Nem só elétrico, nem só híbrido: a aposta multienergia da GWM

Na CES 2026, montadora chinesa defende a coexistência de elétricos, híbridos, motores eficientes e hidrogênio, todos guiados por software

Crédito: Fast Company Brasil

Marcelo Lobianco 4 minutos de leitura

Na CES 2026, em Las Vegas, a GWM não está apenas exibindo novos modelos aos visitantes, jornalistas e concorrentes. A montadora chinesa leva na bagagem uma tese, Em vez de definir toda a sua estratégia de negócio na direção de uma única rota tecnológica, o futuro da mobilidade será definido pela coexistência de sistemas híbridos, elétricos, motores térmicos de alta eficiência e hidrogênio. Tudo, é claro, com um software no comando.

Esta é a base da estratégia multienergia da companhia. Em um cenário global fragmentado, com regulações distintas, infraestruturas desiguais e perfis de consumo variados, a GWM aposta que flexibilidade será mais valiosa do que padronização.

Na maior feira de tecnologia do mundo, o estande da marca é apresentado como uma espécie de laboratório dessa estratégia de negócio. Quem passa pelo espaço vê veículos, plataformas inteligentes, baterias de nova geração e soluções em hidrogênio no mesmo espaço, conectados por uma camada comum de tecnologia.

MILTIENERGIA É SOBRE SISTEMAS, NÃO SOBRE MOTORES

A estratégia multienergia pode ser definida de uma forma mais simples pela diversificação de propulsões. Mas o movimento escolhido pela GWM vai na direção de uma arquitetura modular, com a integração de diferentes fontes de energia, níveis de automação e camadas de software.

Com isso, a montadora chinesa se concentrou no desenvolvimento de veículos que não nascem atrelados a uma única matriz energética. Os modelos são projetados para se adaptar a mercados, usos e condições distintas — do urbano premium ao off-road, da logística ao transporte familiar.

Modelo da GWM, apresentado na CES 2026
(Marcelo Lobianco/Fast Company Brasil)

Essa abordagem é o que permite à marca escalar suas plataformas globalmente, ajustando o “pacote tecnológico” sem ter de reconstruir tudo do zero.

VEÍCULO MULTIUSO E IA COMO PARTE DA INFRAESTRUTURA

O modelo WEY G9 é um exemplo dessa lógica. Construído sobre uma plataforma dedicada para veículos multiuso (MPVs) premium o veículo combina recursos como eletrificação avançada e sistemas de assistência baseados em sensores LiDAR – que usa a tecnologia de feixes de luz para identificar obstáculos, calcular distâncias e analisar o cenário ao redor em tempo real.

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Outro exemplo de como a tecnologia tem sido trabalhada pela companhia chinesa, que conta com capital 100% privado, é o Wey 07. O SUV conta com arquitetura de inteligência artificial VLA – um novo modelo de linguagem de visão e ação, que integra percepção, tomada de decisão e interação.

Wey, da GWM, apresentado na CES 2026
(Marcelo Lobianco/Fast Company Brasil)

Com isso, o software, em vez de ser um complemento, passa a definir como o veículo se comporta, aprende e se adapta, segundo a montadora. Mas, para a empresa, não adianta apenas investir em avanços como a IA e deixar de fora a integração.

PRODUÇÃO NACIONAL

No Brasil há apenas dois anos, a montadora já colhe tração comercial: encerrou 2025 com mais de 42 mil veículos vendidos, superando a meta anual em 22% e avançando 46% em relação a 2024.

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Em agosto do ano passado, a GWM inaugurou no interior paulista, na cidade de Iracemápolis, a primeira fábrica da marca no continente americano. É a terceira unidade fora da China com base completa de produção. A operação começou com três modelos confirmado. São eles o SUV híbrido Haval H6, a picape média Poer P30 e o SUV de 7 lugares Haval H9.

motocicleta da GWM exibida na CES 2026
(Marcelo Lobianco/Fast Company Brasil)

O investimento total no Brasil, segundo a empresa, chegará a R$ 10 bilhões em dez anos. Na primeira fase, que inclui este ano, serão R$ 4 bilhões. Na etapa seguinte, entre 2027 e 2032, serão mais R$ 6 bilhões.

EM VEZ DA CONCESSIONÁRIA, A COMPRA PELO CELULAR

Segundo dados divulgados recentemente pela Associação Brasileira de Veículos Elétricos (ABVE), referentes a 2025, a GWM terminou o ano em terceiro lugar entre as montadoras desse segmento, com 13,8% de participação de mercado – muito próxima da Fiat, com 14,9%. A liderança ficou com a BYD, com 39,6% das vendas.

Lucas Coelho, CMO da GWM
(Marcelo Lobianco/Fast Company Brasil)

O desempenho tem a ver com um modelo incomum no setor automotivo: o cliente não precisa ir a uma concessionária para fechar a compra. Todo o processo pode ser feito on-line. O Mercado Livre é parceiro da GWM na jornada 100% online.

Na prática, o consumidor escolhe o modelo, dá um sinal de R$ 9 mil e recebe o veículo. Para Lucas Coelho, CMO da montadora, trata-se de uma forma de reduzir a fricção em uma jornada historicamente marcada por burocracia, negociação e múltiplas etapas presenciais.

“Temos um processo disruptivo. Conseguimos colocar à venda modelos que ainda nem chegaram ao show-room”

Lucas Coelho, da GWM

“Hoje, cerca de 90% das nossas vendas passam por esse processo de pré-reserva dentro do Mercado Livre”, diz o executivo. “Temos um processo disruptivo. É um modelo escalável. Conseguimos colocar à venda modelos que ainda nem chegaram ao show-room”, resume.

A parceria estratégica com o Mercado Livre, como explica Coelho, tem funcionado muito bem até agora. Quando a BWM lançou o modelo Haval H9, em setembro passado, o estoque previsto para um mês foi comercializado em apenas seis horas no processo 100% digital, via Mercado Livre.

A lógica é a mesma que orienta a estratégia tecnológica da companhia: menos atrito, mais fluidez. Se os veículos estão se transformando em plataformas digitais, o processo de compra também precisa seguir essa lógica.

* Enviado especial a Las Vegas – viagem feita a convite da GWM


SOBRE O AUTOR

Marcelo Lobianco é CEO da Fast Company Brasil. saiba mais