Quer ser mais feliz? Ciência mostra por que vale a pena comprar tempo, não coisas
Pesquisa indica que pagar para se livrar de tarefas pouco prazerosas pode reduzir o estresse e aumentar o bem-estar. Mas há um detalhe importante: o que você faz com o tempo que ganhou.

Um amigo empreendedor tinha dificuldade para equilibrar os negócios e a família. Na maioria das vezes, o trabalho vencia, já que as demandas profissionais costumam parecer mais urgentes.
Perder um evento da escola dos filhos por causa de um problema com uma entrega? Você se sente mal, mas promete que estará presente no próximo. Deixar de jantar com a família porque precisou resolver um problema com um funcionário? É frustrante, mas você diz a si mesmo que amanhã será outro dia.
Parece familiar? Segura esse pensamento.
POR QUE COMPRAR COISAS NÃO GARANTE FELICIDADE
De modo geral, pesquisas mostram que, quando compramos bens materiais, a adaptação acontece relativamente rápido. Um carro novo é empolgante no começo, mas a sensação logo desaparece. O mesmo acontece com roupas, casas e praticamente qualquer outra aquisição.
Cientistas sociais chamam esse fenômeno de adaptação hedônica: a tendência de retornar rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade depois de um acontecimento importante, positivo ou negativo.
E tem mais. Embora comprar alguma coisa ou alcançar determinado objetivo raramente produza felicidade duradoura, a própria busca por essas conquistas pode nos deixar menos felizes.
Pesquisas ajudam a entender por quê:
- Estudos descritos no livro Flow: The Psychology of Optimal Experience (Fluxo: a psicologia da experiência ótima) mostram que pessoas que valorizam bens materiais acima de relacionamentos ou crescimento pessoal relatam mais ansiedade e menor satisfação com a vida.
- Um estudo publicado no Journal of Consumer Research descobriu que comprar coisas com o objetivo de ser mais feliz pode provocar uma sensação de insatisfação crônica.
- Outra pesquisa, publicada no Journal of Economic Psychology, associou a chamada “terapia de compras” ao arrependimento e à menor satisfação com a vida.
Em uma perspectiva mais ampla, um estudo de 2010, frequentemente citado, conduzido por dois pesquisadores da Universidade de Princeton, concluiu que, acima de uma renda anual de US$ 75 mil, ganhar mais dinheiro não aumentaria necessariamente a felicidade cotidiana nem reduziria o sofrimento ou o estresse. Corrigido pela inflação, esse valor ultrapassaria US$ 100 mil.
Pesquisas posteriores, no entanto, questionaram ao menos parte dessa conclusão.
De qualquer forma, o dinheiro, e mais especificamente a maneira como o gastamos, pode proporcionar muitas coisas, mas não garante que seremos mais felizes.
A menos que seja usado para comprar tempo.
O QUE A CIÊNCIA DESCOBRIU SOBRE COMPRAR TEMPO
Em um estudo publicado na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), pesquisadores entrevistaram milhares de pessoas que, em algumas ocasiões, pagavam outras para realizar tarefas de que não gostavam ou que preferiam não fazer.
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Pense em limpar a casa, cuidar do jardim ou ir ao supermercado. Eram atividades necessárias, mas que os participantes não tinham muita vontade de executar.
Não chega a ser uma surpresa que as pessoas que gastavam algum dinheiro para liberar tempo relatassem maior felicidade e satisfação geral com a vida do que aquelas que não faziam isso.
Talvez você esteja pensando: correlação não significa causalidade. É possível que as pessoas que pagam para economizar tempo sejam mais felizes simplesmente porque têm dinheiro suficiente para isso.
Mas os pesquisadores encontraram evidências de uma relação causal.
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Nos levantamentos, pessoas com renda relativamente alta que gastavam dinheiro para liberar tempo relatavam mais felicidade do que outras com renda semelhante que não faziam isso.
O mesmo padrão apareceu entre participantes com renda mais baixa: aqueles que gastavam algum dinheiro para economizar tempo relatavam maior satisfação com a vida do que os que não recorriam a esses serviços.
Para investigar se a relação era realmente causal, os pesquisadores realizaram um experimento.
Primeiro, os participantes receberam US$ 40 para comprar qualquer produto material que quisessem. A única restrição era gastar o dinheiro com coisas.
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Em outro momento, receberam mais US$ 40, mas dessa vez deveriam usar o valor para liberar tempo.
Isso poderia significar contratar alguém para fazer a limpeza, cuidar da manutenção da casa, entregar compras ou realizar alguma tarefa que os participantes preferiam não executar.
A ideia era permitir que usassem essas horas em atividades que realmente quisessem fazer.
O resultado? Quando gastaram dinheiro para economizar tempo, em vez de comprar objetos, os participantes se sentiram mais felizes, menos estressados e mais satisfeitos.
Tem muito dinheiro e usa parte dele para recuperar algumas horas do dia? Isso pode aumentar sua felicidade.
Tem menos dinheiro, mas consegue gastar um pouco para liberar algum tempo? O benefício também pode aparecer.
Os resultados sugerem que comprar tempo pode contribuir para o bem-estar em diferentes faixas de renda.
Mas existe uma ressalva.
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Como escrevem os pesquisadores: “Gastar dinheiro demais com serviços que economizam tempo pode prejudicar a percepção de controle pessoal, levando as pessoas a concluir que são incapazes de realizar qualquer tarefa cotidiana, o que pode reduzir o bem-estar”.
Entendo o argumento, mas acredito que a maioria de nós nem sequer tenha condições de gastar tanto dinheiro comprando tempo a ponto de começar a se sentir incapaz de lidar com as tarefas do dia a dia.
Sei fazer compras no supermercado. Sei dirigir até um restaurante para buscar comida. Sei cortar a grama.
Pagar para que alguém faça essas coisas, algo que faço ocasionalmente, não me dá a sensação de que perdi a capacidade de executá-las.
Portanto, não se preocupe tanto com a possibilidade de que gastar um pouco de dinheiro para liberar tempo faça você se sentir incapaz.
Existe outra coisa com a qual vale se preocupar: decidir conscientemente o que fazer com o tempo que acabou de ganhar.
Afinal, a adaptação hedônica também pode acontecer quando compramos tempo.
O SEGREDO ESTÁ NO QUE VOCÊ FAZ COM O TEMPO QUE GANHOU
O fundamental é decidir de maneira consciente como usar as horas que você comprou.
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Liberar tempo tende a contribuir mais para a felicidade quando a decisão tem uma intenção e um propósito. Não porque você simplesmente não tem tempo, mas porque deseja usar o tempo disponível de outra maneira.
Em vez de limpar a casa, por exemplo, você pode decidir passar essas horas com a família ou os amigos.
Ou trabalhar em um projeto pessoal. Ler um livro. Fazer exercícios. Dedicar-se a um objetivo que costuma ficar para depois.
Mas há um detalhe importante: para que comprar tempo faça diferença, é preciso tomar essa decisão conscientemente e colocá-la em prática.
É exatamente isso que meu amigo empreendedor faz.
Antes, ele gastava duas horas por semana cortando a grama do jardim. Agora, usa esse período para levar a família ao parque.
Eles até deram um nome ao compromisso: “Piqueniques de quarta-feira”.
O segredo, portanto, não é simplesmente criar algumas horas livres.
É fazer um plano para o tempo que você conseguiu liberar, escolhendo uma atividade que gostaria de realizar, mas para a qual raramente encontra espaço na rotina.
E, principalmente, cumprir esse plano.
É assim que o dinheiro pode ajudar a comprar um pouco mais de felicidade, independentemente de quanto você ganha ou possui.