O que os antigos sabiam sobre felicidade? 5 práticas que ainda fazem sentido

Ciência revela como desafios físicos, experiências coletivas e rituais ancestrais podem transformar o cérebro, o corpo e o humor

práticas milenares que ajudam no bem-estar
Créditos: Ahmet Yüksek/ The Cleveland Museum of Art/ Unsplash

June Cohen 6 minutos de leitura
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Culturas antigas de todo o mundo desenvolveram sistemas de sabedoria: práticas incorporadas ao cotidiano e transmitidas pelo exemplo, que ajudavam as pessoas a enfrentar dificuldades, construir vínculos e encontrar a felicidade. Agora, a ciência moderna está comprovando que elas funcionam.

A seguir, June Cohen compartilha cinco descobertas fundamentais de seu novo livro, "The Great Remembering: Powerful Ancient Practices – And the New Science Bringing Them Back" (A grande redescoberta: práticas ancestrais poderosas e a nova ciência que as está trazendo de volta, em tradução livre).

1. Um grande desafio físico pode ajudar você a superar um grande desafio emocional

O primeiro sistema de sabedoria que despertou meu interesse foi o dos grandes desafios físicos: uma prática que consiste em levar o corpo ao limite. Para a mentalidade ocidental, isso nem sempre parece fazer sentido lógico. Mas essa prática estava presente em praticamente todo o mundo antigo.

Ainda fazemos isso hoje. Você se divorcia e decide correr uma maratona. Se recupera de um câncer e resolve escalar uma montanha. Não sabemos exatamente por quê, mas buscamos algo árduo e fisicamente exigente quando enfrentamos uma situação emocionalmente difícil.

A ciência mais recente mostra que nossos instintos estão absolutamente certos. É a ciência do chamado “estresse hormético”, ou estresse positivo. Não estamos falando de estresse emocional, mas do estresse físico provocado por situações genuinamente desafiadoras: esforço extremo, jejum, calor ou frio intensos.

Quando o corpo enfrenta esses desafios, inicia uma reação em cadeia de renovação que chega ao nível celular.

Mas o aspecto mais interessante de um grande desafio físico é o que acontece no cérebro. Um dos efeitos mais desejados das substâncias psicodélicas é a neuroplasticidade, ou seja, a capacidade do cérebro de criar novas conexões. Um grande desafio físico também produz neuroplasticidade.

Mark Mattson, da Universidade Johns Hopkins, me disse: “nós e outros pesquisadores temos evidências de que as células nervosas realmente crescem e formam novas sinapses em resposta ao exercício físico” e, em menor grau, ao jejum intermitente.

Isso não acontece apenas no córtex motor. Também envolve regiões como o hipocampo, responsável pela aprendizagem e pela memória. A neuroplasticidade provocada por um grande desafio físico pode ajudar a reescrever sua própria história quando você está atravessando uma grande dificuldade emocional.

2. Existe uma maneira certa (e outra errada) de enfrentar grandes desafios físicos

Em diferentes culturas e épocas, os mesmos elementos determinam se um grande desafio físico será realizado com sucesso.

  • Estrutura – um grande desafio físico é perigoso. Se você não tomar cuidado, pode até morrer. É preciso estabelecer limites de segurança que permitam levar o corpo ao extremo sem causar danos.
  • Significado – quem você será depois de atravessar essa experiência? Por qual transformação ela vai ajudar você a passar? O simbolismo é uma parte fundamental do que faz essa prática funcionar.
  • Um treinador – alguém que conhece o caminho e acredita em você.
  • Uma comunidade que testemunhe a experiência – pessoas que possam dizer “você conseguiu. Você fez isso por nós”. Nós, seres humanos, temos uma necessidade profunda de sermos reconhecidos e de servir aos outros.
  • Natureza – milhares de estudos mostram que apenas 20 minutos em um espaço verde podem produzir benefícios biológicos.
  • Recuperação – as células se consertam e as células cerebrais crescem durante a recuperação, não durante o desafio em si. Se você pula a recuperação, também deixa de aproveitar o crescimento.
  • O grupo – as pessoas com quem você treina, enfrenta o esforço e cruza a linha de chegada.

Esses elementos transformam um grande desafio físico de algo que você simplesmente suportou em um sistema de sabedoria: uma experiência capaz de atuar sobre você em todos os níveis.

