Não temos tempo de ser pessimistas

A inteligência artificial ameaça a humanidade. O caos climático chega cada vez mais perto de explodir. Rupturas democráticas e aumento da ultradireita no mundo preocupam. Olhar as notícias e os relatórios em 2026 é um pedido para cair no pessimismo e no alarmismo.
Parece que o futuro já está conenado a multiplicar a distopia do presente. Com o caminho escrito, o final delimitado, por que, então, lugar para mudar?
“O pessimismo é um sentimento conservador. Ele serve para conservar todos no mesmo lugar que, históricamente, a maioria de nós sempre esteve”, afirma o advogado e comentarista Fabiano Machado da Rosa, advogado e sócio-fundador da PMR Advocacia. O executivo participou de uma conversa com um grupo de líderes negros no encontro promovida pela AZO, escola de negócios lançada durante a Climate Week Nova York 2026, em Nova York.
Ao longo da tarde, uma conversa sobre carreira e presença nos espaços de poder avançou para inteligência artificial, emergência climática e democracia. Em comum, as falas defendiam que o futuro continua em disputa — e que o alarmismo e a “pedagogia do fim do mundo”, repetida por líderes de empresas de IA.
“Nós não temos tempo para alarmismo. Não temos tempo para comprar a tese de que a IA vai acabar o mundo. Porque por trás dessa narrativa tem uma agenda econômica bem clara: não estude, não lute, não milite, não sonhe em ser presidente, fique no seu lugar”, diz.
Essa ordem silenciosa ganha outro peso quando parte de um profissional negro. Segundo o Instituto Ethos, pessoas negras ocupam apenas 13,8% dos cargos de diretoria e 5,9% dos assentos em conselhos de administração nas 1.100 maiores empresas brasileiras.
“Não é Peter Thiel ou Donald Trump que vão nos dizer o que será nosso futuro. Não vão roubar as nossas ambições mais uma vez”, afirma.
O SMOKING “DE GARÇOM” E O TEMPO
No ano passado, Machado da Rosa alugou um smoking para participar de um evento em Nova York. Quando experimentou a roupa e se olhou no espelho, sua primeira imagem foi a de que estava vestido como um garçom.
Ele fez questão de dizer que não existe problema algum em ser garçom. A pergunta era outra.
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Machado da Rosa já era advogado e liderava um escritório bem-sucedido, cotado para ser premiado neste evento. Por que, diante daquele espelho, não se enxergou como presidente, George Clooney, Malcolm X, Denzel Washington ou Muhammad Ali. “Eu me vi como garçom. E a gente sabe por quê”, disse.
“Você só sonha onde os seus olhos alcançam”, afirmou Machado da Rosa. E o racismo reduz os horizontes.
A AZO quer ampliar justamente esse campo de visão. Ao reunir profissionais negros que construíram trajetórias em diferentes empresas, setores e países, a escola cria um espaço para compartilhar caminhos que muitas vezes permanecem invisíveis. São outras referências de sucesso, liderança, patrimônio e influência — exemplos capazes de mostrar que existem mais futuros possíveis do que aqueles apresentados pelas estruturas tradicionais.
A proposta também é transformar experiências individuais em repertório coletivo. Quando um executivo compartilha como negociou uma posição, entrou em um conselho, influenciou uma decisão ou atravessou uma transição profissional, ele oferece aos demais novos horizontes para imaginar a própria carreira.
Nesse sentido, pensar o futuro deixa de ser apenas um exercício de previsão. Passa a ser a construção de possibilidades que outras pessoas também consigam enxergar.
PRESOS AO HIPERPRESENTE
Chegar às salas de decisão exige recuperar a capacidade de pensar além das urgências do presente.
Machado da Rosa chama essa dificuldade de “ontologia do tempo presente”. É quando o problema imediato ocupa todo o campo de visão e impede que uma pessoa olhe para a história ou se projete no futuro.
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“Nós estamos presos nos problemas de hoje, no boleto de hoje, nos projetos de hoje”, afirmou.
Visto de dentro da crise, qualquer ruptura parece anunciar apenas perdas. A inteligência artificial destruirá o trabalho. A transição energética deixará pessoas para trás. A democracia não sobreviverá. O planeta caminhará para um ponto sem retorno.
A distância histórica mostra que as estruturas sociais também mudam. Direitos trabalhistas, direitos das mulheres, políticas de diversidade e as próprias instituições multilaterais são construções recentes. Elas existem porque pessoas imaginaram regras e espaços que ainda não haviam sido criados.
O mundo enfrentará novas rupturas, avalia Machado da Rosa. Elas podem vir da inteligência artificial, da mudança da matriz energética, do desgaste da democracia representativa ou da dificuldade dos Estados de sustentar redes de proteção social.
