Seu hobby não precisa virar trabalho – e isso pode ser libertador

Isso não é um trabalho paralelo. É um investimento

hobby não é trabalho
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Lilian Campos 5 minutos de leitura

É temporada de formaturas e a minha caixa de entrada de e-mails está inundada de mensagens de estudantes que estão entrando no mercado de trabalho em busca de conselhos de carreira. 

Como conquisto o emprego dos meus sonhos? O que devo fazer na empresa onde fui contratado recentemente para chegar onde realmente quero estar? Como passo do que tenho que fazer para o que quero fazer?

O que percebi nesses estudantes não é muito diferente daquilo com que nós, profissionais mais experientes, lidamos no dia a dia. 

Como conciliar a incongruência entre o nosso dever (aquilo que temos que fazer para sobreviver, pagar as contas e manter as luzes acesas) e a nossa convicção (aquilo que sentimos o chamado para fazer?)

O emprego, claro, é o nosso dever. O dom é a nossa convicção. Para a maioria de nós, os dois parecem tão distantes quanto o oriente do ocidente, e os dois nunca se encontrarão. 

Para apenas alguns sortudos, o emprego e os dons coexistem. Pelo menos é isso que dizemos a nós mesmos.

Mas e se não for bem assim? E se pudermos ter o melhor dos dois mundos? Convidamos Najoh Tita-Reid para o último episódio do podcast From the Culture para nos ajudar a explorar essa tensão. 

Ela é ex-diretora global de crescimento na Mars Petcare, ex-CMO global na Logitech e ex-vice-presidente de marketing na Bayer Consumer Care, uma veterana com mais de três décadas de carreira. 

No entanto, apesar de seu currículo incrível liderando grandes marcas, ela recentemente abandonou tudo isso, não porque o trabalho fosse ruim, mas porque a sua convicção era maior. 

Tita-Reid vinha trabalhando em seu dom paralelamente ao seu dever há bastante tempo antes de deixar o cargo de diretoria executiva. 

Ela não via os dois como uma proposta mutuamente exclusiva, mas sim como um jogo de compensação. 

O seu dever corporativo já estava a todo vapor muito antes de seu dom começar a se manifestar. Levou anos até que ela percebesse a sua convicção, sua habilidade de olhar além da esquina e enxergar a mudança.

Como um "canário em uma mina de carvão", como a própria Tita-Reid define, ela tem a capacidade de pressentir mudanças muito antes de elas acontecerem. 

Essa habilidade começou como um sussurro e foi ficando cada vez mais alta, mas, no momento em que ela se deu conta de que era um "canário", já estava imersa em sua carreira de marketing e sua convicção parecia subdesenvolvida em relação às suas habilidades do dever. 

Então, ela acordava às 5 horas da manhã para fazer o trabalho da convicção antes que o trabalho do dever começasse. 

Para ela, isso significava aprender inteligência artificial por conta própria, com instrutores independentes, em seu próprio tempo e do seu próprio bolso, enquanto seu cargo de diretoria ainda estava em andamento.

O dever a mantinha solvente. A convicção a mantinha alerta. Em pouco tempo, ela estava trazendo suas recém-desenvolvidas habilidades de canário para o seu trabalho de marketing, e isso a ajudou a subir nos cargos e na hierarquia corporativa, até que sua convicção e seu dever estivessem em pé de igualdade.

Foi aí que Tita-Reid percebeu que a sua convicção poderia liderar o seu dever, de modo que a curiosidade do seu dom pudesse, na verdade, se tornar o seu dever. 

Foi nesse momento que ela decidiu desembarcar do trem corporativo tradicional e seguir em direção ao horizonte guiada por suas convicções.

Como profissional de marketing de carreira, eu me identifico profundamente com isso. Eu já estava há alguns anos na minha carreira antes de perceber minha convicção. 

Tornei-me insaciavelmente curioso pelas ciências sociais e sua aplicação na adoção de comportamentos. 

Eu queria estudar, ensinar e praticar isso. Quando me dei conta, já estava liderando um departamento inteiro em uma agência de publicidade e, assim como Tita-Reid, o meu conjunto de habilidades do dever superava de longe a minha curiosidade.

Então, fiz exatamente o que ela fez: comecei a trabalhar na minha convicção antes e depois do expediente

Lia sem parar: Kahneman, Ariely, Thaler, Loewenstein. Um acadêmico me levava a outro e me ajudava a construir um repertório teórico. 

Eu dava aulas sobre os meus aprendizados nos finais de semana, à noite e até de manhã cedo. E quanto mais eu fazia isso, mais próximos esses dois mundos distintos ficavam. 

Cheguei a tirar um doutorado na área da minha convicção enquanto trabalhava no meu dever. Isso continuou por mais de uma década até que minha convicção e meu dever estivessem em paridade, e foi nesse ponto que, assim como Tita-Reid, eu também permiti que minha convicção me liderasse.

Portanto, digo a você o que Tita-Reid nos disse e o que digo aos meus alunos: cumpra o seu dever enquanto desenvolve o conjunto de habilidades da sua convicção

Trabalhe no seu horário comercial tradicional (das 9 às 17h) e no seu horário pessoal (das 17 às 21h) para que, em pouco tempo, o seu horário pessoal se torne o seu horário comercial. 

Isso não é um bico ou um trabalho paralelo, é um investimento. Você está investindo em si mesmo hoje para colher os juros amanhã.

Por conta desses muitos anos investindo em mim mesmo e, ao mesmo tempo, investindo no meu local de trabalho (o meu dever), posso dizer verdadeiramente que hoje vivo no meu dom, e isso é uma dádiva. 

Tenho a oportunidade de lecionar em uma das melhores faculdades do mundo (a Universidade de Michigan), trabalhar com algumas das maiores marcas do planeta (Google, TikTok e McDonald’s) e lançar ideias no mundo por meio de plataformas como este artigo que você está lendo, livros e palcos. 

Não é um sonho; são juros compostos, e isso também está ao seu alcance.


SOBRE A AUTORA

Lilian Campos é jornalista colaboradora da Fast Company Brasil. saiba mais