Estudo brasileiro associa adoçantes ao declínio cognitivo

Pesquisa brasileira acompanhou 12,7 mil adultos por oito anos; associação foi mais forte entre pessoas com menos de 60 anos, mas não prova causa e efeito.

Colagem com copos de refrigerante, latas e representações de cérebros sobre fundo colorido
Créditos: SOLDATOOFF, Tom Eversley via Adobe Stock / Andrey Ilkevich via Unsplash

Kevin Haynes 5 minutos de leitura
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Uma quantidade diária de aspartame semelhante à encontrada em uma lata de refrigerante diet apareceu associada a um declínio cognitivo mais rápido em adultos, segundo um estudo realizado no Brasil.

Isso não significa que o adoçante cause perda de memória. A pesquisa identificou uma associação estatística, mas não conseguiu demonstrar uma relação direta de causa e efeito.

O estudo observacional publicado na revista científica Neurology acompanhou 12.772 adultos durante aproximadamente oito anos. Os participantes tinham, em média, 52 anos.

Os pesquisadores analisaram o consumo de sete adoçantes de baixa ou nenhuma caloria: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, xilitol, sorbitol e tagatose.

Essas substâncias são encontradas em refrigerantes diet, águas saborizadas, bebidas energéticas, iogurtes, cereais, sobremesas de baixa caloria e outros alimentos ultraprocessados.

O QUE O ESTUDO ENCONTROU

Os participantes foram divididos em três grupos de acordo com a quantidade de adoçantes consumida diariamente.

O grupo com maior ingestão consumia, em média, 191 miligramas por dia. No grupo com menor consumo, a média era de 20 miligramas.

As pessoas do primeiro grupo apresentaram um declínio 62% mais rápido nas habilidades gerais de memória e raciocínio, na comparação com aquelas que consumiam menos. Segundo os pesquisadores, a diferença equivale a aproximadamente 1,6 ano adicional de envelhecimento cerebral.

O grupo intermediário, com consumo médio de 64 miligramas por dia, apresentou uma queda 35% mais rápida, equivalente a cerca de 1,3 ano adicional.

Os participantes fizeram testes cognitivos no início, no meio e no fim da pesquisa. As avaliações mediram memória de trabalho, recordação de palavras, fluência verbal, raciocínio e velocidade de processamento.

Ao analisar separadamente cada substância, os pesquisadores encontraram associações entre seis adoçantes e um declínio mais rápido da cognição: aspartame, sacarina, acessulfame-K, eritritol, sorbitol e xilitol.

A tagatose foi a única entre as sete substâncias que não apresentou a mesma associação.

QUEM APRESENTOU A ASSOCIAÇÃO MAIS FORTE

O resultado apareceu principalmente entre participantes com menos de 60 anos. Nesse grupo, o maior consumo foi associado a quedas mais rápidas na fluência verbal e no desempenho cognitivo geral.

Os pesquisadores não encontraram a mesma associação entre pessoas com 60 anos ou mais.

O diabetes também influenciou os resultados. Entre os participantes com a doença, o consumo elevado foi associado a quedas mais rápidas na memória e na cognição geral.

Pessoas com diabetes, no entanto, também costumam recorrer mais aos adoçantes como substitutos do açúcar. Essa diferença de comportamento é um dos fatores que precisam ser considerados na interpretação dos resultados.

“É importante destacar que o estudo não estabelece relação de causa e efeito”, afirmou Claudia Kimie Suemoto, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e uma das autoras da pesquisa, em comunicado divulgado pela FMUSP.

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POR QUE O ESTUDO NÃO PROVA CAUSA E EFEITO

A pesquisa foi observacional. Esse tipo de estudo acompanha hábitos e resultados de saúde, mas não controla todas as diferenças existentes entre os participantes.

Por isso, não é possível concluir que os adoçantes foram responsáveis pelo declínio observado. Alimentação, doenças preexistentes, atividade física e outros comportamentos podem ter influenciado os resultados.

As informações sobre alimentação também foram fornecidas pelos próprios participantes. Pessoas podem esquecer produtos consumidos ou calcular incorretamente as quantidades.

Além disso, o trabalho não analisou todos os adoçantes disponíveis no mercado. A sucralose, por exemplo, não entrou na pesquisa porque não estava entre os produtos mais consumidos quando o acompanhamento começou.

Os resultados também não significam que as pessoas devam voltar automaticamente a consumir açúcar. O estudo não comparou os adoçantes diretamente com o açúcar nem avaliou qual alternativa seria mais saudável para cada pessoa.

ADOÇANTES TAMBÉM PODEM AFETAR O MICROBIOMA?

Os resultados brasileiros coincidem com outra pesquisa que investiga a relação entre adoçantes e o organismo.

Em testes de laboratório, pesquisadores da Universidade de Cambridge expuseram 25 espécies de bactérias intestinais a 39 adoçantes. Cerca de três quartos das substâncias alteraram pelo menos uma das espécies analisadas.

Algumas reduziram ou interromperam o crescimento de microrganismos associados à saúde digestiva e à regulação do açúcar no sangue.

Os cientistas também analisaram a interação dos adoçantes com cafeína, aromatizantes e medicamentos. Foram identificadas mais de 100 situações nas quais essas substâncias ampliaram ou reduziram os efeitos sobre as bactérias.

Uma das interações mais fortes envolveu o isosteviol, adoçante usado pela indústria de alimentos e bebidas. Quando combinado ao antidepressivo duloxetina, ele suprimiu significativamente duas bactérias consideradas benéficas.

Os resultados, porém, vieram de testes realizados em laboratório — não em seres humanos. Por isso, ainda não permitem concluir que os mesmos efeitos ocorram dentro do sistema digestivo.

AINDA HÁ MAIS PERGUNTAS DO QUE RESPOSTAS

Os dois estudos acrescentam novas perguntas ao debate sobre produtos vendidos como alternativas mais saudáveis ao açúcar.

A pesquisa brasileira sugere uma associação entre o consumo elevado de determinados adoçantes e o declínio cognitivo. O trabalho de Cambridge indica que essas substâncias podem interagir com bactérias intestinais e com outros compostos.

Nenhum deles, entretanto, oferece evidência suficiente para afirmar que os adoçantes causam perda de memória ou alterações no microbioma humano.

Novos estudos serão necessários para entender se determinadas substâncias apresentam riscos diferentes, quais quantidades poderiam produzir efeitos e como idade, diabetes, medicamentos e outros aspectos da alimentação interferem nos resultados.

Até lá, a conclusão mais segura não é trocar imediatamente um ingrediente por outro, mas reconhecer que produtos de baixa ou nenhuma caloria não são necessariamente neutros para o organismo.


SOBRE O AUTOR

Kevin Haynes é um jornalista e editor veterano, cujo trabalho já foi publicado em revistas que vão da Billboard à InStyle. saiba mais