Se carros autônomos podem salvar vidas, por que resistimos?
Mortes no trânsito seguem como crise de saúde pública, enquanto a desconfiança em relação à tecnologia autônoma cresce. O que a história dos elevadores revela sobre esse medo

Uma cultura do medo facilita o nosso julgamento precipitado.
Por milhares de anos, caminhar e andar a cavalo foram os principais meios de transporte, e os padrões de assentamento refletiam diretamente as opções de transporte disponíveis. Vilarejos e cidades compactos e com poucos andares faziam sentido, considerando a distância que as pessoas podiam percorrer a pé ou a cavalo. Isso foi verdade até o final do século XIX.
Então surgiu uma invenção que permitiu às pessoas viajar distâncias incríveis em segundos, remodelando completamente as cidades com densos aglomerados populacionais. A tecnologia era uma caixa robusta projetada para transportar várias pessoas ao mesmo tempo, mas que frequentemente transportava apenas uma. Estou falando, é claro, do elevador.
Antes dos elevadores, os prédios eram baixos porque as escadas limitavam a altura.
Os elevadores transformaram o planejamento urbano de maneiras notáveis, muito antes dos automóveis espalharem a vida horizontalmente. Antes dos elevadores, os prédios eram baixos porque as escadas limitavam a altura. Subir dois ou três lances de escada não era tão ruim. Subir dez lances de escadas íngremes e escuras até o escritório carregando uma pasta é, sem trocadilho, outra história. Não demorou muito para que os horizontes das cidades mudassem após a invenção do elevador.
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Cada elevador antigo tinha seu próprio operador, que dominava o tempo e o toque dos controles manuais. Esses operadores usavam suas melhores roupas de domingo como um lembrete psicológico: “Nós o levaremos em segurança ao seu destino”. Mentes brilhantes inovaram no elevador, adicionando tecnologia de segurança como freios automáticos, mas foi o toque humano que acalmou os nervos do público.
É difícil hoje imaginar se sentir completamente impotente em um elevador, mas essa era a vida no início do século XX. Zero chance de pessoas comuns como você e eu tentarem operar um elevador sem treinamento rigoroso prévio.
A MUDANÇA COMPLETA COM A AUTOMAÇÃO
Isso mudou drasticamente com a greve dos operadores de elevador da cidade de Nova York em setembro de 1945. Cerca de 15.000 operadores, porteiros, carregadores e trabalhadores de manutenção entraram em greve, paralisando o serviço em mais de 2.000 edifícios. Cerca de 1,5 milhão de pessoas evitaram elevadores, optando pelas escadas ou ficando em casa em vez de arriscar operar as cabines. Mas recursos de “autosserviço”, como energia elétrica, telefones de emergência e botões de acionamento, já estavam se popularizando, então a greve ajudou a abrir as portas para a automação completa.
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Elevadores autônomos! Quase dá para ouvir o público suspirando. Entre em uma cabine, deixe as portas se fecharem e tranque você lá dentro, e confie que essa coisa o levará rapidamente — mas não rápido demais — até o destino certo.
A Otis é reconhecida por ter instalado o primeiro elevador totalmente automatizado em 1950, em Dallas (EUA). Mas a transição levou tempo, tanto para a tecnologia melhorar quanto para que uma população cética confiasse nela. Operadores ainda eram empregados em algumas cidades 30 anos depois. Hoje, você pode simplesmente escanear o cartão do seu quarto de hotel no saguão, que chama uma cabine para levá-lo ao seu destino exato sem nem mesmo apertar botões dentro dela.
UMA CRISE DE SAÚDE PÚBLICA
Você e eu nunca teremos tempo, energia ou necessidade de ler os milhares de artigos de opinião sobre os perigos da tecnologia autônoma em relação aos carros. À medida que os robôs-táxis aceleram sua implantação em 2026, não faltarão histórias baseadas no medo.
Não existe cenário, com ou sem tecnologia, que resulte em uma vida sem perigos. O desafio para nós é identificar e analisar as vantagens e desvantagens sem sermos influenciados por ideologias ou frustrados por argumentos falaciosos e simplistas.
As mortes em acidentes de trânsito continuam sendo uma crise de saúde pública.
Não sou especialista em tecnologia, então não me aprofundo muito no que um determinado dispositivo novo e brilhante pode ou não fazer. Sou especialista em segurança no trânsito. Por isso, posso afirmar que as mortes em acidentes de trânsito continuam sendo uma crise de saúde pública.
RISCO MINIMIZADO
Todos os dias, mais de 100 pessoas morrem em acidentes de trânsito e milhares sofrem lesões que mudam suas vidas. Esse é o histórico dos motoristas humanos há décadas. O software pode salvar vidas, impedindo que as pessoas dirijam em alta velocidade, furem o sinal vermelho, ultrapassem ônibus escolares, sigam o veículo da frente muito de perto em condições climáticas adversas ou cometam outros atos antissociais perigosos. Se apenas 50 pessoas morrerem por dia por causa da tecnologia autônoma, isso não seria motivo para comemorar? E se a tecnologia pudesse reduzir as mortes no trânsito a quase zero?
É natural sentir medo de tecnologias emergentes. Os primeiros usuários de elevadores se sentiam impotentes ao entrar em uma cabine que se fechava com um operador para guiá-los. Mas as pessoas se adaptaram porque o status quo (escadas limitando como podíamos construir e viver) era pior, e recursos de segurança incrementais geraram confiança ao longo do tempo.
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Existem preocupações absolutamente válidas sobre veículos autônomos, como ataques de hackers ou a falha em reconhecer uma rua de mão única. Mas lembre-se de que os humanos não são os operadores mais seguros, que nosso estado atual de mobilidade é uma crise de saúde pública que mata dezenas de milhares de pessoas todos os anos. Veículos autônomos programados para operar com segurança fazem parte da busca por um design que promova o florescimento humano.
Se confiamos às máquinas a capacidade de nos levar aos céus sem hesitar, podemos abordar os sistemas de transporte da mesma forma: com otimismo cauteloso, baseados em evidências e abertos ao progresso que salva vidas.