POR JEFF MAGGIONCALDA

A pandemia criou profundas divisões na força de trabalho, corroendo as oportunidades e destruindo os meios de subsistência das pessoas. Mas, à medida que o mundo se reabre e a economia se recupera, mudanças duradouras na maneira de aprender, ensinar e trabalhar, ajudarão a resolver a crescente crise de desigualdade. Agir como líderes maximiza o impacto dessas tendências e inaugura uma nova era de acesso e oportunidades.

O TRABALHO REMOTO ESTÁ DERRUBANDO BARREIRAS 

A mudança vivenciada durante a pandemia desafiou decisivamente a noção de que o emprego precisa ser limitado a um local. Com a ascensão do trabalho remoto e o movimento irrestrito de profissionais — pela primeira vez — qualquer pessoa pode trabalhar em qualquer lugar do mundo.

Em maio de 2021, um relatório do LinkedIn mostrou um aumento de 457% nas ofertas de empregos remotos nos EUA, enquanto a McKinsey sugeriu que 20% a 25% da força de trabalho nas economias avançadas poderia trabalhar remotamente de forma viável.

Remover a geografia da equação não apenas permite que os empregadores tenham acesso a um banco de talentos muito mais amplo, mas também abre oportunidades para as pessoas que precisam de maior flexibilidade e que estão fora dos centros tradicionais de empregos.

Líderes e gerentes de contratação podem começar analisando se a função para a qual estão admitindo funcionários pode ser realizada remotamente. Na Coursera, plataforma de aprendizagem online, dar preferência ao modelo remoto possibilita que qualquer pessoa de qualquer lugar agora possa se inscrever para cargos na empresa. Como executivo-chefe da Coursera, espero que uma porcentagem significativa da força de trabalho seja remota e distribuída, aproveitando ao máximo as ferramentas e tecnologias de colaboração, enquanto se reúne periodicamente em vários escritórios (reinventados para colaboração).

OS EMPREGOS DIGITAIS FORNECEM UM CAMINHO ALTERNATIVO PARA FUNÇÕES EM RISCO DE AUTOMAÇÃO

Noventa e um por cento das empresas dos EUA aceleraram seus planos de digitalização em 2020. Essa transformação criou novos empregos e colocou outros em risco. De acordo com o relatório Future of Jobs do Fórum Econômico Mundial, a aceleração da automação induzida pela pandemia pode acabar com 85 milhões de empregos nos próximos cinco anos. Com a automação impactando mais os trabalhadores de baixa renda, a McKinsey estima que mais da metade desses trabalhadores demitidos terão que mudar para ocupações de salários mais altos para permanecer empregados — exigindo habilidades muito diferentes.

O desenvolvimento de habilidades digitais básicas abre portas para empregos futuros. A Microsoft prevê que haverá 149 milhões de novos empregos digitais até 2025, com 13 milhões apenas nos Estados Unidos.

Preparar trabalhadores para funções digitais de alta demanda, com possibilidade de trabalhar remotamente, pode exaltar as comunidades locais quebrando as barreiras tradicionais à mobilidade econômica e permitindo que o talento cresça de forma mais sustentável. Mas tornar isso uma realidade requer esforços massivos de requalificação que só podem ser entregues por meio de novos modelos ​​de aprendizagem e trabalho. Os Departamentos de Trabalho no Tennessee e em Nova York são exemplos em ação. Para qualificar trabalhadores para empregos de alto crescimento, são necessárias mais parcerias público-privadas para ajudar as pessoas a desenvolver habilidades digitais valiosas.

RAMPAS DE ACESSO DIGITAIS LEVAM OS TRABALHADORES A OPORTUNIDADES EM SETORES EM DESENVOLVIMENTO

Romper o ciclo de exclusão é a chave para mobilizar talentos de comunidades que historicamente tiveram acesso limitado ou nenhum acesso a empregos de alta qualificação. Isso é especialmente importante agora, à medida que o desemprego se amplia em contextos raciais e étnicos. Pesquisas da Brookings Institution revelam que os trabalhadores das comunidades negras e latinas são os mais vulneráveis por ocupar, em grande medida, as vagas de emprego que podem estar em perigo devido ao aumento da automação — o que foi acelerado durante a pandemia.

Habilidades digitais permitem que trabalhadores demitidos recuperem uma posição no mercado de trabalho e ​​façam a transição para novas e crescentes oportunidades de emprego. 

O Certificado de Suporte de TI do Google, que não exige experiência ou diploma universitário, ajudou a preparar pessoas para funções básicas em suporte de TI em apenas três meses. Além disso, 58% dos participantes do programa se identificam como veteranos, mulheres, negros ou latinos.

