Nem a ciência nem a IA sabem como fazer você viver mais
Sem um modelo científico confiável sobre o envelhecimento, pesquisadores apostam na IA para desvendar os mecanismos da longevidade

Todo mundo está falando sobre longevidade. Há 20 anos, esse era um campo de interesse restrito, frequentado por entusiastas da restrição calórica, pesquisadores que experimentavam com rapamicina e um pequeno grupo de acadêmicos contando telômeros.
Hoje, porém, a longevidade está em toda parte. A Altos Labs levantou US$ 3 bilhões antes mesmo de publicar seu primeiro artigo científico. O executivo de tecnologia Bryan Johnson transmitiu ao vivo suas controversas transfusões de sangue. E a Calico, startup de ciências da vida da Alphabet, vem consumindo discretamente os recursos do Google há uma década.
É compreensível. Afinal, quem não gostaria de envelhecer mais devagar, ou simplesmente não envelhecer?
O problema é que ainda não sabemos por onde começar. Não existe um bom modelo científico para explicar a longevidade, o que significa que não sabemos sequer qual é a linha de base "normal" para a duração da vida.
Imagine que você viva até os 103 anos. Como determinar quais fatores contribuíram para isso? Foram fatores internos, como genética, inflamação ou hormônios? Ou externos, como alimentação, condição financeira ou acesso a um respirador quando necessário? E como todos esses elementos interagem entre si?
OS POSSÍVEIS FATORES
Por enquanto, o campo trabalha com hipóteses bem fundamentadas. Entre as minhas favoritas estão:
- Medicamentos GLP-1: esses remédios desenvolvidos para tratar diabetes demonstraram uma impressionante variedade de benefícios. Promovem perda de peso, reduzem inflamações e diminuem o risco de infarto. E, convenhamos, não morrer precocemente é uma excelente maneira de aumentar a longevidade.
- Exercício físico: pilates, corrida e, principalmente, musculação. Quando eu era estudante na Escola de Medicina Monte Sinai, aprendíamos a identificar pacientes com doença de Parkinson que praticavam musculação. Eles apresentavam cerca de 10 vezes menos tremores.
- Amor: a solidão é um estado biológico, mesmo que nem sempre percebamos isso. Ela precisa ser tratada, pois pode reduzir tanto a expectativa quanto a qualidade de vida. Muito provavelmente, o amor é parte da resposta.
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Todas essas hipóteses podem estar corretas. Mas não espere encontrar nelas uma solução milagrosa.
A realidade é que cada pessoa terá necessidades diferentes quando o objetivo é aumentar a longevidade. Uma dose de magnésio que funciona perfeitamente para você pode ser insuficiente para sua tia e excessiva para o seu vizinho.
Não haverá uma fórmula universal para viver mais. O futuro será da longevidade de precisão.
IA PARA A LONGEVIDADE
É aí que entra a inteligência artificial.
Desvendar um problema dessa complexidade vai exigir uma inteligência sobre-humana – uma superinteligência artificial voltada para a biologia. É exatamente isso que estamos desenvolvendo na Owkin, e ela já está nos ajudando a formular perguntas mais inteligentes.
Por exemplo: por que algumas pessoas com mutações na telomerase são resistentes aos efeitos dessas alterações? Por que terapias com GLP-1 provocam perda de massa muscular (condição conhecida como sarcopenia associada ao GLP-1) e como podemos evitá-la?
Mas usar IA para estudar a longevidade também traz desafios importantes. E o principal deles é a falta de dados para treinar os modelos.

Precisaremos reunir grandes grupos de pacientes capazes de revelar possíveis mecanismos relacionados à longevidade, como pessoas com mutações genéticas na telomerase que desenvolvem fibrose ou disfunções em órgãos.
Outro obstáculo é distinguir correlação de causalidade. A maior parte dos dados disponíveis sobre longevidade é apenas correlacional. Como separar relações de causa e efeito de tudo o mais que acontece ao longo da vida de uma pessoa?
A IA precisa evoluir para prever mecanismos causais com mais precisão e formular novas hipóteses biológicas.
Não haverá uma fórmula universal para viver mais. O futuro será da longevidade de precisão.
Há ainda outro desafio: qualquer experimento nessa área leva muito tempo para chegar ao resultado final – esperamos, aliás, que leve cada vez mais.
Por isso, precisamos de marcadores substitutos confiáveis, como relógios biológicos da idade ou indicadores específicos do envelhecimento de órgãos. O problema é que a comunidade científica ainda não chegou a um consenso sobre quais marcadores utilizar.
As hipóteses sobre longevidade vão surgir em ritmo acelerado. É para onde o dinheiro está indo e onde o interesse se concentra. Espero que continuemos descobrindo peças importantes desse quebra-cabeça.
Mas, até conseguirmos aplicar uma superinteligência ao problema, alimentada por dados de pacientes de alta qualidade, ainda não vamos viver para sempre.