Há exatamente um mês, em 7 de maio, completaram-se 20 anos da emblemática assembleia de constituição da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico, primeira entidade multisetorial da economia digital no Brasil e América Latina.

Apesar do importante papel que teve no desenvolvimento dos negócios eletrônicos, poucos sabem ou se lembram dos fatos e acontecimentos que resultaram no nascimento dessa entidade, que, ainda hoje, influencia o presente e o futuro do segmento no país.

Lembro-me, como se fosse hoje, de como surgiu a ideia de sua criação.

Eram meados de 2000 e eu tinha acabado de deixar o cargo de diretor de marketing e comunicação corporativa da StarMedia Networks para me mudar para Brasília e começar a trabalhar na equipe da então SLTI – Secretaria Nacional de Logística e Tecnologia da Informação, alocada no Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão, em pleno governo FHC. Estava almoçando feijoada e caipirinhas com o amigo André Freire, representante do Cadê? (lembram-se?), em um daqueles restaurantes do Gilberto Salomão, no Lago Sul, quando “me caiu no prato” a ideia que mudaria minha vida e influenciaria o desenvolvimento desse novo setor da economia.

“A Câmara teve papel fundamental na formatação e crescimento dos negócios eletrônicos, que, à época de sua fundação representavam menos de 1% do varejo brasileiro”

Corri para o hotel e formatei o primeiro PPT com os princípios básicos dessa iniciativa pioneira. Encubei o projeto por alguns meses, mostrando-o a alguns poucos interlocutores confiáveis e estrategicamente bem posicionados, construindo os elementos necessários para torná-lo público.

Participaram dessas interlocuções iniciais figuras como Horacio Lafer Piva, Robert Dannenberg, Lúis Carlos Bolcinhas, Emílio Umeoka e Jack London, depois eleito primeiro presidente da entidade. Além desses, também colaboraram, em Brasília, com estatutos e estratégias, Robson Luz (Amcham), Marta Mitico e Caio Leonardo (Pinheiro Neto Advogados), Murillo Aragão (Arko Advice) e Odecio Gregio (Bradesco), que abriu as portas do Bradespar, em São Paulo, para a grande assembleia de 7 de maio de 2001.

Após semanas de preparativos, conchavos e muita expectativa, mais de 150 “pesos pesados” do cenário corporativo nacional lotaram o auditório na Faria Lima. Não fosse pela presença física (e de espírito) do grande Nizan Guanaes, todos os esforços poderiam ter desandado na aprovação dos estatutos e eleição dos primeiros cargos. Em um repente retórico inesquecível (“não quero cargo, mas encargos”), salvou a assembleia e garantiu a criação da tão desejada associação.

Com a certeza de não contemplar todos os personagens importantes para o início da Camara-e.net e de estar cometendo injustiças, pelas quais já me desculpo, gostaria de destacar alguns nomes (e empresas que representavam) que tiveram atuação marcante nos primeiros tempos de nossa querida entidade, como Caio Tulio Costa (UOL), Gastão Mattos (Visa), Matinas Suzuki (IG), Flavio Jansen (Submarino), Maristela Basso e Regina Ribeiro do Vale (Tozzini Freire Advogados), Luiz Sette (Microsoft), André de Almeida (Almeida Advogados), Eduardo Chalita (Americanas), Sérgio Hertz (Livraria Cultura), Daniel Domeneghetti (e-Consulting), Luís Roberto Demarco (Nexxy), Paula Santos (Vesta), Antônio Braquehais (Correios), Ricardo Barretto (BKBG Advogados), Alexandre Chade (Dotz), Ricardo Theil (Assespro), Alessandra Del Debbio (Nokia), Renato Opice Blum (Opice Blum Advogados), Gerson Schmit (Paradigma), Ludovino Lopes (Menezes Lopes Advogados), Romero Rodrigues (Buscapé), Manuel Matos, Alberto Albertin (FGV), John Mein (Amcham), Bruno Fiorentini (Yahoo!), Gil Giardelli (Permission) e Índio Brasileiro Guerra Neto (Firstcom), entre outros, além do trabalho incansável de colaboradores dedicados, como Daniela Goios, Renata Torquato, Afrânio Bittencourt, Edilson Flausino e Maria Thereza Corrêa.

Deixei de ser diretor executivo da Camara-e.net em 2006, depois de ter vivido alguns dos meus melhores momentos profissionais, no Brasil e fora, nas várias viagens que fizemos para representar os interesses do país na ONU e outros organismos internacionais.

Mas minha saída não comprometeu o trabalho institucional da Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. Ela teve papel fundamental na formatação e crescimento dos negócios eletrônicos, que, à época de sua fundação representavam menos de 1% do varejo brasileiro. Foi em cima dessa base sólida, conquistada por intermédio da interlocução sistemática e multisetorial, que vimos o enorme crescimento desse mercado, inclusive, recentemente, com a pandemia e o acelerado processo de transformação digital que estamos assistindo.

Recentemente, já sob a presidência do advogado Leonardo Palhares, nossa querida Camara-e.net começou um novo capítulo de sua história e teve seu nome alterado para Câmara Brasileira da Economia Digital.

Confesso que, como criador, senti uma rápida pontada de ciúme quando soube da mudança, sentimento que logo passou, principalmente após ter sido convidado, no contexto das comemorações dos 20 anos, para voltar a colaborar com a entidade com a criação de um comitê de trabalho sobre Acessibilidade Digital e Comunicacional.

Ou seja, uma vez mais, vida longa à Camara-e.net e à sua tremenda contribuição para o desenvolvimento da Economia Digital e, por tabela, de toda a economia do Brasil!

Este texto é de responsabilidade de seu autor e não reflete, necessariamente, a opinião da Fast Company Brasil

SOBRE O AUTOR

Cid Torquato é advogado, ex-Secretário Municipal da Pessoa com Deficiência de São Paulo e atual CEO do ICOM Libras