6 tipos de medo que podem estar atrapalhando sua carreira
O medo da punição, do julgamento e do fracasso pode impedir que profissionais se manifestem, assumam riscos e alcancem seu potencial

Quando dou aulas para alunos de MBA ou executivos, ou quando trabalho como consultora de empresas familiares, dedico muita energia a procurar sinais de uma emoção que as pessoas tentam esconder. Essa emoção é o medo.
Os seres humanos subestimam o quanto o medo influencia nosso comportamento. Conhecemos a resposta de “luta ou fuga”, que ajudou nossos ancestrais pré-históricos a sobreviver em um mundo perigoso, mas não percebemos o quanto esse imperativo evolutivo continua presente em nossa biologia e o quanto ele influencia nosso comportamento no trabalho.
Ao longo de muitos anos observando como o medo molda o comportamento nas organizações, identifiquei seis formas comuns que ele pode assumir. Embora às vezes as pessoas sejam movidas principalmente por um tipo de medo, é mais comum que essas forças se misturem, se sobreponham e se reforcem mutuamente.
As pessoas preferem não falar sobre seus medos. Isso as deixa desconfortáveis, fracas ou vulneráveis. Mas, quando fingimos que o medo não existe, deixamos de reconhecer um dos principais fatores que impulsionam nosso comportamento.
Quanto mais abertamente aprendermos a falar sobre nossos medos e incentivarmos as pessoas ao nosso redor a fazer o mesmo, maiores serão as chances de criar ambientes em que todos possam dar o melhor de si e se sentir mais felizes enquanto trabalham.
Estes são os seis tipos de medo aos quais dedico minha atenção:
1. MEDO DA PUNIÇÃO
Esta é a forma mais básica de medo. No ambiente corporativo, a punição pode assumir diferentes formas: avaliações de desempenho negativas, penalidades financeiras, rebaixamento de cargo ou, em casos extremos, demissão.

Mas, nas organizações, a punição costuma ser mais sutil. Quem está sendo excluído das reuniões? Quem está recebendo menos tarefas desejáveis? Quem está ficando de fora do memorando de congratulações enviado pelo chefe?
No meu primeiro emprego em Wall Street, fui designada para trabalhar com um chefe agressivo. Ele questionava minha inteligência. Dizia que eu era burra. Estava usando a punição verbal como ferramenta de motivação, mas isso não funcionava de jeito nenhum.
Levei algumas semanas, mas consegui superar o medo e dizer a ele que queria ser transferida para outra equipe. Temendo o dano à própria reputação caso alguém pedisse para não trabalhar com ele, o sujeito mudou de abordagem e começou a me ensinar o que eu precisava saber para ter sucesso na empresa.
2. MEDO DA AUTORIDADE
Os seres humanos são extremamente atentos às relações de poder. Se você já sentiu um nó no estômago ao subir de elevador até o escritório do chefe do seu chefe, está experimentando o medo natural do poder e da autoridade.

Recentemente, participei de uma reunião com um cliente de longa data e uma das novas associadas da minha empresa. Na metade do encontro, ela me passou um bilhete: “acho que você está trabalhando com os números errados. Essa apresentação está desatualizada”.
Sorri para ela e a incentivei a se manifestar quando o cliente voltasse à sala. Com tranquilidade, ela explicou que estávamos usando uma apresentação desatualizada, entregou novas cópias a todos e sugeriu que retomássemos a partir da página 16. Espero que essa experiência a incentive a interromper e se manifestar mais cedo da próxima vez.
O medo da autoridade também se manifesta de outras maneiras. Quando ninguém fala antes de a pessoa mais importante da sala se pronunciar, ou quando ninguém faz perguntas mesmo depois de um líder abrir espaço para isso, muitas vezes a causa é o medo.
Os líderes que não conseguem romper o silêncio criado por esse sentimento saem perdendo, porque esse silêncio frequentemente os priva de informações valiosas que poderiam ajudá-los a liderar com mais eficácia.
3. MEDO DO JULGAMENTO
As pessoas nos julgam por uma série de características: aparência, formação acadêmica, amigos e familiares, condição socioeconômica.

No trabalho, as pessoas costumam se preocupar principalmente com a possibilidade de serem julgadas por dizer algo que os outros considerem incorreto. Isso leva muita gente a ficar calada até mesmo em situações nas quais se manifestar seria a maneira mais simples de resolver um problema.
Certa vez, trabalhei com uma empresa imobiliária familiar cujas participações eram divididas igualmente entre quatro irmãos. Três deles administravam o negócio no dia a dia; a irmã fazia parte do conselho.
Com o tempo, os irmãos começaram a considerar a irmã intrometida, porque ela votava contra novos investimentos e pressionava a empresa a distribuir os lucros na forma de dividendos.
Leia mais: 9 estratégias para vencer o medo e brilhar ao falar em público
Ao investigar a situação, descobri a causa do problema: a irmã tinha um estilo de vida caro na Europa e precisava de mais liquidez para pagar suas contas. Ela não queria contar isso aos irmãos porque temia ser julgada pelas decisões financeiras que havia tomado.
Encontramos uma solução simples, que atendia aos interesses de todos: ela vendeu parte de suas ações aos irmãos, o que aliviou sua situação financeira e a deixou mais disposta a apoiar os planos deles de reinvestir os lucros para expandir a empresa.
4. MEDO DO CONFLITO
Nas organizações, evitar conflitos geralmente resulta em silêncio.

Propostas recebem poucas perguntas e nenhuma objeção, mesmo quando as pessoas, em particular, duvidam das chances de sucesso. Líderes competentes procuram combater esse silêncio e estimular a discordância respeitosa.
Uma possibilidade é a prática conhecida como red teaming, na qual um grupo é formalmente encarregado de investigar as fragilidades de um projeto e apresentar uma visão contrária, como faria um advogado do diabo. Caixas de sugestões anônimas também permitem que as pessoas levantem objeções sem se identificar.
5. MEDO DO FRACASSO
Tememos o fracasso porque ele representa uma ameaça à nossa identidade, uma mancha no currículo, uma falha na imagem que tentamos projetar para o mundo. Precisamos superar isso.
Não é possível alcançar nada significativo sem correr riscos, e todo risco envolve a possibilidade de fracasso. Quando deixamos de nos candidatar a uma promoção, fazer um investimento ou contratar um profissional com uma trajetória pouco convencional, precisamos avaliar se o medo é o que está nos impedindo de agir.
6. MEDO DA AMBIÇÃO
Este é o medo de dizer aos outros que queremos mais. Poder. Uma promoção. Dinheiro. Reconhecimento. Mesmo em uma sociedade orientada para conquistas, muitas pessoas ficam inibidas diante da possibilidade de se destacar demais. Preferimos nos misturar à multidão.

Nunca conheci um grande líder que fugisse do medo. E, muitas vezes, vi pessoas sem um cargo formal de liderança serem reconhecidas como líderes porque tiveram coragem de se manifestar mesmo diante do medo.
Os aspirantes a líderes que não aprendem a fazer isso estão limitando o próprio potencial. E as organizações que não constroem uma cultura na qual seja seguro falar abertamente sobre os medos não terão sucesso por muito tempo.
Adaptado de "Unspeakable: The Taboo Topics We Avoid and How to Talk About Them" (Indizível: Os temas tabus que evitamos e como falar sobre eles, em tradução livre), de Christina Wing. Republicado com autorização da Harvard Business Review Press.