O que Messi, Mbappé e Haaland fazem diferente? A resposta está no cérebro
Da criatividade tática ao foco sob pressão, psicólogo esportivo mostra por que a força mental é decisiva no futebol de alto rendimento

Parte da beleza do futebol está em sua imprevisibilidade. Nesta Copa do Mundo, já vimos o Marrocos empatar com o Brasil (pentacampeão mundial) e a Austrália contrariar as expectativas ao derrotar a Turquia.
Poucas surpresas superam o empate em 0 a 0 entre Cabo Verde, que iniciou o torneio na 67ª posição do ranking, e a Espanha, apontada por muitos especialistas como favorita ao título.
Mas o que determina se uma equipe vence, empata ou perde?
É claro que a qualidade dos jogadores e da comissão técnica faz diferença. Além disso, os avanços recentes na análise de desempenho, incluindo métricas de geolocalização dos atletas em tempo real, levaram à adoção de decisões em campo baseadas em dados.
As principais equipes de futebol dependem cada vez mais de grandes volumes de dados e algoritmos preditivos para conquistar vantagem competitiva. Mas a psicologia do esporte também desempenha um papel fundamental.
Como psicólogo esportivo e diretor do Laboratório de Soluções em Liderança Esportiva Global, da Universidade Drexel, estudo como jogadores e treinadores podem lidar com o caos em campo para melhorar o desempenho e vencer.
A seguir, apresento alguns princípios da psicologia moderna considerados essenciais para as 48 seleções que disputam a Copa do Mundo da FIFA de 2026.
CINCO PASSOS PARA O SUCESSO NO FUTEBOL
1. DISRUPÇÃO
Em qualquer esporte, a equipe vencedora costuma se beneficiar ao desestabilizar o adversário.

Táticas de disrupção incluem faltas estratégicas mais duras, contra-ataques em alta velocidade que pegam o rival desprevenido, jogadas ensaiadas enganosas que criam um caos organizado, marcação sob pressão para forçar erros e até provocar emocionalmente os jogadores da equipe adversária.
Romper a organização e o ritmo do oponente é tanto uma mentalidade quanto uma estratégia capaz de criar oportunidades de gol. Uma equipe que consegue interromper o fluxo de jogo do adversário pode compensar uma desvantagem técnica ou desmoralizar equipes mais frágeis.
2. CONDICIONAMENTO DA ATENÇÃO
Marcar gols no futebol internacional é uma tarefa difícil. Um grande atacante vale ouro. Além de dribles excepcionais e habilidade em confrontos individuais, esses jogadores possuem um elevado "condicionamento da atenção", que combina eficiência cognitiva e dedicação para ocupar a posição ideal para finalizar.

Esses atletas são celebrados pela frieza e pelo domínio da bola, mas é sua inteligência psicológica que realmente os torna especiais. Uma das primeiras habilidades a se deteriorar sob pressão é justamente a capacidade de manter o foco. O artilheiro por excelência não paralisa diante do momento decisivo.
Atacantes como Harry Kane, da Inglaterra, Kylian Mbappé, da França, e Erling Haaland, da Noruega, conseguem preservar o controle da atenção mesmo sob enorme pressão. Eles se concentram totalmente quando o momento exige e alternam entre diferentes tarefas com naturalidade.
3. DISTRAÇÃO CONTROLADA
O devaneio é aquele momento em que a mente se desliga do ambiente. Nos esportes, isso costuma ser visto de forma negativa, já que a falta de atenção em um instante decisivo pode levar ao desastre.

Mas é extremamente difícil manter foco total durante mais de 90 minutos. Além disso, novas evidências obtidas por meio de técnicas de neuroimagem mostram que, durante os momentos de devaneio, o cérebro não está em repouso. Ele apenas processa as informações de outra maneira.
Por isso, o devaneio controlado – que envolve uma exploração mental ativa – pode ser altamente benéfico nos esportes de alto rendimento, ainda que dure apenas alguns segundos.
Os melhores jogadores parecem saber exatamente quando concentrar a atenção e quando ampliar sua percepção. Em certos momentos, desviam o olhar da bola para ter uma visão mais ampla da partida. Quando surge uma oportunidade decisiva de gol, voltam a focar completamente e estão 100% presentes.
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Pesquisadores que estudaram para onde Lionel Messi direciona o olhar descobriram que ele muitas vezes não está olhando para a bola. O senso comum no futebol sempre foi manter os olhos fixos nela, mas novas pesquisas sugerem que os vencedores também se permitem momentos de devaneio e desviam a atenção da ação imediata.
O cérebro de Messi aparentemente consegue realizar processos cognitivos que muitos adversários não conseguem, demonstrando capacidades mentais de nível excepcional.
4. RESILIÊNCIA (PARA OS ÁRBITROS)
O futebol está entre os esportes mais difíceis de arbitrar. Além de excelente preparo físico, os árbitros precisam administrar emocionalmente o jogo.

Essa tarefa ficou ainda mais complexa com a simulação frequente de faltas, a interpretação do impedimento em diferenças de poucos centímetros e uma das decisões cognitivas mais difíceis do esporte: marcar ou não um pênalti.
Com tanto em jogo e milhões de pessoas observando, o árbitro precisa reunir habilidades excepcionais de multitarefa, comunicação e gestão.
Os árbitros fazem parte da narrativa da partida, queiram ou não. Todos os julgam. Por isso, seu repertório psicológico precisa começar por uma forte dose de resiliência.
5. CRIATIVIDADE TÁTICA
A criatividade tática no futebol está relacionada à capacidade de encontrar soluções para situações individuais ou coletivas complexas durante a partida. Ela quase sempre depende do pensamento divergente e costuma resultar em jogadas surpreendentes e originais.
Pesquisas mostram que a criatividade está ao alcance de qualquer pessoa, inclusive dos jogadores de futebol, especialmente quando faz parte do planejamento dos treinamentos.

Como consequência, o estilo de jogo do futebol de elite mudou nas últimas décadas. O modelo estruturado, defensivo e baseado na posse de bola deu lugar a uma abordagem moderna, orientada por dados e baseada em pressionar o adversário desde seu campo de defesa.
Esse modelo exige que os jogadores desempenhem múltiplas funções durante a partida. Também requer um equilíbrio entre inspiração (ou abertura para novas ideias) e transpiração, isto é, disciplina.
Com a Copa do Mundo em andamento, psicólogos do esporte, assim como torcedores de todo o planeta, podem observar como os atletas colocam esses princípios em prática. E, com sorte, o torneio vai proporcionar momentos de criatividade capazes de ficar na memória por toda a vida.
Este artigo foi republicado do site The Conversation sob licença Creative Commons. Leia o artigo original.