Essa função do seu cérebro importa mais do que o seu QI

Da atenção ao autocontrole, funções executivas estão por trás de decisões cotidianas que podem definir o rumo da nossa vida

Crédito: Magnific

Adrian Owen 6 minutos de leitura
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Seu sucesso na vida depende menos de quão inteligente você é e mais de quão bem consegue administrar a própria mente. As funções executivas determinam se você consegue transformar capacidade em boas decisões e ações significativas.

A seguir, o neurocientista Adrian Owen compartilha cinco insights importantes de seu novo livro, "Think Before You Think: Understanding and Mastering Executive Function" (Pense antes de pensar: entendendo e dominando as funções executivas, em tradução livre).

1. O SISTEMA CEREBRAL DO QUAL VOCÊ MAIS DEPENDE É O QUE MENOS ENTENDE

As funções executivas são o sistema de gerenciamento do cérebro: as capacidades que nos permitem concentrar a atenção no que é importante, manter informações em mente enquanto as utilizamos, planejar com antecedência, resistir a distrações e tentações, regular nossas emoções e entender o que outras pessoas estão pensando.

Elas não determinam o quanto você é inteligente. Determinam quão bem você usa a inteligência que já tem.

As funções executivas influenciam quase todos os aspectos da vida. Elas afetam o desempenho na escola e no trabalho, o sucesso dos relacionamentos, a maneira como tomamos decisões financeiras, como lidamos com o estresse e até mesmo a qualidade do envelhecimento.

Ainda assim, se você parasse alguém na rua e perguntasse o que é função executiva, pouquíssimas pessoas saberiam responder. Todos sabemos o que é QI. Todos nos preocupamos com nossa memória. Mas as capacidades mentais que muitas vezes mais importam no dia a dia são justamente aquelas sobre as quais quase não falamos.

A parte do cérebro que mais influencia a vida que você leva é aquela que ajuda a decidir o que merece sua atenção, o que deve ser ignorado, o que fazer em seguida e o que não fazer.

2. AS PESSOAS MAIS INTELIGENTES PODEM TOMAR AS PIORES DECISÕES

Não há dúvida de que o QI mede algo importante. Mas temos feito a pergunta errada. A questão não deveria ser quão inteligente você é, e sim quão bem você usa a inteligência que já tem.

As funções executivas são o que nos permite transformar capacidade em ação.

São as habilidades mentais que nos ajudam a planejar com antecedência em vez de reagir impulsivamente, manter o foco quando estamos distraídos, resistir a tentações que prejudicam nossos objetivos de longo prazo e nos adaptar quando a vida nos apresenta algo inesperado. Elas são a ponte entre saber o que fazer e realmente fazer.

Um dos maiores estudos já realizados em meu laboratório envolveu mais de 44 mil pessoas, que completaram uma série de testes cognitivos online. Queríamos responder a uma pergunta aparentemente simples: a inteligência é realmente uma coisa só?

A resposta nos surpreendeu. O que chamamos de inteligência se revelou um conjunto de capacidades mentais distintas, muitas das quais dependiam fortemente das funções executivas.

Talvez, portanto, seja hora de parar de perguntar quem é a pessoa mais inteligente da sala. Uma pergunta melhor seria: quem está tomando as melhores decisões?

3. HABILIDADES OCULTAS MOLDAM SUA VIDA MAIS DO QUE VOCÊ IMAGINA

Quando você começa a enxergar as coisas pela perspectiva das funções executivas, percebe que elas estão em toda parte.

Pense na última discussão que teve com alguém próximo. Talvez você tenha dito algo de que se arrependeu no calor do momento. Isso envolve inibição e regulação emocional, ambas funções executivas fundamentais.

Pense em conciliar várias tarefas no trabalho enquanto se lembra de buscar as crianças na escola e passar no mercado no caminho de casa. Isso envolve planejamento, atenção e memória de trabalho – mais três funções executivas importantes.

A questão não deveria ser quão inteligente você é, e sim quão bem você usa a inteligência que já tem.

