Os EUA estão desistindo dos elétricos no pior momento possível

Ao desacelerar a transição para veículos elétricos, os EUA correm o risco de perder competitividade, empregos e inovação para China e Europa

Os EUA estão desistindo dos elétricos no pior momento possível
fab4istock via Getty Images / Steve LEDEME, Martin Baron via Unsplash

Hengrui Liu e Kelly Sims Gallagher 9 minutos de leitura

No Salão do Automóvel de Detroit de 2026, os holofotes mudaram discretamente. Os veículos elétricos, antes vistos como o futuro inevitável da indústria, deixaram de ser o foco principal. Em vez disso, as montadoras enfatizaram híbridos, modelos a gasolina atualizados e melhorias incrementais na eficiência.

O evento, realizado em janeiro, refletiu uma recalibração da indústria que estava acontecendo em tempo real: a Ford e a General Motors haviam anunciado recentemente baixas contábeis de US$ 19,5 bilhões e US$ 6 bilhões, respectivamente, relacionadas aos elétricos, refletindo as perdas esperadas com o desmantelamento ou adiamento de partes de seus planos para esse tipo de veículo.

Os EUA estão recuando em uma transição que grande parte do mundo está acelerando.

A mensagem de Detroit foi inequívoca: os EUA estão recuando em uma transição que grande parte do mundo está acelerando. Esse recuo acarreta consequências que vão muito além das concessionárias.

Na China, na Europa e em um número crescente de mercados emergentes, incluindo Vietnã e Indonésia, os veículos elétricos representam agora uma parcela maior das vendas de veículos de passageiros novos do que nos Estados Unidos.

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OS RISCOS PARA OS EUA

Isso significa que a redução na produção de veículos elétricos nos EUA não é apenas um problema climático — os veículos movidos a gasolina são um dos principais contribuintes para as mudanças climáticas — mas também um problema de competitividade industrial, com implicações diretas para o futuro das montadoras, fornecedores e trabalhadores do setor automotivo americano.

A desaceleração na produção e na adoção de veículos elétricos nos EUA pode manter os preços mais altos, atrasar melhorias em baterias e softwares e aumentar o risco de que a próxima geração de criação de valor automotivo aconteça em outros lugares.

ONDE OS VEÍCULOS ELÉTRICOS DOMINAM

Em 2025, os registros globais de veículos elétricos aumentaram 20%, chegando a 20,7 milhões. Analistas da Benchmark Mineral Intelligence relataram que a China atingiu 12,9 milhões de registros de veículos elétricos, um aumento de 17% em relação ao ano anterior; a Europa registrou 4,3 milhões, um aumento de 33%; e o resto do mundo adicionou 1,7 milhão, um aumento de 48%.

Em contraste, o crescimento das vendas de veículos elétricos nos EUA foi praticamente nulo em 2025, em torno de 1%. A montadora americana Tesla sofreu quedas tanto em escala quanto em lucratividade — suas entregas de veículos caíram 9% em comparação com 2024, o lucro líquido da empresa diminuiu 46% e o CEO Elon Musk afirmou que a empresa concentraria seus esforços em inteligência artificial e robótica.

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A participação de mercado conta uma história semelhante e também desafia a suposição de que a eletrificação de veículos levaria tempo para se expandir dos países ricos para os mercados emergentes.

Em 39 países, os veículos elétricos já representam mais de 10% das vendas de carros novos

Em 39 países, os veículos elétricos já representam mais de 10% das vendas de carros novos, incluindo Vietnã, Tailândia e Indonésia, que atingiram 38%, 21% e 15%, respectivamente, em 2025, segundo analistas de energia da Ember.

Nos EUA, os veículos elétricos representaram menos de 10% das vendas de veículos novos, de acordo com estimativas da Ember.

O presidente dos EUA, Donald Trump, retornou ao cargo em 2025 prometendo acabar com as políticas que apoiavam a produção e a venda de veículos elétricos e impulsionar os combustíveis fósseis. Mas, enquanto os EUA reduziam os incentivos federais ao consumidor, governos em outros países continuaram, em grande parte, a transição para veículos elétricos.

A Europa suavizou sua meta de que todos os veículos tivessem emissão zero até 2035, a pedido das montadoras, mas sua nova meta ainda é uma redução de 90% nas emissões de dióxido de carbono dos automóveis até 2035.

A Alemanha lançou um programa que oferece subsídios de 1.500 a 6.000 euros por veículo elétrico, destinado a famílias de baixa e média renda.

Em economias em desenvolvimento, a política para veículos elétricos tem sido amplamente sustentada por políticas industriais. No Brasil, o Programa Mover oferece créditos fiscais explicitamente vinculados à produção nacional de veículos elétricos, pesquisa e desenvolvimento e metas de eficiência. A África do Sul está introduzindo um incentivo fiscal de 150% para investimentos na fabricação de veículos elétricos e baterias, concedendo-lhes isenção fiscal a partir de março de 2026. A Tailândia implementou subsídios e reduziu o imposto sobre produtos industrializados (IPI) vinculado à produção local obrigatória e aos compromissos de exportação.

Na China, a indústria de veículos elétricos entrou em uma fase de maturidade regulatória. Após uma década de subsídios e investimentos estatais que ajudaram as empresas nacionais a competir com preços mais baixos que os da concorrência global, o foco do governo não é mais o crescimento explosivo no mercado interno.

