligência artificial é inevitável, artistas encontram maneiras sutis de questionar esse argumento — e de incentivar outras pessoas a fazer o mesmo.

“A esperança era provocar uma pequena pausa e lembrar as pessoas: ‘Ei, embora essa experiência pareça futurista, talvez os modelos de linguagem não tenham sempre a melhor resposta para tudo — e meu cérebro ainda tenha uma função aqui’”, afirma Bryant.


SOBRE A AUTORA

Grace Snelling é colaboradora da Fast Company e escreve sobre design de produto, branding, publicidade e temas relacionados à geração Z. saiba mais