Como recuperar a concentração em tempos de distração digital

Escolas e cientistas estão encontrando maneiras simples de reconstruir a atenção em uma era de múltiplas distrações

uso excessivo de celular prejudica capacidade de concentração
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Chris Morris 4 minutos de leitura

Se você está apenas nas primeiras linhas deste texto mas já sentindo vontade de clicar, deslizar a tela ou partir para outra atividade, não vou levar para o lado pessoal. A capacidade de atenção dos seres humanos caiu mesmo drasticamente nos últimos anos.

Alguns países (Brasil incluso) estão tentando reverter esse cenário ao proibir celulares em sala de aula, e alguns desses programas já mostram resultados. Nos Estados Unidos, dois anos após a proibição em um grande distrito urbano da Flórida (não identificado), as notas dos alunos subiram significativamente, em parte porque eles passaram a se concentrar melhor nas tarefas.

Já uma pesquisa recente com escolas públicas no estado de Ohio, também nos EUA, apontou que 68% dos diretores dizem que os estudantes agora conseguem permanecer em uma mesma atividade por mais de 20 minutos sem buscar uma pausa digital.

Proibir celulares nas escolas é uma coisa. Mas limitar seu uso no mundo real não é tão viável, o que significa que a atenção dos adultos continua em queda.

A pesquisadora Gloria Mark, que estuda atenção humana na Universidade da Califórnia, descobriu em 2004 que uma pessoa média conseguia se concentrar em uma única tela por cerca de dois minutos e meio. Em 2016, esse tempo caiu para 47 segundos – uma redução de aproximadamente 69%.

Em outras palavras, estamos todos correndo atrás de estímulos rápidos, uma tendência que dificilmente vai se reverter. Na verdade, pode até piorar.

Vivemos sob um bombardeio constante de distrações. O apelo das redes sociais, que alimentam picos de dopamina, nos chama o tempo todo. E-mails, Slack e Discord interrompem justamente quando entramos no ritmo.

celular atrapalha capacidade de foco e concentração

Programas de TV, filmes e noticiários usam cortes rápidos, o que também prejudica nossa capacidade de foco. E a inteligência artificial, por sua vez, começa a impactar nossa habilidade de pensar criticamente.

No trabalho, a situação é ainda mais crítica. A Microsoft, em seu relatório Work Trend Index 2025, apontou que o trabalhador médio de escritório é interrompido a cada dois minutos. Em média, são 92 e-mails por dia (sem contar o e-mail pessoal) e 153 mensagens no Teams.

Some a isso reuniões constantes e o ritmo circadiano (que regula nossos picos naturais de concentração) e o cenário fica ainda mais complicado.

estamos todos correndo atrás de estímulos rápidos, uma tendência que dificilmente vai se reverter.

Ainda assim, não estamos condenados, diz Mark, ao apontar que, assim como não conseguimos manter uma atividade física indefinidamente, o cérebro também não consegue focar o tempo todo. E um pouco de dispersão mental pode ser positivo.

“Atividades aparentemente sem propósito, como jogar jogos simples, não apenas nos deixam temporariamente mais felizes. Quando usadas de forma estratégica, elas ajudam a restaurar nossos recursos mentais e permitem o surgimento de novas ideias”, escreve Mark em seu livro “Attention Span: A Groundbreaking Way to Restore Balance, Happiness and Productivity” (Capacidade de atenção: uma abordagem inovadora para restaurar o equilíbrio, a felicidade e a produtividade, em tradução livre).

Mas, se você sente que está se tornando uma versão humana de Dug (o cãozinho distraído do desenho animado “Up! Altas Aventuras”), existem formas de treinar o cérebro para recuperar o foco, mesmo diante de tantas distrações.

LER LIVROS FAZ BEM

O primeiro passo é criar distância física entre você e o celular. Se ele não estiver ao alcance, a tentação de rolar a tela compulsivamente diminui.

Mas o método mais eficaz é ler mais. A neurocientista Maryanne Wolf defende que o ato físico da leitura altera o cérebro. E não é só o que você lê, mas também onde você lê.

Grande parte da leitura em telas é feita de forma superficial, buscando palavras-chave para entender rapidamente o conteúdo. Isso não ajuda. É preciso desacelerar e realmente ler, algo mais fácil com um livro físico.

Por que estamos lendo menos e entendendo menos, segundo estudos
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“Quando escaneamos um texto, não temos tempo, do ponto de vista fisiológico, para pensar ou sentir”, explica Wolf. “A diferença entre escanear e ler com toda a nossa capacidade intelectual é a diferença entre um cérebro plenamente ativado e uma versão ‘curto-circuitada’ pelas telas.”

Ler em papel é um processo mais lento e exige mais atenção. O cérebro associa telas à distração, o que nos leva a ler de forma superficial. Achamos que lemos mais rápido mas, na prática, lemos menos, sem perceber.

Leia mais: 7 livros sobre foco e concentração para ler e aplicar no dia a dia

Segundo a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2024), mais da metade (53%) da população não leu nenhum livro, parcial ou totalmente, nos últimos três meses. A média geral é de 2,4 a 2,6 livros lidos por ano. Nos EUA, um estudo de 2025 da Universidade da Flórida revelou que o número de pessoas no país que leem por prazer caiu 40% em duas décadas.

“Não é uma queda pontual, é um declínio constante de cerca de 3% ao ano”, analisa Jill Sonke, diretora de iniciativas de pesquisa do Centro de Artes e Medicina da universidade. “É considerável – e preocupante.”

Com informações da redação da Fast Company Brasil


SOBRE O AUTOR

Chris Morris é jornalista, escritor, editor e apresentador especializado em tecnologia, games e eletrônicos. saiba mais