Com o mercado interno saturado e a concorrência acirrada, as montadoras chinesas estão investindo agressivamente nos mercados globais. Pequim reforçou essa mudança ao encerrar a isenção total de impostos para a compra de veículos elétricos e substituí-la por um imposto progressivo de 5% sobre os compradores.

CONSEQUÊNCIAS PARA AS MONTADORAS AMERICANAS


A fabricação de veículos elétricos é regida por curvas de aprendizado acentuadas e economias de escala, o que significa que quanto mais veículos uma empresa produz, melhor ela se torna em fabricá-los mais rápido e mais barato. Baixa produção e vendas no mercado interno podem significar custos mais altos para peças e menor poder de negociação para as montadoras nas cadeias de suprimentos globais.

O cenário competitivo já está mudando. Em 2025, a China exportou 2,65 milhões de veículos elétricos, dobrando suas exportações de 2024, segundo a Associação Chinesa de Fabricantes de Automóveis. E a BYD ultrapassou a Tesla como a maior fabricante de veículos elétricos do mundo em 2025.

Os EUA correm o risco de se tornarem seguidores na indústria que um dia definiram.

Os EUA correm o risco de se tornarem seguidores na indústria que um dia definiram. Alguns argumentam que os consumidores americanos simplesmente preferem caminhonetes e híbridos. Outros apontam para os subsídios chineses e a supercapacidade como distorções que justificam a cautela da indústria americana. Essas preocupações merecem consideração, mas não superam o fato fundamental de que, globalmente, a participação dos veículos elétricos nas vendas de automóveis continua a crescer.

O QUE OS EUA PODEM FAZER?

Para que as montadoras e os trabalhadores americanos sejam competitivos nesse mercado, o governo, em nossa opinião, terá de parar de tratar os veículos elétricos como uma questão ideológica e começar a governá-los como uma transição industrial.

Isso começa com a restauração da credibilidade regulatória, algo que parece improvável agora, enquanto o governo Trump avança para a flexibilização dos padrões de emissões veiculares. Padrões de desempenho são o motor silencioso do investimento industrial. Quando os padrões são previsíveis e aplicados, os fabricantes podem planejar, os fornecedores podem investir em novos negócios e os trabalhadores podem se capacitar para atender à demanda estável.

OS CAMINHOS PARA UM CAVALO DE PAU

Governos estaduais e locais, assim como a indústria, também podem tomar medidas importantes. São elas:

Foco na acessibilidade e na equidade: O crédito tributário federal para veículos limpos, que efetivamente concedia um desconto aos compradores de veículos elétricos, expirou em setembro de 2025. Uma alternativa é o apoio direcionado, no ponto de venda, para compradores de baixa e média renda. Ao abandonar os créditos genéricos em favor de incentivos direcionados — um modelo já utilizado na Califórnia e na Pensilvânia — os governos podem garantir que os recursos públicos sejam direcionados para pessoas que atualmente não têm condições de comprar veículos elétricos. Além disso, reduções nas taxas de juros que permitem aos compradores diminuir seus pagamentos de financiamento e programas de “empréstimos verdes” podem ajudar, geralmente financiados por governos estaduais e locais, empresas de serviços públicos ou subsídios federais.

Continue expandindo a rede de recarga: Em 23 de janeiro de 2026, um juiz federal decidiu que o governo Trump violou a lei ao suspender um programa de US$ 5 bilhões para expandir a rede nacional de carregadores para veículos elétricos. Esse esforço de expansão pode ser aprimorado mudando o foco do número de pontos de recarga instalados para o número de carregadores em funcionamento, como fez a Califórnia em 2025. Garantir a confiabilidade e eliminar gargalos, como conexões elétricas e sistemas de pagamento, pode ajudar a aumentar o número de pontos de recarga em operação.

Use a aquisição de frotas como estabilizador para as vendas nos EUA: Quando estados, cidades e empresas fornecem um volume previsível de compras de veículos, isso ajuda os fabricantes a planejar investimentos futuros. Por exemplo, o pedido da Amazon em 2019 de 100.000 veículos elétricos de entrega da Rivian, a serem entregues ao longo da década seguinte, deu à montadora iniciante o impulso necessário.

Trate a transição da força de trabalho como infraestrutura essencial: Isso significa capacitar os trabalhadores com habilidades que possam ser transferidas de um emprego para outro, ajudar os fornecedores a se reestruturarem em vez de fecharem as portas e coordenar o treinamento com as necessidades dos empregadores. Se bem executados, esses investimentos transformam a mudança econômica em uma fonte de empregos estáveis ​​e amplo apoio público. Se mal executados, correm o risco de gerar uma reação política negativa.

O que aconteceu no Salão do Automóvel de Detroit deveria ser um alerta, não um veredito. A indústria automobilística global está acelerando sua transição para veículos elétricos. A questão para os Estados Unidos é se o país moldará esse futuro — e garantirá que as tecnologias e os empregos da próxima era automotiva estejam nos EUA — ou se os importará. Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.

Os autores:

Hengrui Liu faz pesquisas no pós-doutorado em economia e políticas públicas na Fletcher School da Universidade Tufts.

Kelly Sims Gallagher é professora de energia e política ambiental e diretora do Laboratório de Políticas Climáticas e do Centro de Políticas Internacionais de Meio Ambiente e Recursos Naturais da Fletcher School da Universidade Tufts.


SOBRE O(A) AUTOR(A)