A solidão do domingo está empurrando solteiros para o excesso de trabalho

Pesquisa mostra como o vazio fora do expediente começa a impactar a vida pessoal, a saúde mental e até a produtividade

funcionário com post its colados na cabeça e peito
Crédito: cyano66/ Getty Images

Jared Lindzon 4 minutos de leitura

Solteiros estão tentando afogar a melancolia do domingo com trabalho – uma estratégia que, segundo especialistas, não é necessariamente a mais saudável.

Em uma pesquisa recente com mil pessoas solteiras realizada pelo Dating.com nos EUA, mais da metade (52%) dos entrevistados sem um parceiro romântico disseram passar a maior parte dos domingos sozinhos.

Pior: 65% afirmaram que esse é o dia mais solitário da semana. Para lidar com isso, 74% dizem recorrer ao trabalho para se manter ocupados e 40% afirmam fazer isso com frequência.

“O domingo costuma ser o dia mais silencioso da semana e, quando você não tem família ou alguém com quem esteja se relacionando, esse pode ser um momento que traz muita tristeza”, explica Jaime Bronstein, assistente social e terapeuta residente do Dating.com.

“Muitas pessoas trabalham para evitar entrar em contato com seus sentimentos, o que não é necessariamente recomendado, porque é importante sentir o que se sente.”

Bronstein acrescenta que alguns empregadores podem até impor expectativas mais altas sobre funcionários solteiros, partindo do pressuposto de que eles têm menos responsabilidades pessoais ocupando seu tempo.

“Às vezes, pessoas solteiras sentem que não têm um propósito”, diz ela. “Ao trabalhar mais, elas podem sentir que esse é o propósito delas.”

A SOLIDÃO ESTÁ CRESCENDO

Embora namorar sempre tenha sido desafiador em qualquer geração, Bronstein avalia que a experiência se tornou ainda mais solitária na era digital.

“Existe a comparação constante nas redes sociais, vendo casais aparentemente felizes, e depois vêm os aplicativos de relacionamento”, afirma. “Há muito ghosting, as pessoas não dão chances reais umas às outras por causa da sensação de descartabilidade e da facilidade de simplesmente encontrar outra pessoa. Isso gera muito mais rejeição.”

Em 2023, a solidão e o isolamento foram classificados como uma “preocupação global de saúde” pela Organização Mundial da Saúde e como uma “epidemia” pelo cirurgião-geral dos Estados Unidos. Desde então, o problema parece ter se agravado e se estendido para a vida profissional das pessoas.

homem à beira de  escada que desce para o subsolo
Crédito: Francesco Chvia/ Getty Images

Em uma pesquisa conduzida pela KPMG em setembro, 45% dos entrevistados relataram sentimentos de solidão no trabalho, contra 25% apenas 10 meses antes. “Os dados mostram que houve um aumento da solidão no último ano”, afirma Sandy Torchia, vice-presidente de talentos e cultura da KPMG.

Embora seja difícil apontar uma causa única, o estudo sugere que restrições financeiras têm peso relevante: 75% dos entrevistados disseram que está cada vez mais difícil arcar com atividades sociais com colegas fora do ambiente de trabalho.

O trabalho remoto também pode estar influenciando esse cenário. Entre os que trabalham em home office, 67% relatam se sentir isolados no trabalho, contra 45% no total da força de trabalho.

Muitas pessoas trabalham para evitar entrar em contato com seus sentimentos.

Mesmo dedicando mais horas ao trabalho, pessoas que usam o emprego como muleta para lidar com a solidão estão mais suscetíveis à exaustão, à depressão e ao burnout, o que pode gerar novos desafios em suas trajetórias profissionais.

Esse risco pode ser ainda maior entre solteiros, que muitas vezes já estão mais expostos ao esgotamento por questões financeiras: costumam pagar mais impostos proporcionalmente ou arcar sozinhos com despesas de moradia e custo de vida.

“Um funcionário feliz, realizado, menos estressado e menos sobrecarregado será mais produtivo e trará mais valor para a empresa”, reforça Bronstein.

SOLIDÃO ENTRE OS TRABALHADORES SOLTEIROS

Seja no mundo digital ou no presencial, o trabalho é onde a maioria das pessoas passa a maior parte do tempo. Isso dá às empresas uma oportunidade única de enfrentar o isolamento e a solidão entre seus colaboradores. Vale para todos, mas pode ser ainda mais relevante para pessoas solteiras.

Na pesquisa da KPMG, por exemplo, 29% dos entrevistados disseram ser mais produtivos quando têm amigos próximos no trabalho. Torchia afirma que as organizações podem estimular essas conexões criando mais oportunidades para interação entre colegas fora das atividades estritamente profissionais.

“Na pesquisa, 89% disseram que interações facilitadas pela empresa são muito importantes, o que mostra uma expectativa clara de que as organizações tenham um papel nisso”, diz. “Nove em cada 10 afirmaram que seus gestores ou líderes seniores os incentivam a cultivar amizades.”

mulher solitária olha para uma parede
Crédito: Kateryna Kovarzh/ iStock

“Nos últimos anos, os funcionários vêm se sentindo cada vez mais desconectados de suas organizações, mas não precisa ser assim”, afirma Jim Harter, cientista-chefe da Gallup para gestão do trabalho e bem-estar.

Segundo ele, gestores podem desempenhar um papel decisivo no combate ao isolamento. “Conversas entre chefes e funcionários podem estabelecer a relação entre a pessoa e a organização, além da contribuição que ela oferece”, afirma. “As pessoas se sentem muito mais solitárias quando não percebem que seu trabalho tem impacto.”

De acordo com pesquisa da Gallup, trabalhadores têm menos probabilidade de se sentir isolados quando sabem claramente o que se espera deles, recebem reconhecimento por suas contribuições, sentem que alguém se importa com seu desenvolvimento, se conectam à missão da organização e têm a chance de fazer algo em que são bons todos os dias.

“Tudo isso é central para determinar se as pessoas se sentem solitárias ou não no trabalho”, conclui Harter.


SOBRE O AUTOR

Jared Lindzon é jornalista especializado em temas como futuro do trabalho e profissões ligadas a inovação tecnológica. saiba mais