3. Seu corpo é um caminho poderoso para a mente e o humor

Os festivais da Antiguidade eram extraordinariamente físicos. As pessoas percorriam grandes distâncias, escalavam montanhas, jejuavam, passavam a noite em claro e dançavam durante horas. A mensagem era clara: a transformação espiritual começa pelo corpo.

Se isso parece místico demais, aqui está a explicação científica: a resposta mais clara, em uma única palavra, é endorfina. Os antigos não usavam esse termo, mas tinham uma compreensão extraordinária de como as endorfinas funcionam e de como são essenciais para nossa felicidade.

Mas o exercício não é a única maneira de estimular a produção de endorfinas. Elas são liberadas sempre que sentimos dor física, inclusive em situações de calor ou frio extremos, como em uma sauna ou em um banho gelado. Também são liberadas durante o sexo. E, de maneira especialmente interessante, quando entramos em sincronia com outras pessoas.

A cultura ocidental moderna costuma tratar o cérebro e o corpo como entidades separadas, com o cérebro firmemente no comando. Um dos cientistas que entrevistei foi direto: “não existe distinção entre mente e corpo”. Os antigos já sabiam disso. A ciência finalmente está alcançando esse conhecimento.

4. Não tente fazer tudo sozinho

Quero começar com a história da ultramaratonista Lisa Hallett. Ela está ditando o ritmo para os outros cinco integrantes de seu grupo enquanto todos descem, na escuridão, em direção ao rio Carbon.

É a 18ª hora de uma corrida de 150 quilômetros ao redor do Monte Rainier, no estado de Washington, nos EUA. Antes de voltar a dormir, ela e sua equipe ainda terão de subir e descer um total de 8.230 metros.

Lisa está com fome: sua comida acabou horas antes, e a fome dificulta a regulação da temperatura corporal. Ela me contou: “estou com frio? Estou com calor? É demais. E então você começa a entrar em espiral. Não consigo fazer isso. É difícil demais”.

Leia mais: O que a neurociência ainda pode aprender com a ancestralidade

Então, a cerca de cinco quilômetros do próximo posto de apoio, ela ouve a risada de sua filha de 15 anos. Heidi e uma amiga correram até ali para encontrá-la, levando sanduíches de pasta de amendoim com geleia e outros lanches, além de uma dose de ânimo e energia positiva.

Lisa sente uma onda de gratidão e uma nova disposição toma conta dela. Ela acelera o passo enquanto seu grupo corre em sincronia até o acampamento.

tênis para corrida sem cadarço, da marca Kizik
Crédito: Kizik

Isso não é apenas emocional. É físico e mensurável. Além da euforia do corredor, existe algo que o laboratório de Robin Dunbar, na Universidade de Oxford, identificou como a euforia do remador: quando as pessoas remam juntas, em vez de sozinhas, produzem o dobro de endorfinas.

E aqui está a melhor parte: você não precisa remar nem correr para experimentar esse efeito. Produzimos endorfinas sempre que entramos em sincronia com outras pessoas, seja cantando em harmonia, dançando em grupo, rindo juntos ou até compartilhando uma refeição.

É por isso que motociclistas viajam em grupos, que uma aula de ioga parece mais fácil do que praticar sozinho na sala de casa e que cantar em grupo já demonstrou funcionar como um antidepressivo.

5. A ciência moderna está validando aquilo que você já sabe intuitivamente

Muitos cientistas estão usando ferramentas modernas para comprovar a eficácia de sistemas tradicionais com os quais cresceram e que, intuitivamente, sabem que funcionam.

Pesquisadores da Finlândia comprovaram os profundos benefícios da sauna e dos banhos gelados para a saúde. Cientistas muçulmanos vêm demonstrando os benefícios do jejum intermitente, praticado durante o Ramadã. Pesquisadores japoneses demonstraram os benefícios fisiológicos para a saúde do chamado banho de floresta.

Quando observamos essas práticas por meio dessa dupla perspectiva – de um lado, aquilo que as pessoas sempre fizeram; de outro, o que a ciência nos revela –, temos um espelho poderoso para olhar para nossa própria vida e nos lembrar de conhecimentos que já estavam ali.

Este artigo foi publicado originalmente na revista digital "Next Big Idea Club" e reproduzido com permissão. Leia o artigo original.


SOBRE A AUTORA

June Cohen é pioneira na área de mídia e tecnologia, mais conhecida como cocriadora do TED Talks, Masters of Scale e Meditative Story.... saiba mais