As 2 habilidades que podem proteger sua carreira da IA

O importante não é o “saber o que”, mas o “saber fazer”. Além disso, fique atento às entrelinhas. Os robôs ficam fora dela

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Faisal Hoque 8 minutos de leitura

Para alguns profissionais, a frase “a inteligência artificial vai substituir os nossos empregos” não é mais uma vaga ameaça.

Timothy McKeon, que passou anos trabalhando como tradutor de língua irlandesa para a União Europeia, sabe disso melhor do que ninguém. O aprimoramento de máquinas de tradução reduziu grande parte de seu sustento: cerca de 70% da sua renda, à medida que seu trabalho para a UE diminuiu.

"Quanto mais [a máquina] aprende, mais obsoleto você se torna", McKeon contou à CNN.

A situação dele não é incomum: 43% dos tradutores viram sua renda cair graças à presença crescente de alternativas de IA no mercado. E o que tem acontecido no ramo da tradução é sinal de uma evolução em curso na economia do conhecimento.

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Por décadas, muito do valor produzido pelos chamados "trabalhadores de colarinho branco" foi baseado em uma premissa simples: o profissional sabia ou era capaz de encontrar as informações que a maioria das pessoas não conseguia e havia quem estivesse disposto a pagar para obter os benefícios desse conhecimento. A IA está derrubando o valor de uma ampla fatia desse mercado.

Em muitas áreas, um chatbot pode agora entregar em segundos o trabalho que é próximo (em alguns casos, melhor) do que o feito pelo profissional comum. A maior parte da economia do conhecimento, a ampla gama de trabalhos cognitivos “competentes, mas sem algo de especial", tem decaído cada vez mais.

IA substitui cada vez mais trabalhadores de escritório
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É tentador pensar que a ameaça se restringe aos profissionais medianos e que aqueles com grande expertise estão sãos e salvos da ameaça. Isso é verdade, mas apenas em parte.

A pergunta pertinente a ser feita não é mais se a IA vai remodelar o trabalho intelectual (ela certamente vai). A questão é quais tipos de conhecimento mantêm seu valor quando a máquina consegue fazer tanto hoje.

COMO AS COISAS ERAM ANTES

Para a maioria das pessoas na era moderna, seu valor de mercado como profissional vinha de seu conjunto de conhecimentos: o código tributário memorizado, a decisão jurídica citada, os dados mercantis que se tinha na ponta da língua, a linguagem computacional aprendida ao longo de uma década para poder renderizar fluentemente.

O trabalho era, em grande parte, saber aquilo que outras pessoas não sabiam e ser pago para acessar e aplicar esse conhecimento. A IA aprendeu a imitar esse tipo de trabalho de forma cada vez mais convincente.

Um grande modelo de linguagem (LLM na sigla em inglês), já teve acesso a mais códigos tributários, casos jurídicos e relatórios de mercado do que qualquer pessoa individualmente jamais poderia, e oferece grande parte dessas informações sob demanda, de forma fluente e instantânea.

a ampla gama de trabalhos cognitivos “competentes, mas sem algo de especial", tem decaído cada vez mais.

A ideia de que trabalhadores do conhecimento seriam poupados por conta dos resultados errados da IA tem enfraquecido. Embora fosse comum, essa tendência a erros está se tornando mais rara e pode ser mitigada em vários contextos com prompts eficientes.

O acesso confiável a LLMs não é sempre gratuito ou sem fricção, mas, quando comparado ao trabalho humano, os custos têm se tornado insignificantes.

Em face dessas mudanças, o passo lógico para muitos trabalhadores é se voltar a segmentos mais especializados e “premium”: deixar o trabalho simples para a máquina e apostar na profundidade. A maior vantagem é a expertise, e há evidências para isso. 

Tradutores, por exemplo, têm percebido que as traduções mais volumosas são feitas por máquinas, mas tradutores literários, jurídicos, e intérpretes diplomáticos – pessoas cujos erros causam consequências reais – ainda são procurados. Os serviços especializados parecem estar protegidos… Por enquanto. 

O chão onde esses trabalhadores pisam é menos sólido do que parece e a linha entre as tarefas que a IA consegue executar e aquelas que ela não consegue é mais tênue do que muitos assumem ser.

DOIS TIPOS DE CONHECIMENTO

O problema é que essa especialização é apenas um refúgio temporário. Para uma máquina, o conhecimento raro não é nada especial e não há motivos pelos quais ela não consiga acesso aprofundado a ele, enquanto ele estiver disponível de forma gravada. Os meandros, os “cantos escondidos”, do direito tributário são, para um LLM, apenas outros “cantos”.

Para assegurar que o conhecimento próprio tenha algum valor que perdure, não dá para confiar em profundidade ou raridade, são necessários modos de conhecimento inteiramente diferentes. Dois deles sobressaem.

1. AVALIAÇÃO DO CONTEXTO

O valor de um consultor experiente nunca foi o conhecimento específico que ele possuía sobre algum setor; e sim, saber qual detalhe importava mais para certo cliente ou determinado conselho empresarial, qual informação contextual orientava o jeito como se lia a folha de balanço problemática, como entender os receios semi articulados pelo CEO, mencionados de passagem.