Como essas credenciais preenchem lacunas e atendem às necessidades do empregador no mundo real, os alunos conseguem se posicionar para melhores resultados. 

O fato de que as habilidades digitais podem ser aplicadas em todo o mundo aumenta ainda mais seu valor econômico. As credenciais de nível básico fornecem cada vez mais caminhos para obter diplomas, o que pode levar ao avanço na carreira. Muitos trabalhadores buscam diplomas pós-secundários enquanto trabalham em tempo integral, enquanto outros aproveitam um diploma avançado para passar a cargos mais elevados, como de analista a gerente. De acordo com uma pesquisa da Universidade de Georgetown, 86% dos empregos gerenciais exigem educação pós-secundária.

Construir uma força de trabalho mais diversificada requer ações em várias frentes. Integrar as credenciais da indústria em programas mais tradicionais, como um programa de bacharelado, é uma etapa que as universidades podem fornecer para abrir oportunidades.

APÓS A PANDEMIA, MAIS MULHERES ESTÃO BUSCANDO CARREIRAS DIGITAIS

A pandemia reverteu os ganhos duramente conquistados pelas mulheres, que sofreram um impacto desproporcional e perderam mais empregos do que os homens. Em março de 2021, havia 1,8 milhão de mulheres a menos na força de trabalho em comparação com fevereiro de 2020. No entanto, de acordo com o recente Relatório de Habilidades Globais da Coursera, a participação de mulheres em todos os cursos da plataforma nos EUA aumentou de 42% em 2018-2019 para 55% em 2020. Uma notícia particularmente encorajadora é que mais mulheres fizeram cursos de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática), com as matrículas no Coursera saltando de 35% para 47% entre 2019 e 2020. Um estudo de 2020 pela MetLife descobriu que, à medida que as mulheres consideram as mudanças de carreira após a pandemia, duas em cada cinco procuram uma carreira STEM.

Este momento apresenta uma oportunidade para nivelar o jogo, quebrando barreiras sistêmicas na indústria de tecnologia e trazendo mais mulheres de volta à força de trabalho. Os empregos STEM estão aumentando e devem crescer quase duas vezes mais rápido do que todas as ocupações nesta década, de acordo com o Bureau of Labor Statistics. Essa tendência será amplamente catalisada por empregos digitais, muitos, inclusive remotos, e oferecerá mais espaço para as mulheres avançarem em suas carreiras com flexibilidade, trazendo representação diversificada para o campo.

A equidade e a representação de gênero são questões complexas, dizer que não há talentos qualificados o suficiente entre os grupos dissidentes é, na melhor das hipóteses, uma simplificação exagerada. No entanto, com o ritmo acelerado das mudanças nos negócios e na tecnologia, a qualificação é essencial para todos os profissionais e é um sinal positivo ver um maior equilíbrio de gênero entre os alunos de STEM.]

AS LIDERANÇAS ESTÃO DISPOSTAS A AUMENTAR SUA FORÇA DE TRABALHO REMOTA

Em última análise, o trabalho inclusivo e as oportunidades de qualificação só podem levar a um impacto significativo se houver um ecossistema para serviços abrangentes e suporte  para aqueles que precisam de ajuda. Muitas empresas intensificaram sua ação durante a pandemia. A coalizão Rising Together da Goodwill, que inclui Google, Lyft e Even, entre outras grandes empresas, é um passo muito necessário para reunir empresas para apoiar holisticamente os candidatos ao emprego. Isso pode variar de intervenções práticas, como transporte essencial e acesso à banda larga, para ajudar as pessoas a desenvolver habilidades digitais essenciais e oferecer suporte para recolocação no mercado.

Os certificados on-line desenvolvidos pela indústria podem oferecer aos candidatos acesso a empregadores em potencial, bem como uma variedade de recursos de carreira que incluem treinamento em habilidades sociais. Os líderes de grandes corporações como Google, Microsoft e Facebook aumentaram os programas de bolsas de estudo que beneficiam comunidades vulneráveis ​​e pouco representadas.

No momento, o mundo do trabalho está em um ponto de inflexão. Temos a oportunidade de fazer mudanças reais que permitam que mais pessoas se beneficiem da promessa econômica de um futuro digital. Criar caminhos flexíveis para melhorar as qualificações e empregos remotos bem remunerados é uma peça importante do quebra-cabeça . Portanto, convido os líderes corporativos a desempenhar um papel fundamental na reformulação de um futuro inclusivo.

 

SOBRE O AUTOR

Jeff Maggioncalda é CEO da Coursera, uma das maiores plataformas de aprendizagem online atendendo a 87 milhões de alunos e mais de 6.000 instituições em todo o mundo.