O que acontece com seu cérebro quando você está sob pressão

Entenda por que o cérebro entra em “modo ameaça” e como migrar para um estado que favorece desempenho e estratégia

o que acontece com o cérebro quando a pessoa está sob pressão
Crédito: Daniel Heighton/ Getty Images

Kate Pearlman-Shaw 5 minutos de leitura

Depois das habituais conversas sobre direcionamento estratégico, um cliente meu sentou-se para escrever seu documento de estratégia. As ideias vinham amadurecendo em sua cabeça havia dias. Mas, quando finalmente se sentou diante da tela, nada aconteceu.

Estratégia e pensamento estratégico são fundamentais para orientar organizações, mas criá-los exige que o cérebro esteja funcionando bem.

Entender como o cérebro sustenta o desempenho é útil não apenas para o trabalho estratégico, mas para praticamente todas as tarefas de liderança. Embora o cérebro contenha cerca de 80 bilhões de neurônios e incontáveis conexões, dois sistemas são especialmente importantes nesse contexto: a rede analítica e o sistema límbico.

A rede analítica, também chamada de rede orientada para tarefas, é responsável pelo pensamento complexo e pela tomada de decisões. Localizada principalmente no córtex pré-frontal (PFC), é a região onde ocorre a integração entre diferentes áreas cerebrais.

Leia mais: O que mudanças constantes no trabalho fazem com o cérebro

Ao elaborar uma estratégia, recorremos à memória de trabalho (o sistema de gerenciamento de projetos do cérebro), ao processamento e produção da linguagem, à síntese de informações e à coordenação visual e motora necessária para transformar ideias em palavras.

Para que tudo isso aconteça de forma eficiente, esse sistema precisa operar sem interferências. E essa interferência pode vir do sistema límbico, localizado na parte posterior do cérebro, acima do tronco cerebral.

O sistema límbico – na verdade, um conjunto de estruturas que inclui o tálamo, o hipotálamo e a amígdala – funciona como nosso centro de reação e alerta. Ao receber enormes quantidades de informações sobre o que está acontecendo e sobre aquilo que acreditamos que está prestes a acontecer, ele aciona as respostas de luta ou fuga para nos manter seguros.

no cérebro, dois sistemas são especialmente importantes: a rede analítica e o sistema límbico
Crédito: Freepik

Neurobiólogos acreditam que, diante dos tempos altamente tecnológicos e incertos em que vivemos, o sistema límbico está mais estimulado do que nunca.

E aqui está a conexão importante: quando o sistema límbico está excessivamente ativo, ele inibe o funcionamento da rede analítica. Esse fenômeno é chamado de estado de ameaça.

Meu cliente provavelmente não conseguia escrever aquela estratégia porque estava justamente em um estado de ameaça: sentia-se sobrecarregado, estressado, começava a duvidar da própria capacidade e ficava ansioso por não conseguir concluir o trabalho no prazo.

Entender como o cérebro sustenta o desempenho é útil para quase todas as tarefas de liderança.

Nesses estados, a pessoa tem dificuldade para agir e pensar de forma lógica. Fica mais sujeita a vieses e erros. Também experimenta maior excitação emocional e mudanças de comporta- mento, o que a torna menos capaz de prestar atenção aos outros ao seu redor.

A boa notícia é que entender isso nos permite agir. Podemos conduzir o cérebro para o estado oposto: o estado de recompensa, no qual a atividade do sistema límbico é reduzida e a rede analítica fica totalmente acessível.

É nesse estado que conseguimos desempenhar as tarefas mais difíceis da liderança: pensar estrategicamente, tomar decisões complexas, comunicar más notícias, fornecer feedbacks difíceis, administrar conflitos e manter o foco em meio ao ruído.

Felizmente, existem quatro práticas relativamente simples que ajudam a alcançar esse estado.

O QUE FAZER QUANDO O CÉREBRO ESTÁ SOB PRESSÃO

1. RECONECTE-SE AOS SEUS PROPÓSITOS

Concentrar-se no “porquê” em vez do “o quê” e do “como” favorece o funcionamento cerebral. Quando você direciona a atenção para um propósito significativo, a atividade do córtex pré-frontal aumenta, enviando ao sistema límbico a mensagem “está tudo bem.”

E é importante falar em propósitos, no plural. Diversos deles atuam simultaneamente: o propósito pessoal de ocupar determinado cargo, o propósito maior da organização, o propósito específico de uma iniciativa e o propósito imediato daquilo que estamos fazendo naquele momento.

Esclarecer esses propósitos para si mesmo e comunicá-los aos outros faz diferença.

2. REGULE SUAS EMOÇÕES

Todo mundo vem com uma caixa de ferramentas para regulação emocional. Este é o momento de utilizá-la. O objetivo é acalmar o sistema límbico, enviando sinais de que não estamos diante de uma ameaça real e que a situação está sob controle.

Técnicas clássicas incluem exercícios de respiração, mindfulness e afirmações positivas. Verbalizar emoções e passar tempo em contato com a natureza também são estratégias comprovadas para reduzir o ruído produzido pelo sistema límbico.

usuários buscam alternativas aos modelos de linguagem mais populares
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3. USE SUA REDE DE APOIO

Participar de uma interação positiva, como conversar com uma pessoa de confiança ou com um coach, estimula a produção de oxitocina, um poderoso neurotransmissor que ajuda a reduzir a atividade do sistema límbico.

Outra alternativa é fazer perguntas realmente curiosas às pessoas ao redor e ouvir atentamente as respostas. Até conversar com seu cachorro pode ajudar. O apoio social é considerado um dos fatores mais fortemente associados à resiliência no trabalho e desempenha papel essencial para enfrentar a solidão associada à liderança.

4. AJUDE O CÓRTEX PRÉ-FRONTAL A CONTINUAR FUNCIONANDO

Existem também maneiras de fazer o córtex pré-frontal trabalhar mesmo quando o sistema límbico está sobrecarregado.

Uma delas é usar um “terceiro cérebro”: um local para armazenar todo o excesso de informações e preocupações. Isso pode ser um diário, um sistema eficiente de listas ou até mesmo um melhor aproveitamento da ajuda de sua assistente executiva.

Também é fundamental repor energia, já que tarefas complexas de liderança consomem muitos recursos mentais. Manter-se hidratado e alimentar-se adequadamente faz diferença.

Outra prática útil é verificar evidências e vieses constantemente, fazendo perguntas como “qual é a evidência disso?” ou “o que está faltando aqui?”. Essas técnicas de gestão cognitiva ajudam a manter o sistema analítico ativo.

Leia mais: 5 sinais de que seu cérebro está sobrecarregado

Quando meu cliente finalmente conseguiu entrar em um estado de recompensa, sua estratégia simplesmente fluiu para o papel.

A experiência reforça uma verdade muitas vezes ignorada: não são apenas as estratégias que determinam o desempenho. Os cérebros que as criam também.


SOBRE A AUTORA

Kate Pearlman-Shaw é psicóloga com dupla certificação pela Sociedade Britânica de Psicologia e autora de "The Psychology of Effective ... saiba mais