Gerencie a sua energia, não o seu tempo

A criatividade não se submete ao relógio. Respeitar o cronotipo e proteger os horários de maior concentração pode produzir ideias melhores.

Cérebro rosa ligado a um plugue sobre um relógio com indicadores de energia
Créditos: Ekaterina Chizhevskaya via Getty Images / Marko Brečić via Unsplash

Diana Shi 7 minutos de leitura
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A cena é familiar: depois de um dia de reuniões de trabalho, ligações para resolver problemas inesperados e emails na caixa de entrada, finalmente chega a hora de sentar e pensar criativamente em um grande projeto.

Mas sua mente ainda está confusa com outras tarefas e, pelo canto do olho, você vê mais um alerta do aplicativo Teams. Ao mesmo tempo, você sabe que, para realizar um trabalho criativo de sucesso, precisa de espaço para respirar e clareza mental para chegar a uma grande ideia.

No ambiente complexo e interconectado do mundo profissional atual, os dias de trabalho são, na maioria das vezes, propensos a distrações. Um funcionário dispõe de apenas 85 minutos por dia de concentração ininterrupta, de acordo com a ferramenta de gerenciamento de tempo RescueTime. Esse tipo de tempo é essencial para o trabalho criativo, que se alimenta da ausência de restrições.

O aumento da carga de trabalho também sufoca a criatividade. Em uma pesquisa recente da Gallup sobre engajamento no trabalho, os entrevistados relataram uma diminuição do entusiasmo e do envolvimento devido a expectativas confusas e à falta de clareza quanto à autoridade da equipe. Com as empresas frequentemente reduzindo o quadro de funcionários e, como consequência, deixando vagas em aberto, os funcionários percebem que estão sobrecarregados de tarefas — muitas vezes incluindo funções fora de suas atribuições originais. O esgotamento surge facilmente.

Ou seja: quando se espera que os trabalhadores sejam criativos, a necessidade de limites se torna ainda mais evidente.

Para alcançar um estado de mente aberta e criatividade, é preciso começar identificando os obstáculos — sejam eles interrupções externas ou fatores biológicos pessoais — que minam sua energia durante o tempo dedicado ao brainstorming.

O TEMPO SEM DISTRAÇÕES

Um grande obstáculo à concentração é a execução simultânea de várias tarefas. Não só lidar constantemente com várias tarefas ao mesmo tempo prejudica a produtividade, como também pode ter consequências perigosas em profissões em que pequenas decisões têm um grande impacto.

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Um estudo de 2001 mostra que a alternância entre tarefas leva apenas frações infinitesimais de segundo; no entanto, esses pequenos momentos, somados, resultam em uma queda de 40% na produtividade diária. As perdas de energia — como verificar e-mails ou sair abruptamente de um estado de concentração para participar de uma reunião — trazem consequências negativas, como a redução da satisfação dos funcionários e o desgaste da cultura da equipe.

No que diz respeito ao trabalho criativo, uma perda gradual de energia pode levar a dificuldades na hora de gerar ideias inovadoras. Quem já tentou se forçar a isso sabe: o trabalho criativo não segue um padrão linear.

“Tentar realizar um trabalho exigente e que requer concentração durante um período repleto de interrupções, ou quando o nível de cansaço já está alto, é uma causa perdida”, afirma Anita Williams Woolley, professora de comportamento e teoria organizacional da Universidade Carnegie Mellon.

Para dar espaço a ideias criativas, os profissionais se beneficiam ao organizar seu dia de forma consciente. Curiosamente, reservar horários no calendário é a melhor maneira de permitir que sua mente aproveite ao máximo um período sem estrutura.

Elizabeth Grace Saunders, coach de gestão de tempo, explica como mergulhar profundamente no pensamento criativo: “Recomendo reservar um dia por semana sem reuniões para se dedicar inteiramente ao trabalho. Respondo às mensagens do dia útil anterior e, em seguida, fecho o e-mail e desativo as notificações para que o resto do dia fique livre para os projetos.”

“Vá além disso, configurando uma mensagem de ausência do escritório para informar às pessoas que você está tendo um dia dedicado ao trabalho, definindo expectativas sobre quando responderá às mensagens”, acrescenta ela.

Mesmo ao conciliar a energia pessoal com os prazos do departamento, a criatividade continua surgindo em nível individual. Woolley aborda a ideia de “irregularidade” ao trabalhar em projetos criativos como parte de uma equipe.

Sua pesquisa mostra que a criatividade em grupo costuma funcionar melhor quando os indivíduos trabalham sozinhos, inicialmente, em suas ideias. A partir daí, o profissional pode levar suas ideias — desenvolvidas longe da influência do pensamento de grupo — de volta para a equipe, onde podem surgir padrões de pensamento e possibilidades de melhorias.

