A cafeína virou a nova proteína?

A onda dos alimentos funcionais leva empresas a adicionar o estimulante a produtos inesperados e a destacar seus benefícios nas embalagens.

adição de cafeína em alimentos e bebidas
Créditos: Jade/ Size Square's/ Tahtagraphic/ Adobe Stock

Rachel Kurzius 4 minutos de leitura
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Você provavelmente começa a manhã com um café para colocar o cérebro em funcionamento. Uma escolha clássica. Mas, para muitos de nós, esse impulso dura pouco. Quando a energia começa a cair, você pode tirar da gaveta um mix de castanhas com cafeína para fazer um lanche no meio da manhã.

Na hora do almoço vem aquele tradicional cafezinho de depois das refeições. Aí, quando a concentração começar a diminuir à tarde, você pode mastigar ursinhos de goma com cafeína ou comer pequenos pedaços de chocolate com – adivinhe só – cafeína.

A cafeína, há muito tempo a droga psicoativa mais consumida do planeta, está chegando a uma série de alimentos e bebidas inesperados. Essa expansão faz parte de uma tendência mais ampla, iniciada há mais de uma década, em direção aos alimentos e bebidas funcionais.

Liz Moskow, futurista de alimentos e diretora da consultoria gastronômica Bread & Circus, caracteriza a guinada para os alimentos e bebidas funcionais como parte da “otimização de tudo”. Não basta simplesmente saborear um pedaço de chocolate. Ele também precisa melhorar a saúde intestinal, a memória ou oferecer algum outro benefício importante.

A ideia de incorporar funcionalidades a produtos do dia a dia levou os fundadores da Orka Beverage a desenvolver uma marca de água com cafeína. Eles perceberam uma oportunidade para criar uma bebida energética com menos elementos adicionais.

“A questão que surgiu foi: por que não podemos pegar a cafeína das bebidas energéticas e colocá-la na água? Oferecer o que queremos, que é a cafeína, com o mínimo possível de ingredientes?”, diz Michael Moriarty, cofundador da Orka.

lata de água com cafeína da marca Orca

A embalagem da Orka – uma lata transparente que destaca no rótulo seus 150 miligramas de cafeína – se diferencia de muitas das outras opções disponíveis na seção de bebidas energéticas.

A embalagem transparente foi pensada para mostrar aos consumidores que a bebida tem aparência de água, e não de energético. A simplicidade relativa da lata remete a um produto de bem-estar.

CHOCOLATE COM CAFEÍNA

Matt Sia, diretor executivo de criação da agência de marcas Pearlfisher, afirma que a Awake, fabricante de chocolates com cafeína, é um exemplo de marca de produtos energéticos que rompeu com os padrões ao apresentar sua cafeína em embalagens com uma aparência mais “natural” e despretensiosa.

“A principal percepção que orientou nosso trabalho foi a de que acreditamos que a funcionalidade é a tendência número um em todo o setor de alimentos e bebidas”, diz Adam Deremo, que cofundou a Awake em 2012 e é seu CEO.

“Os consumidores não apenas entenderam que era possível obter benefícios funcionais com as escolhas de alimentos e bebidas, como esses benefícios estão começando a se tornar uma expectativa.”

Leia mais: O tipo de café que você bebe pode importar mais para o cérebro do que a quantidade

Deremo e seus cofundadores procuraram identificar quais produtos de supermercado ainda não ofereciam esse tipo de benefício e chegaram ao chocolate. Na hora de decidir qual função o chocolate deveria desempenhar, optaram por fornecer energia, em vez de outros benefícios.

De longe, o produto mais popular da Awake são os pequenos pedaços de chocolate que contêm 50 miligramas de cafeína cada. Isso equivale a mais ou menos meia xícara de café. Eles representam cerca de 90% de todo o chocolate vendido pela empresa.

DESTAQUE NAS EMBALAGENS

A Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, também percebeu a expansão da cafeína para novos produtos. A agência anunciou que uma de suas prioridades seria publicar, até o fim do ano, orientações sobre a rotulagem do teor de cafeína em alimentos e bebidas.

Em comunicado, a FDA destacou o “aumento do consumo de bebidas e alimentos com cafeína [...] incluindo produtos nos quais o teor de cafeína pode não ser evidente para os consumidores”.

A agência afirmou que suas orientações “têm o objetivo de ajudar os consumidores a tomar decisões informadas sobre o consumo de cafeína, especialmente à medida que ela aparece em uma variedade de produtos alimentícios e bebidas”.

chocolate com cafeína da marca Awake
Crédito: Divulgação

Mark Christou, diretor e principal responsável pela criação na agência de marcas CBX, afirma que os consumidores querem transparência. Por isso, as empresas, especialmente as que estão entrando no mercado, procuram maneiras convincentes de destacar os benefícios de seus produtos nas embalagens.

“Essas empresas têm orgulho do que colocam em seus produtos e não têm medo de destacar isso na parte frontal das embalagens”, afirma. Esse certamente é o caso da Orka, que faz questão de não esconder os 150 miligramas de cafeína presentes em sua água.

“Todo mundo que conhecemos adora cafeína e tem uma quantidade específica de que gosta”, diz Moriarty. O fato de a água da Orka conter cafeína não é algo a esconder. É justamente esse o objetivo do produto.


SOBRE A AUTORA

Rachel Kurzius é repórter de design da Fast Company. saiba mais