Dormir 8 horas nem sempre é o melhor para o cérebro, diz estudo

Pesquisa sugere que a relação entre sono e saúde cerebral e risco de Alzheimer varia de acordo com a genética da pessoa.

Pessoa dorme abraçada a um travesseiro ao lado da imagem de um relógio, representando a duração do sono.
Créditos: Morgan Housel e Dina Makhmutova via Estudo indica que a quantidade ideal de sono pode variar de acordo com a genética de cada pessoa. Unsplash, luis_molinero via Magniffic

Lucia Auerbach 3 minutos de leitura

Dormir oito horas por noite costuma ser tratado como uma regra universal para manter o cérebro saudável. Mas um novo estudo indica que a quantidade ideal de sono pode variar de pessoa para pessoa e que dormir mais nem sempre significa uma proteção maior contra o declínio cognitivo.

Um novo estudo da Universidade Edith Cowan (ECU), na Austrália Ocidental, encontrou uma relação entre hábitos de sono, variações genéticas e mudanças no cérebro associadas ao risco de Alzheimer

O estudo analisou diferentes versões do gene AQ4, responsável pela “limpeza” do cérebro durante o sono. Esse mecanismo ajuda a remover proteínas associadas ao Alzheimer. Mas ele não funciona da mesma forma para todas. Isso porque a eficiência da ação deste gene também depende da maneira como cada pessoa dorme.

"Não se trata apenas de quais genes você possui, mas de como esses genes interagem com o ambiente ao seu redor. A mesma variante pode parecer protetora ou prejudicial, dependendo de como a pessoa dorme", afirmou, em um comunicado, Ayeisha Milligan Armstrong, pesquisadora de pós-doutorado no Centro de Saúde de Precisão (Centre for Precision Health). 

Em outras palavras: dormir muito pode ser negativo para algumas pessoas e positivo para outras, dependendo do componente genético. 

SONO E GENÉTICA NÃO AFETAM TODOS DA MESMA FORMA

O estudo analisou dados 351 idosos, inscritos no laboratório Australian Imaging, Biomarker & Lifestyle (AIBL), especializado em pesquisas sobre longevidade. Esta pesquisa coleta informações de biomarcadores relacionados ao Alzheimer e a estilos de vida de pessoas de 18 em 18 meses. Eles atuam na Austrália desde 2006.

Os participantes deste estudo tinham cerca de 75 anos e não apresentavam comprometimento cognitivo diagnosticado. No entanto, eles exibiam sinais de acúmulo de amiloide, proteínas que se acumulam de forma anormal no cérebro, formando placas que podem prejudicam a comunicação celular. A presença dessas placas está associada à doença de Alzheimer.

Os cientistas monitoraram 13 variantes comuns do gene AQP4 e as compararam com os relatos dos participantes sobre seus hábitos de sono. Em seguida, realizaram exames cerebrais e testes cognitivos repetidos em seis categorias diferentes, incluindo memória, linguagem e atenção.

Os resultados mudaram de acordo com a variante do gene que o participante possuía. Para alguns, períodos de sono mais curtos estavam associados a uma perda mais rápida de massa cinzenta ao longo do tempo. Para outros, as alterações na estrutura cerebral estavam relacionadas principalmente ao tempo que levavam para adormecer.

Mas o dado mais surpreendente foi que dormir por mais tempo nem sempre apareceu como algo positivo. Em pelo menos uma das variantes analisadas, os participantes que dormiam mais apresentaram uma queda cognitiva maior do que aqueles que dormiam menos.

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Isso não significa que dormir pouco seja mais saudável. A conclusão dos cientistas é que os efeitos do sono sobre o cérebro podem variar conforme a genética.

AFINAL, QUANTAS HORAS DEVERÍAMOS DORMIR?

Para quem busca um número exato de horas de sono, o estudo não oferece uma resposta simples. Segundo Simon Laws, diretor do Centro de Saúde de Precisão da Edith Cowan University, não existe uma quantidade ideal que funcione da mesma maneira para todas as pessoas.

“O efeito aparece na interação entre o perfil genético de uma pessoa e seu sono. É essa interação que importa, e não o sono isoladamente”, afirmou.

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As recomendações mais conhecidas continuam válidas, como manter horários regulares, cuidar da qualidade do sono e tratar problemas como a apneia.

O que muda é a ideia de que existe uma regra única — como dormir exatamente oito horas — capaz de proteger igualmente o cérebro de todas as pessoas.

Os pesquisadores também ressaltam que o risco de Alzheimer não depende de um único gene ou hábito. Alimentação, atividade física e outros fatores de saúde continuam sendo importantes.

O próximo passo será realizar novos estudos para descobrir se intervenções personalizadas no sono, baseadas no perfil genético de cada paciente, podem ajudar a reduzir o risco de declínio cognitivo no longo prazo.


SOBRE A AUTORA

Lucia Auerbach é autora da Inc.Magazine saiba mais