A engenharia invisível por trás da produtividade chinesa

Por trás da fama de da rigidez, a China transformou confiança e relacionamento em uma vantagem competitiva para empresas

A experiência chinesa mostra que confiança e disciplina se fortalecem mutuamente
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Guilherme Dias 5 minutos de leitura

Um conhecido meu foi desligado por uma empresa na China. Terminada a parte formal da conversa, com o comunicado de que estava saindo, a última orientação que ele recebeu foi a de ir almoçar com o seu time naquele mesmo dia.

Não havia ironia nem crueldade na frase. Era protocolo. O vínculo com as pessoas seguia de pé mesmo com o contrato recém-rompido, e ninguém na sala achou aquilo estranho.

Pensei bastante nessa imagem durante a viagem porque ela contraria quase tudo que a gente espera (talvez carregado de vieses) de uma cultura de trabalho como a chinesa.

Praticamente tudo o que sabemos sobre o jeito chinês de trabalhar aponta para a frieza. O 996, a jornada das 9h às 21h, seis dias por semana, que virou símbolo mundial de intensidade.

A máquina de gestão que pega um plano quinquenal nacional e desdobra em metas claras descendo até o prefeito de uma cidade média, com cobrança em cada degrau.

A paciência histórica de um país que, depois do que os próprios chineses chamam de "século da humilhação", trabalhou décadas com um horizonte que quase nenhuma democracia consegue sustentar.

E colheu números difíceis de processar: a renda per capita se multiplicou cerca de 25 vezes entre 1978 e 2018 e perto de 800 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema – o equivalente a três quartos de toda a redução de pobreza do planeta no período.

Trabalhadores de uma confecção na província de Guangdong, na China (Crédito: Jade Gao/ AFP/ Getty Images)

Nada disso é sem custo, e seria desonesto fingir que é. O 996 está associado a esgotamento e foi declarado ilegal pela própria justiça chinesa em 2021. A máquina de metas que impressiona pela clareza também produz indicador maquiado e número inflado quando a pressão aperta.

Não fui à China para idealizar nenhuma dessas coisas. Fui justamente atrás do tema que mais me interessa, que é o avesso de tudo isso: o que acontece com as relações humanas dentro de uma engrenagem tão dura.

E foi aí que encontrei a parte que não fecha com o roteiro. Essa mesma cultura, que à primeira vista parece tratar gente como recurso, é obcecada por relacionamento.

Eles têm até uma palavra central para isso, guanxi, que vai muito além do companheirismo de escritório e descreve uma teia de reciprocidade e confiança que sustenta negócios, carreiras e mercados inteiros.

Quanto mais automatizamos, mais o vínculo entre as pessoas vira o ativo que diferencia uma empresa da outra.

No dia a dia, isso aparece em detalhes e histórias que não são óbvias. Um chefe que bebe com a equipe no happy hour não está sendo relapso, está cumprindo função. O almoço com o time não é uma pausa da operação, faz parte dela. E o demitido que vai almoçar com os colegas está seguindo um código que diz, na prática, que a relação não acaba com o contrato.

Eu demorei a juntar as peças, até a ficha cair. O guanxi não é o lado humano que equilibra a frieza chinesa. Ele é a infraestrutura que torna essa frieza viável.

Pense no relacionamento como o que permite extrair tanta produtividade das pessoas sem que a engrenagem inteira desande. Confiança, naquele contexto, funciona como tecnologia de execução.

Você só consegue pedir uma jornada como a do 996 a alguém com quem passou anos construindo vínculo e obrigação mútua. Tire o guanxi da equação e o 996 vira só desgaste, do tipo que adoece gente e separa times.

RELACIONAMENTO E DISCIPLINA

Aqui a viagem deixa de ser sobre a China e passa a ser sobre nós. O Brasil conta para si mesmo uma história lisonjeira: a de que somos o povo relacional, caloroso, de gente, tão diferente dos frios “lá de fora”. Tratamos isso como traço de identidade e, com frequência, como desculpa.

O problema está no que fazemos com esse relacionamento. Para a gente, ele costuma ser energia, simpatia, jeitinho, abraço e raramente uma estrutura intencional a serviço de resultado.

Temos de sobra a matéria-prima que os chineses cultivam com intenção e desperdiçamos boa parte dela porque insistimos em colocar relacionamento e disciplina em lados opostos da mesa.

A consequência é que vemos muitas empresas brasileiras reféns do pior conselho possível: o de que precisamos ser menos relacionais e mais duros para finalmente performar. A China sugere o oposto. Em vez de abrir mão do nosso lado relacional para ganhar disciplina, o caminho é parar de tratar os dois como adversários e passar a usar um para sustentar o outro.

É um diagnóstico desconfortável e otimista ao mesmo tempo, já que a vantagem que parece nos faltar é, em boa parte, uma vantagem subutilizada que temos em mãos.

Essa conversa fica ainda mais urgente com a IA entrando na operação. Conforme a máquina assume tarefa, processo e execução, o território que sobra para o humano é cada vez mais a decisão, o julgamento e a relação.

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Quanto mais automatizamos, mais o vínculo entre as pessoas deixa de ser o detalhe simpático e vira o ativo que, de fato, diferencia uma empresa da outra. Confiança ganha valor justamente quando quase todo o resto já pode ser replicado por software.

Os chineses entenderam, do jeito deles, que quem trabalha em conjunto precisa confiar muito um ao outro e trataram essa confiança como engenharia, não como acaso. O Brasil já nasce com o ingrediente mais caro dessa equação. Só nos falta parar de pedir desculpas por isso e começar a construir com intenção.


SOBRE O AUTOR

Guilherme Dias é CMO da Gupy, plataforma de inteligência artificial de aquisição e gestão de talentos. saiba mais