Essas mudanças são inevitáveis. Seus resultados ainda não foram definidos. Para o advogado, a educação permite recuperar essa perspectiva. Foi por meio dela que teve acesso, construiu renda, ampliou o repertório e passou a enxergar outras possibilidades para si.
“Os sonhos do futuro são da educação”, afirmou. “A capacidade de me conectar com as pessoas vem da educação. A empatia vem da educação e é cultivada.”
QUEM ESTÁ DESENHANDO A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL
Luana Ozemela, vice-presidente de Impacto e Sustentabilidade do iFood, levou a discussão para as decisões que já estão sendo automatizadas dentro das empresas.
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Por trás de cada sistema existe uma escolha humana: quais informações serão consideradas, que comportamento provocará um bloqueio, quem poderá contestar uma decisão e quais exceções a tecnologia deverá reconhecer.
Um dos exemplos citados por Luana envolve a entrada de entregadores na plataforma. Determinados antecedentes criminais podem impedir o cadastro de uma pessoa. O desenho da regra define se alguém que já cumpriu uma pena continuará sem acesso a uma possibilidade de renda.
Essas escolhas mostram que uma decisão automatizada continua sendo uma decisão institucional. A tecnologia aplica critérios definidos por pessoas, áreas e empresas.
“Agora está sendo construída a fundação da automação”, afirmou Luana. “Depois, podemos perder o fio da meada de como corrigir esses modelos.”
Para ela, líderes precisam se reconhecer como “arquitetos de oportunidades”. A presença na mesa de decisão é o ponto de partida. O objetivo é influenciar a arquitetura dos sistemas e processos que tomarão decisões em escala.
“Eu sou extremamente otimista se tivermos pessoas que pensam como a gente desenhando isso”, disse. “Não sou otimista se não tivermos.”
ESTAR NA SALA E EXERCER INFLUÊNCIA
Luana aprendeu a diferença entre ocupar uma sala e exercer influência quando trabalhava no Banco Interamericano de Desenvolvimento.
Ela apresentou ao conselho da instituição um projeto de segurança pública que seria implementado no Rio Grande do Sul. O programa incluía investimentos na região de Porto Alegre onde havia nascido e seria um dos primeiros projetos do banco no Brasil a separar indicadores por raça.
A executiva preparou uma apresentação técnica, sustentada por dados e análises de custo e benefício. Saiu da reunião confiante. Em seguida, foi procurada pela vice-presidente executiva do banco, que apontou uma oportunidade perdida.
Na tentativa de provar que dominava os aspectos técnicos, Luana havia deixado de defender a criação de uma política voltada à população afrodescendente — tema sobre o qual falava em suas conversas de mentoria.
Na sala estavam representantes de países de toda a América Latina. Ela tinha acesso, repertório e uma experiência pessoal conectada ao projeto. Poderia ter usado esse capital para influenciar uma decisão institucional.
“Muitas vezes, a gente quer provar demais que sabe”, afirmou. “Já chegou à mesa de influência, mas deixa de fazer a leitura do cenário e perguntar qual é seu papel real naquela sala.”
NENHUM FUTURO SE CONSTRÓI SOZINHO
Suelen Rodrigues, diretora regional da MSD para a América Latina, acrescentou outra dimensão à conversa.
Segundo ela, os efeitos da pandemia, da crise climática e da polarização aprofundaram o isolamento e enfraqueceram a capacidade de construção coletiva.
A tentativa de se proteger pode levar as pessoas a conviver apenas com quem pensa da mesma maneira. Esse movimento oferece algum conforto, mas dificulta a formação das coalizões necessárias para mudar instituições.
“Se a gente se excluir, como grupo minorizado, perde voz e espaço”, afirmou.
Construir coalizões exige conversar com pessoas diferentes, reconhecer interesses divergentes e aceitar que nenhuma parte conseguirá impor integralmente sua visão. Para Suelen, essa capacidade também faz parte da defesa da democracia.
Educação, imaginação, influência e coalizão apareceram, ao longo da tarde, como respostas possíveis à desesperança.
Nenhuma delas elimina os riscos da inteligência artificial, da emergência climática ou da erosão democrática. Elas impedem que o medo seja confundido com destino.
Se o futuro ainda está sendo desenhado, permanecer fora das salas de decisão permite que outras pessoas escolham seus limites, suas regras e quem terá acesso às oportunidades que ele produzirá.
O caminho não está escrito. O final não foi delimitado.
“Guardemos o pessimismo para dias melhores”, resumiu Machado da Rosa.
