Este “hospital das emoções” transforma sentimentos em experiências imersivas

Projeto reúne dezenas de artistas para ressignificar um hospital fechado antes de sua reabertura como centro de saúde mental

“hospital das emoções” transforma sentimentos em experiências imersivas
Crédito: Hospital das Emoções

Susan Karlin 4 minutos de leitura

Dois profissionais da saúde, vestindo jalecos brancos, fazem um gesto para que entremos e nos conduzem pela recepção de um hospital abandonado em Los Angeles. Caricaturas animadas de emoções personificadas decoram as paredes.

Fazemos o cadastro como pacientes e recebemos pulseiras hospitalares laranjas com a frase "Cure seu heART. Quem você será quando sair daqui?" – um trocadilho em inglês que une as palavras heart (coração) e art (arte).

Os "médicos" nos levam ao primeiro de quatro andares repletos de salas transformadas para representar 10 emoções diferentes, da alegria e do amor à tristeza e à raiva.

Cada ambiente incorpora elementos de sua antiga função e equipamentos médicos que ficarm no local, despertando memórias, estimulando o processamento emocional e, por fim, conduzindo à catarse.

Crédito: Hospital das Emoções

O Hospital das Emoções é uma impactante instalação temporária criada por 70 artistas de diferentes países, que transformaram 80 salas do antigo Centro Médico St. Vincent em uma experiência artística imersiva dedicada à transformação e à cura emocional.

O hospital mais antigo da cidade foi fechado em 2020, após declarar falência, e será incorporado ao Campus de Saúde Comportamental St. Vincent Behavioral, um complexo voltado à saúde mental e à recuperação de dependentes químicos, com inauguração prevista para 2028.

Apresentada pelo St. Vincent, em parceria com as produtoras de instalações artísticas House of Art and Dreams e ROYVA, a exposição cria uma ponte entre o passado e o futuro do prédio. O sucesso foi tanto que a temporada foi prorrogada por mais dois meses, até setembro.

Quarto 6, Respiração, de Anna Matsumoto e Bhumikorn Kongtaveelert (Crédito: Hospital das Emoções)

Inicialmente, a transformação do hospital foi pensada apenas como uma forma criativa de contextualizar a exposição. Mas nem os próprios artistas imaginavam o quanto o ambiente estimularia a criatividade e ampliaria a jornada emocional dos visitantes.

Monstros coloridos parecem explodir de uma das salas, enquanto outra tem as paredes cobertas por vídeos de olhos piscando, criando uma atmosfera inquietante.

Há também espaços mais contemplativos, como instalações em que folhagens exuberantes tomam conta de antigos equipamentos médicos ou o contorno em LED de uma cama iluminada por uma luz vermelha.

"Este não é um cubo branco", diz Oshri Elmorich, fundador da ROYVA, que assina a curadoria da mostra ao lado de Yaara Sachs, da House of Art and Dreams. Ambos também criaram salas da exposição.

"Usamos a essência do hospital, mas a transformamos em algo completamente diferente, onde você vivencia todas essas emoções. Se conseguirmos nos sentir mais confortáveis com todo o arco-íris de emoções que atravessa nosso dia a dia, a vida fica muito mais fácil."

Elmorich e Sachs receberam cerca de duas mil propostas de artistas de mais de meia dúzia de países durante uma chamada pública realizada no ano passado. A seleção priorizou as ideias, e não o currículo dos participantes, embora vários deles trabalhem na indústria de efeitos especiais para cinema e televisão.

Quarto 20, Medor, de Dioz (Crédito: Hospital das Emoções)

Todos receberam a mesma remuneração: um cachê de US$ 4 mil, além de até US$ 10 mil para cobrir despesas de produção. Entre os artistas selecionados estavam integrantes de organizações sem fins lucrativos parceiras, como The People Concern, Veterans Stand Together e The Jed Foundation, que receberão parte da receita gerada pelo projeto.

"Uma das salas foi criada por artistas que viveram em situação de rua como forma de processar emoções e favorecer uma reintegração mais saudável", conta Elmorich. "Já os veteranos utilizaram adereços de guerra para conscientizar o público sobre o que significa voltar para casa depois de um conflito."

Todos decoraram seus espaços durante duas semanas intensas de trabalho em maio. "Parecia que estávamos em um acampamento artístico do Burning Man, porque foi uma experiência muito intensa", afirma Javiera Estrada, fotógrafa e artista multimídia.

Javiera Estrada (Crédito: Susan Karlin)

Ela criou um quarto de criança inspirado no jogo Twister, pensado para despertar a alegria de uma época anterior à presença constante das telas. "Acho que perdemos essa sensação de brincar e de estar fisicamente juntos, algo que promove cura e conexão", diz.

A artista Kim Farbota, que antes trabalhou como neurocientista, recorreu à própria experiência para representar a tristeza.

Sua instalação consiste em uma sala escura revestida por espelhos infinitos, onde faixas de LED atravessam uma cama e conduzem o olhar até uma coluna de luz que se espalha pelo teto, evocando uma sensação de transcendência e de conexão entre corpo e espírito.

Quarto 27, Tristeza, por Kim Farbota (Crédito: Hospital das Emoções)

"Pensava nisso como se fosse um tronco cerebral, algo com uma sensação neuronal", explica. "Várias pessoas me disseram que sentiram vontade de chorar, mas não por pura tristeza. Era um choro mais ligado à esperança ou ao sentimento de conexão."

As salas são organizadas em departamentos, cada um dedicado a uma emoção. Antes de seguir para o próximo andar, os visitantes carimbam a Ficha Emocional do Paciente, entregue na recepção, com a imagem correspondente àquele departamento.

Crédito: Susan Karlin

O documento funciona como um passaporte emocional, uma representação física da jornada por cada sentimento. Ao final da exposição, os visitantes acumulam os carimbos das 10 emoções e recebem alta, levando consigo uma sensação de alívio.


SOBRE A AUTORA

Susan Karlin é colaboradora da Fast Company e cobre ciência espacial e veículos autônomos. Já trabalhou para The New York Times, NPR, ... saiba mais