“As pessoas geram uma gama mais ampla de ideias iniciais quando estão sozinhas, sem a pressão social para se adequarem à primeira ideia expressada”, diz Woolley. Ela explica que, quando as equipes estão trabalhando em projetos maiores, “os picos irregulares individuais e em grupo estimulam a criatividade”.

O RITMO PRÓPRIO DE CADA UM

Como pensador criativo, defender seu próprio tempo é fundamental. O desgaste mental causado pelo acúmulo de responsabilidades profissionais torna essencial compartilhar as necessidades individuais — especialmente se o grupo ou o gerente do projeto estiver exercendo pressão para que se adapte a um ritmo específico.

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“Hoje em dia, os profissionais são pressionados a lidar com vários projetos ao mesmo tempo ou a coordenar o trabalho entre várias equipes”, diz Woolley. “As pessoas realmente diferem na medida em que conseguem lidar com essa variedade de forma produtiva — algumas acham isso estimulante, outras consideram o excesso de trabalho opressivo, e o estresse ou a pressão do tempo inibem, sem dúvida, a criatividade. Conhecer a própria capacidade e evitar assumir mais compromissos simultâneos do que se consegue lidar bem é, por si só, uma forma de contribuição para a equipe.”

Outro fator é o cronotipo — o ritmo interno que determina quando um indivíduo passa por períodos de pico, de baixa e de recuperação ao longo do dia. Os cronotipos costumam desempenhar um papel menos reconhecido na produção criativa (eles são mais associados ao ciclo de sono de uma pessoa); mas, junto com a personalidade, a hora do dia e a carga de trabalho, os cronotipos influenciam a clareza mental e a capacidade criativa de uma pessoa. Esse atributo afeta quando uma pessoa está mais alerta e mais exausta, de acordo com sua biologia. Trabalhar de acordo com o próprio cronotipo pode significar a diferença entre um trabalho medíocre e um trabalho brilhante.

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Tanya Dalton, autora do livro The Joy of Missing Out: Live More by Doing Less, sobre produtividade no trabalho, afirma à Fast Company que a maioria das pessoas dispõe de apenas cerca de “90 a 120 minutos de energia concentrada” por dia, independentemente do seu cronotipo.

“Quando você reconhece seus padrões, pode começar a trabalhar com eles, em vez de lutar contra eles”, diz Dalton. “Eu incentivo as pessoas a agendarem suas tarefas mais importantes — aquelas que exigem reflexão mais profunda, criatividade ou concentração — para os momentos em que têm mais energia. Depois, elas podem aproveitar as quedas naturais de energia para atividades que exigem menos concentração, como responder e-mails, lidar com a papelada ou outras tarefas administrativas.”

Um estudo de 2025 realizado na Coreia do Sul mostrou que os trabalhadores com ritmos noturnos, em particular, eram os que apresentavam maior chance de sofrer perdas de produtividade ao trabalharem em desacordo com seu cronotipo.

DICAS PARA O PENSAMENTO CRIATIVO

Então, o que funciona para administrar sua energia, mesmo quando os dias são agitados?

Saunders, que é coach de gestão do tempo, recomenda pausas intencionais para fazer uma caminhada ao ar livre ou tomar um café, para que os funcionários não fiquem presos às telas durante todo o dia de trabalho. Woolley destaca a dinâmica de trabalho em “picos irregulares” no contexto de equipe: sessões programadas em grupo, intercaladas por períodos de concentração individual.

Pensar além das noções sociais de produtividade também é algo poderoso. Dalton incentiva os trabalhadores a não ignorarem suas peculiaridades ao tentarem pensar de forma criativa. “Na verdade, não acredito em gestão do tempo, porque o tempo não é algo que possamos gerenciar. O que podemos gerenciar são nossas escolhas, onde direcionamos nossa atenção, nossa energia e nosso foco.”

Ela explica: “Para mim, o objetivo não é uma melhor gestão do tempo, e sim uma melhor autogestão. É decidir o que merece o seu melhor em termos de energia, estabelecer limites em torno disso e se permitir descansar e recarregar as energias quando elas diminuírem naturalmente.”

Quando as pessoas trabalham a partir de uma perspectiva que prioriza as necessidades pessoais — em vez de influências externas ou suposições estereotipadas sobre produtividade —, o trabalho criativo deixa de parecer um desafio inserido de forma desajeitada no dia a dia profissional. E o que acontece no lugar disso é mais como uma progressão natural das horas mais produtivas de cada um.


SOBRE A AUTORA

Diana Shi é editora assistente da seção Worklife da Fast Company. saiba mais