POR RICARDO FIGUEIRA

Nesse bate-papo convido você a fazer uma experiência: ao ler a palavra inovação, substitua mentalmente pela palavra saúde, e vice-versa. Da mesma forma, quando ler a palavra empresa, troque pela palavra pessoa. Esse é um jogo de falar de duas coisas completamente idênticas e diferentes ao mesmo tempo. Afinal, na nossa vida é assim que tudo acontece. Os aprendizados se somam. Então, vamos lá.

 

A inovação é fundamental, queira ou não. E sempre vai se manifestar de pelo menos em três formas de cuidado distintas: primeiro, na forma de prevenção. Segundo, como uma correção eletiva. E terceiro, como uma intervenção emergencial, para evitar a morte.

 

O cuidado com a saúde mais sofisticado nos dias de hoje tem o foco em prevenção e no aprimoramento das pessoas. Aprendi isso com meu cliente e amigo, Mário Ribeiro, investidor e empresário do setor de saúde. Cuidar-se não significa mais tratar de doenças depois que elas aparecem, é preciso fortalecer a sua fisiologia e tornar as particularidades do seu sistema vital a sua própria fortaleza. Para isso, é preciso estar acompanhado de bons profissionais que buscam novas possibilidades como um ponto de partida, sem preconceito, sem dogma, explorando todas as dimensões humanas e tudo o que há de mais moderno em tecnologia, em ciência ou mesmo em pensamento. É assim que nos tornamos pessoas muito menos vulneráveis – ou empresas muito mais preparadas – para qualquer situação, especialmente no que diz respeito ao passar do tempo.

 

A segunda forma de inovação é a interferência planejada – ou a famosa cirurgia eletiva, que acontece quando as pessoas descobrem que têm algo de errado nos exames de rotina. Nesse caso, o meu aprendizado veio da minha própria experiência pessoal. Eu havia sido diagnosticado há anos com um aneurisma de nascença na aorta. Na época o problema era muito pequeno e por isso não dei muita relevância. Passei mais de 10 anos sem sequer lembrar do assunto, até que um dia, num exame de rotina, me surpreendi quando a médica ligou para o meu cardiologista, que eu não via desde a primeira notícia sobre o aneurisma.  Preciso dizer que é muito estranho ser diagnosticado com um problema sério, sem sentir absolutamente nenhuma dor. Por incrível que pareça, isso ocorre com muita frequência também com as empresas. No meu caso, os exames mostravam que até as minhas válvulas cardíacas já estavam comprometidas. Resultado: tive que fazer uma cirurgia eletiva de sete horas de duração, com um espaço de apenas uma hora para a abertura do coração e substituição das válvulas naturais por válvulas de carbono. Como se não bastasse, tudo aconteceu bem no primeiro aniversário da empresa que eu havia fundado para cuidar da saúde, ou melhor, da inovação dos nossos clientes. Apesar do difícil pós-operatório, me recuperei incrivelmente. Hoje tenho um coração que é como uma Ferrari, só que elétrica, preparada para durar o dobro do tempo que o resto do meu corpo pode durar. Basta dizer que, mês passado, ao completar 50 anos, me senti completando 18, tamanha a disposição e energia. Em outras palavras, aprendi e abracei a preocupação com a prevenção em 360 graus incorporando uma visão de saúde física, mental e espiritual.

 

Mas voltando às formas da inovação, vamos ao terceiro caso, que é o procedimento emergencial com final imprevisível. Infelizmente, alguns meses atrás, eu fui testemunha da morte de uma operação empresarial. Tratava-se de uma multinacional. Um daqueles casos em que você vai vendo o indesejável prestes a acontecer e até oferece ajuda, mas quem está passando pela situação não consegue enxergar a ameaça, de tão imerso e acostumado com o problema.

 

Conheci o administrador dessa empresa no Brasil há uns dois anos. Um verdadeiro lord, que me deu a honra de vários encontros ao longo do tempo. Ele sempre encerrava as reuniões dizendo “não vejo a hora da gente trabalhar juntos”. Ao ponto disso se tornar um jargão entre nós. Quase dois anos depois, logo no começo da pandemia, finalmente ele me ligou em conference call, junto com todo o time executivo da empresa. Nesse encontro estavam os VPs de marketing, de produtos, de serviços, de finanças e todo mundo de tomada de decisões. Era a segunda semana de pandemia e ele dizia: “Ricardo, agora não tem jeito, vamos! Me manda uma proposta pra gente trabalhar 12 meses estratégicos com o tema “novo normal”. Mas você só tem três dias para preparar e apresentar. É urgente”. Bem, eu juro que fiz de tudo para entender a pressão que ele estava vivendo e disse: “Claro, pode deixar”. Preparamos em três dias uma proposta de 12 meses de trabalho, considerando um cenário um pouco diferente do que ele pediu. Preparamos um projeto de 12 meses chamado “Nunca Normal”, em vez de “novo normal”.

Ele retornou exatamente três semanas [em vez de 3 dias] e disse: “Puxa Ricardo, você acredita que a gente está conseguindo segurar o nosso resultado 8% acima do período pré-pandemia só com as vendas online e as vendas no interior?”  

 

Me lembro de ter pensado “Isso não vai ser suficiente, porque o negócio dele está sofrendo de dilemas pré-existentes. A pandemia só acelerou tudo. Mas talvez eles estejam apostando em alguma saída pela direita que eu desconheço”. No fundo ele já sabia que tinha um câncer no business e o maior mal, a maior doença daquela empresa, era a “normose”. A normose é uma patologia muito complicada porque ela cega, não só um indivíduo, mas todo um grupo de pessoas quanto à interpretação de uma realidade, gerando um aprisionamento no seu modus operandis e afastando qualquer coisa que ameace os padrões comportamentais corporativos.

 

Uma semana depois, recebi uma ligação da empresa, desta vez do responsável financeiro, comunicando que infelizmente a operação no Brasil havia morrido. Tudo confirmado poucos dias depois pelo telejornal.

 

A conclusão aqui é que dentro dessa visão em que a saúde e a inovação são conceitos de cuidado idênticos, uma empresa saudável não é mais aquela que está no positivo financeiramente, que tem caixa ou que gera lucro. Uma empresa saudável é aquela que tem uma cultura de buscar e experimentar a evolução constantemente, se preparando para qualquer cenário, mesmo que isso jogue com a sua própria obsolescência.

 

A prevenção e o fortalecimento continuam sendo, de longe, as melhores escolhas a se fazer. Porque se a longevidade é um bem valioso, a vivência é o combustível rumo à transformação. Os aprendizados dessa jornada, dinheiro nenhum no mundo pode comprar, mas trazem a maior de todas as prosperidades: a perpetuação. Seja você pessoa ou empresa.

SOBRE O AUTOR

Ricardo Figueira é Chief Creative Office e fundador da Figtree & Co.