Mesmo um carro a gasolina novo pode ser pior para o clima do que um elétrico
Ainda considerando a fabricação das baterias e a eletricidade gerada por combustíveis fósseis, antecipar a troca reduz as emissões de gases de efeito estufa

Se o objetivo é reduzir as emissões provocadas pelo transporte, trocar agora um carro a combustão por um veículo elétrico é melhor para o planeta do que esperar até que o automóvel antigo pare de funcionar.
Isso vale até para carros novos e modelos híbridos eficientes. A vantagem continua mesmo quando o cálculo considera as emissões geradas pela mineração de matérias-primas, fabricação de componentes, montagem e transporte dos veículos, além do uso de uma rede elétrica ainda abastecida por combustíveis fósseis, em muitos países.
A conclusão pode surpreender quem está acostumado a consertar objetos e prolongar sua vida útil para reduzir o impacto ambiental. “Meu lema é ‘consertar e reutilizar’. Uma vez, cheguei a trocar o solado dos meus chinelos”, conta Elliott Campbell, principal autor do estudo.
Professor de estudos ambientais da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, Campbell acreditava que consertar e continuar usando um carro a combustão ainda poderia fazer sentido do ponto de vista ambiental.
“Mas, como mostra o estudo, vale a pena retirar o carro de circulação imediatamente em todos os casos, até quando é novo, muito eficiente ou híbrido. Ou, pelo menos, fazer isso assim que for financeiramente possível”, afirma.
“Fiquei chocado ao descobrir que até os carros a combustão mais eficientes deveriam ser retirados de circulação se o objetivo é reduzir as emissões de gases de efeito estufa.”
O estudo foi publicado em agosto na revista científica “Science“.
COMO OS PESQUISADORES CALCULARAM AS EMISSÕES
Ao conversar com motoristas sobre a transição para veículos elétricos, Campbell e seus alunos perceberam que uma dúvida se repetia. “As pessoas perguntavam: ‘devo continuar consertando meu carro até ele não funcionar mais ou fazer a troca antes?’”, conta.
Diversos estudos já analisaram as emissões associadas aos veículos elétricos e até a economia financeira proporcionada pela mudança. Mas ainda faltava determinar qual seria o melhor momento para trocar de carro.
Para chegar à resposta, Campbell e sua equipe compararam dois cenários: usar um automóvel a combustão durante toda a sua vida útil, estimada em cerca de 16 anos, ou retirá-lo de circulação mais cedo e substituí-lo por um elétrico.

Os cálculos consideraram toda a energia e as emissões envolvidas na produção dos veículos, desde a mineração até a montagem e o transporte. Também avaliaram o consumo durante o uso: de um lado, a gasolina que um motor a combustão queima ao longo dos anos; de outro, a eletricidade consumida por um veículo elétrico.
A equipe analisou mais de 400 modelos a combustão e elétricos. Entraram na conta a eficiência dos veículos, as fontes de geração de eletricidade, a quilometragem percorrida, o tamanho das baterias e as emissões específicas de sua fabricação.
Leia mais: Primeiro carro 100% elétrico produzido no Brasil é realidade
“Tentamos ajustar todas as variáveis que conseguimos imaginar”, diz Campbell. “Na maioria dos cenários, o veículo elétrico foi o vencedor.”
Em 92% das situações analisadas, retirar o carro a combustão de circulação e trocá-lo por um elétrico gerou menos emissões de gases de efeito estufa. Isso se manteve até quando o automóvel substituído era novo e eficiente.
POR QUE O CARRO ELÉTRICO LEVA VANTAGEM
Um dos principais argumentos contra os veículos elétricos é a quantidade de energia necessária para fabricá-los. O próprio estudo reconhece que descartar um carro novo pode parecer um desperdício e não faz sentido financeiro para a maioria das pessoas.
Embora a fabricação de um elétrico também gere emissões, os carros a combustão consomem muito mais energia durante o uso. Apenas 20% da energia contida na gasolina é convertida em movimento. Os outros 80% são perdidos na forma de calor.
o estudo considerou toda a energia e as emissões na produção dos veículos e o consumo durante seu uso.
“Um carro a gasolina é como um secador de cabelo sobre rodas”, compara Campbell. “Quase dá para pensar nele como um aquecedor cujo efeito secundário é transportar pessoas.”
Nos veículos elétricos, a proporção se inverte: cerca de 80% da eletricidade que passa pela bateria é usada para movimentar o carro, enquanto 20% se perde como calor.
Quanto mais cedo um veículo a combustão sai das ruas, maior é a distância percorrida com as emissões mais baixas dos elétricos. Nos Estados Unidos, o transporte é a maior fonte direta de gases de efeito estufa e responde por mais de um quarto das emissões nacionais. Por isso, a mudança pode ter um impacto considerável.
UMA BATERIA OU 20 TONELADAS DE PETRÓLEO
O estudo se concentrou nas emissões de gases de efeito estufa, mas Campbell também comparou os materiais consumidos pelos dois tipos de veículos.
A bateria de um carro elétrico pesa, em média, cerca de meia tonelada. Esse volume ajuda a dimensionar quanto material precisa ser extraído da natureza para fabricá-la.
Já um veículo a combustão depende da extração contínua de petróleo para continuar funcionando. Ao longo de sua vida útil, consome cerca de 20 toneladas do recurso. “Estamos falando de uma diferença de 40 vezes na intensidade do uso de materiais”, afirma Campbell.

Há ainda uma diferença no destino desses recursos. As baterias dos veículos elétricos podem ser recicladas, com a possibilidade de recuperar até 98% dos minerais para reutilização. A reciclagem ainda é uma indústria em desenvolvimento, mas avança com rapidez.
“Quando você queima 20 toneladas de petróleo ao longo da vida útil de um carro, esse material se transforma em dióxido de carbono”, explica o pesquisador. “O petróleo foi perdido para sempre.”
A VANTAGEM DEVE AUMENTAR NOS PRÓXIMOS ANOS
Campbell espera que o estudo ajude a deixar mais claras as vantagens ambientais dos veículos elétricos e incentive governos a criar ou ampliar programas de substituição.
Essas iniciativas oferecem incentivos financeiros para que motoristas troquem veículos mais poluentes por modelos com emissão zero.
Leia mais: Marcas chinesas crescem no mercado automotivo brasileiro, culpa dos carros elétricos
A vantagem ambiental dos elétricos também deve crescer à medida que fontes renováveis ganhem espaço nas redes de energia e avancem a eficiência dos veículos e a reciclagem de baterias.
“Se continuarmos nesse caminho, o cenário ficará cada vez melhor para os veículos elétricos”, conclui Campbell.