Mais esforço, mais foco? Tendência “friction-maxxing” vira tendência nas redes

A prática consiste em substituir facilidades tecnológicas por alternativas mais trabalhosas no dia a dia

mulher tentando focar no trabalho
Foto: Freepik

Joyce Canelle 3 minutos de leitura

O conceito de “friction-maxxing” se popularizou nas redes sociais, impulsionado por relatos de usuários que passaram a adotar rotinas com mais esforço deliberado para recuperar a concentração.

A prática consiste em substituir facilidades tecnológicas por alternativas mais trabalhosas no dia a dia, com o objetivo de reduzir distrações, fortalecer o foco e buscar uma sensação de realização mais profunda.

A ideia surge em um contexto de crescente preocupação com os efeitos da hiperconectividade. Segundo o artigo publicado pela BBC, esse comportamento digital observa que notificações constantes, consumo rápido de conteúdo e multitarefa têm fragmentado a atenção.

Ao longo das últimas duas décadas o tempo médio de concentração em atividades digitais caiu de minutos para poucos segundos em muitos ambientes de trabalho.

O QUE É O “FRICTION-MAXXING”

Em vez de optar sempre pelo caminho mais rápido, a pessoa introduz pequenos obstáculos intencionais na rotina. Isso pode significar escrever à mão antes de digitar, preparar refeições em casa em vez de pedir comida pronta ou usar mapas físicos no lugar de aplicativos.

A lógica por trás desse comportamento está na ideia de que o cérebro precisa de estímulo ativo. Ao reduzir o esforço necessário para tarefas cotidianas, a tecnologia pode levar à perda gradual de habilidades cognitivas como memória, orientação espacial e raciocínio crítico.

O QUE SIGNIFICA MAXXING?

O chamado “maxxing” (maximização) ajuda a explicar por que práticas como o “friction-maxxing” ganharam força. Nos últimos anos, conteúdos nas redes passaram a incentivar a busca por versões “otimizadas” de si mesmo, levando comportamentos ao limite, seja na aparência, na produtividade ou no estilo de vida.

O termo nasceu do “looksmaxxing”, focado na estética, mas se expandiu para diversas áreas, sempre com a mesma lógica de maximizar resultados a qualquer custo.

É justamente como reação a esses excessos que surge a ideia de adicionar atrito à rotina, trocando a obsessão por desempenho extremo por escolhas mais conscientes, ainda que mais lentas e exigentes, de acordo com a Fast Company Brasil.

ALÍVIO IMEDIATO E O SENTIDO MAIS PROFUNDO

A tecnologia atual favorece um tipo de bem-estar baseado na gratificação instantânea. É o prazer rápido, associado a estímulos constantes e recompensas imediatas.

Por outro lado, atividades que exigem mais dedicação tendem a gerar um tipo diferente de satisfação, mais duradouro e ligado ao senso de propósito.

Esse fenômeno é observado em experimentos que analisam como o esforço influencia a percepção de valor. Em diversas situações, pessoas atribuem maior importância a resultados que exigiram dedicação, mesmo quando o resultado final é semelhante ao de uma tarefa mais simples.

EFEITOS NO CÉREBRO E NO COMPORTAMENTO

O princípio de “usar ou perder” é frequentemente citado por especialistas, atividades que exigem atenção contínua, aprendizado e resolução de problemas ajudam a manter o cérebro ativo.

Há evidências de que tarefas cognitivamente desafiadoras contribuem para preservar funções mentais ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, a sobrecarga digital pode levar à fadiga mental. A alternância constante entre tarefas, comum no uso de dispositivos, tende a aumentar erros e prolongar o tempo necessário para concluir atividades.

NEM CONSENSO NEM SOLUÇÃO ÚNICA

Apesar do interesse crescente, adicionar dificuldades ao cotidiano pode ser útil apenas se ajudar a controlar o uso da tecnologia. A prática pode ter impacto limitado diante do nível atual de dependência digital.

Pesquisas sobre pausas no uso de tecnologia mostram resultados variados. Em alguns casos, há melhora no humor e na concentração e em outros, os efeitos são pequenos ou inexistentes.

Isso sugere que o impacto depende do contexto e do perfil de cada pessoa.

ATIVIDADES SIMPLES

Mesmo sem consenso, há um ponto de convergência, atividades analógicas como leitura, jardinagem, jogos e trabalhos manuais têm sido associadas a maior satisfação com a vida e redução do estresse.

Essas práticas exigem tempo, atenção e envolvimento, características que o consumo digital rápido tende a reduzir.

A tendência do “friction-maxxing” reflete, portanto, uma tentativa de reequilibrar essa relação. Em vez de eliminar a tecnologia, a proposta é usá-la com mais consciência, abrindo espaço para experiências que demandam mais esforço e, possivelmente, oferecem maior profundidade.


SOBRE O(A) AUTOR(A)

Bacharel em Jornalismo, com trajetória em redação, assessoria de imprensa e rádio, comprometida com a comunicação eficiente e a produç... saiba mais