Pense em conhecer alguém novo. Conforme a conversa avança, você vai tentando entender o que a outra pessoa está pensando, o que ela já sabe, se está brincando, se está interessada. Isso é teoria da mente, outra função executiva importante.

As funções executivas fazem com que tudo se encaixe exatamente no momento certo. Elas também explicam por que tantas condições aparentemente sem relação têm algo importante em comum.

Seja TDAH, concussão, doença de Parkinson, doença de Alzheimer ou envelhecimento normal, uma das primeiras coisas que frequentemente mudam não é a inteligência, mas a capacidade de organizar, estabelecer prioridades, adaptar-se e regular o comportamento.

A função executiva oferece uma estrutura única para compreender uma enorme variedade de experiências humanas, desde os esquecimentos cotidianos até algumas das condições neurológicas mais graves.

Leia mais: O que acontece com o cérebro quando terceirizamos o pensamento para a IA

Quando você entende essas capacidades mentais ocultas, começa a percebê-las em si mesmo. Torna-se mais compreensivo quando sua atenção se dispersa, mais paciente quando outras pessoas cometem erros e talvez um pouco mais intencional na maneira como toma decisões.

4. A VERDADEIRA AMEAÇA DA IA NÃO É O QUE VOCÊ PENSA

Toda semana surge uma nova manchete afirmando que a IA, os smartphones ou as redes sociais estão nos deixando menos inteligentes, reduzindo nossa capacidade de atenção ou “fritando” nosso cérebro.

Não me preocupo que a tecnologia esteja substituindo nossos cérebros, mas me preocupa que estejamos ficando menos intencionais ao decidir quando depender dela.

Às vezes, delegar uma tarefa à IA é a decisão certa. Se ela me poupa 20 minutos ao redigir um e-mail de rotina, pode ser um bom uso da tecnologia. Isso me permite dedicar mais tempo a um trabalho que exige minha atenção, criatividade e julgamento.

O problema surge quando deixamos de fazer essa escolha conscientemente. Se automaticamente pedimos à IA para resolver todos os problemas, reescrever todos os parágrafos ou tomar todas as decisões por nós, não estamos usando a tecnologia para ampliar nosso pensamento, mas para evitar pensar.

O desafio da era da IA é proteger o cérebro da tecnologia. É aprender a ser mais intencional sobre quais partes do pensamento escolhemos terceirizar e quais devemos fazer questão de manter sob responsabilidade humana.

O futuro não pertencerá às pessoas que se recusam a usar IA. Pertencerá àquelas que souberem quando não usá-la.

5. NÃO EXISTE UMA FÓRMULA MÁGICA, MAS HÁ UM CAMINHO

A função executiva é muito parecida com o condicionamento físico. Você não fica fisicamente em forma fazendo uma única coisa de maneira extraordinária, e sim acertando, de maneira constante, várias coisas: dormindo bem, mantendo-se ativo, alimentando-se de forma equilibrada e desafiando seu corpo regularmente.

O cérebro funciona praticamente da mesma maneira. As evidências neurocientíficas sugerem que as funções executivas são favorecidas por:

  • Exercícios físicos regulares
  • Sono de boa qualidade
  • Controle do estresse
  • Manutenção de relações sociais fortes
  • Aprendizado contínuo de novas habilidades
  • Manter-se mentalmente engajado ao longo da vida

Nenhum desses fatores é uma fórmula mágica, mas, juntos, criam as condições nas quais o cérebro tem maior probabilidade de prosperar.

Talvez a coisa mais importante que aprendi sobre função executiva seja a consciência. Quando você entende o que são as funções executivas, começa a percebê-las em todos os lugares. Essa consciência não torna você perfeito, mas faz com que suas escolhas sejam mais intencionais.

Leia mais: Soberania cognitiva: entre o direito de pensar e os riscos civilizatórios

Função executiva não tem a ver com ter o QI mais alto do mundo ou a melhor memória do mundo. Tem a ver com desenvolver a capacidade de fazer uma pausa, pensar e tomar decisões melhores.


SOBRE O AUTOR

Adrian Owen é professor de neurociência cognitiva na Universidade de Western Ontario. saiba mais