A experiência aprofundada, por mais rara que seja, implica analisar o material que consta nos registros (os meandros do direito tributário estão, afinal, anotados em algum lugar). Isso é algo que os LLMs hoje fazem bem. 

IA não é capaz de fazer uma boa avaliação de contexto

Avaliação do contexto é diferente. Entender aquela pista decisiva – o que o silêncio significa, porque o conselho de administração não gostou de algo – não é um tipo de conhecimento que fica em registros escritos justamente porque são situações sem precedentes.

Esse tipo de julgamento depende de algo real mas efêmero, fazendo com que o profissional "perceba o clima” em momentos específicos. Essa capacidade não é fácil de encontrar em forma de registros.

Os modelos de linguagem atuais são bem menos confiáveis para esse tipo de tarefa, em comparação à análise de informações. Pode ser que isso não esteja fora do alcance para sempre, mas não é, hoje em dia, uma ameaça para trabalhadores do conhecimento.

2. KNOW-HOW

Alguns filósofos fazem uma distinção útil entre o "saber que” e o "saber como”.

trabalhadores do conhecimento estão  sendo substituídos por IA

É possível saber cada proposição de cada livro didático de física e, ainda assim, ser incapaz de manter o equilíbrio numa bicicleta. Pode-se absorver tudo o que já foi escrito sobre teoria musical e mesmo assim não conseguir tocar violino.

O mesmo se aplica ao mercado. Um conjunto grande de fatos e opiniões sobre liderança não é suficiente para fazer de alguém um bom leitor de situações. Ler todos os livros sobre negociação não gera a habilidade de manter a calma, escolher o momento certo para fazer concessões e sustentar sua opinião ao ser pressionado pelo outro lado.

Esse tipo de conhecimento vem da experiência: só pode ser adquirido com a prática. Em níveis mais elevados, esse conhecimento está intimamente relacionado a aspectos que apenas existem entre pessoas, como confiança, autoridade, habilidade de compreender e se identificar com os outros.

Isso não é um conjunto de fatos que podem ser entregues por meio de uma busca, nem um tipo de trabalho que se possa delegar sem que acabe virando o nó que deveria ser desatado.

habilidades humanas em tempos de IA
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Nenhum desses dois tipos de conhecimento podem ser baixados em arquivo. Ambos podem ser intencionalmente construídos, e é aí que deve se concentrar o esforço sério em prol do desenvolvimento profissional.

CONSTRUINDO CONHECIMENTO DURADOURO

Aqui estão três dicas que podem ajudar a se posicionar da maneira certa no que significa ser um profissional do conhecimento, diante dessa mudança histórica.

ASSUMA A RESPONSABILIDADE PELO IMPACTO, NÃO PELOS RESULTADOS

Um modelo de IA. produz os resultados: um rascunho, uma análise, uma resposta. É preciso parar de construir carreiras a partir desse aspecto.

Examine aquilo pelo que você é realmente pago – a essência do que você se propõe a fazer – e delegue tudo o que um bom modelo atual é capaz de executar em poucos minutos.

O que sobra é aquilo que apenas você pode entregar: do problema complicado que se arrasta desde o diagnóstico inicial à solução confiável que você pode bancar, ou a percepção do que o cliente realmente precisa, para além daquilo que ele diz.

Reorganize suas responsabilidades e sua oferta em função desse tipo de impacto. Impacto – não um apanhado de fatos – é sua maior vantagem.

VALORIZE A FORÇA DA ATUAÇÃO PRESENCIAL

A capacidade de julgamento em situações específicas só se desenvolve em primeira mão, por meio da presença em decisões de grande importância, testemunhando a forma como elas acontecem.

Isso resiste à substituição mecânica porque o que importa nesses momentos de decisão nunca poderá ser totalmente resumido e transformado no tipo de registro que um modelo de linguagem consiga ler.

Quem vai avançar mais rápido não será quem conseguir reter a maior quantidade de informações, mas sim quem encontrar meios de melhorar sua capacidade de julgamento de contextos.

DELEGUE A ROTINA E PROTEJA SUA PRÁTICA

O conhecimento do contexto vem da experiência, então o trabalho delegado à IA é o tipo no qual você deixa de melhorar. Delegue as tarefas rotineiras ao modelo, mas continue trabalhando naquilo que exige maior qualificação mesmo quando o modelo poderia entregar uma versão aceitável mais rápido. A conveniência de hoje tem um preço: a perda de capacidade no futuro.

resiliência para alcançar metas no trabalho
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O veredito de Timothy McKeon sobre a inteligência artificial (quanto mais ela aprende, mais obsoleto o indivíduo se torna) se aplica a certos tipos de conhecimento. São justamente esses os tipos nos quais a maioria dos profissionais baseou a construção de suas carreiras por muito tempo.

Porém, há outras formas de conhecimento que são menos vulneráveis. Algumas são impermeáveis à IA, pelo menos da maneira em que ela está disponível hoje.

Esse tipo de conhecimento não pode ser baixado em arquivo. É conhecimento incorporado, e não apenas adquirido – construído na prática, carregado em si e pessoal como um acervo de fatos nunca será.


SOBRE O AUTOR

Faisal Hoque é fundador da Shadoka, que desenvolve aceleradores e soluções tecnológicas para o crescimento sustentável. saiba mais