O sentimento de nunca ser suficiente pode levar ao burnout

Mesmo líderes de alto desempenho convivem com a sensação de fraude. A saída passa por autoconhecimento, autoconsciência e autocompaixão

sentimento de "nunca ser o suficiente" pode levar ao burnout
Crédito: Deagreez/ Getty Images

Sally Clarke 6 minutos de leitura

Recentemente, tive várias conversas com profissionais de alto desempenho que seguiram um padrão surpreendentemente semelhante. No papel, essas pessoas representam o ápice do sucesso: ocupam cargos importantes, administram portfólios complexos e acumulam um histórico brilhante de conquistas.

Mas, durante uma conversa pelo Zoom ou um café, outra história começa a aparecer. Ouço versões de frases como:

  • “O que eu realmente tenho a oferecer?”
  • “Perto de X, sinto que estou me debatendo.”
  • “A qualquer momento, vão perceber que eu não sou capaz de fazer isso.”

Quando comecei a explorar o que havia por trás dessas falas, um padrão se revelou. Sob as conquistas, os elogios e a aparente confiança existe uma convicção perigosa: “Não importa o que eu faça, nunca sinto que sou suficiente.”

No início, fiquei surpresa ao perceber que pessoas tão realizadas enfrentavam dúvidas tão profundas sobre si mesmas. Mas, ao mergulhar nas pesquisas sobre o tema, comecei a entender por quê.

COMO É VIVER COM A SENSAÇÃO DE "NÃO SER SUFICIENTE"

Às vezes, a baixa autoestima é evidente, manifestando-se por meio do narcisismo ou de uma liderança tóxica. Mas, na maioria dos casos, ela funciona como um zumbido constante ao fundo: uma auditoria interna que nunca desliga.

Quando nossa crença mais profunda é a de que não somos suficientes, de que não temos valor intrínseco ou de que nosso valor depende exclusivamente das conquistas externas, isso influencia a forma como trabalhamos. Também afeta nossos relacionamentos e nossa maneira de liderar.

Pense no executivo que encerra um longo dia de trabalho, mas passa a noite inteira revivendo mentalmente a única pergunta desconfortável feita durante uma apresentação que, de resto, foi excelente. Ou no especialista em marketing que insiste em fazer mais uma revisão porque diminuir o ritmo parece perigoso, não merecido.

síndrome do impostor
Créditos: tolgart/ iStock/ Freepik

Para colegas e líderes, esse comportamento pode parecer apenas comprometimento e dedicação. Mas, por dentro, é como caminhar sobre carvão em brasa. Não existe sensação de segurança nem uma linha de chegada.

Esse padrão está alinhado ao que pesquisadores descreveram originalmente como síndrome do impostor: a tendência de atribuir o próprio sucesso a fatores externos – como sorte, oportunidade ou ajuda de outras pessoas – enquanto qualquer dificuldade é interpretada como prova de incompetência pessoal.

Os sentimentos de impostor costumam coexistir com o perfeccionismo, a baixa autoestima e a autoestima condicional, ou seja, a crença de que nosso valor depende de desempenho impecável e conquistas constantes.

Leia mais: Os 3 tipos de medo que travam líderes e como transformá-los em aliados

Para líderes que reconhecem essa tendência em si mesmos, a pergunta passa a ser: como enfrentar essa crença de uma maneira psicologicamente realista e, ao mesmo tempo, prática?

Uma abordagem que surgiu durante as pesquisas para meu primeiro livro sobre prevenção do burnout é o modelo dos três "autos".

AUTOCONHECIMENTO: ENTENDER O QUE O LEVOU AO SUCESSO

Autoconhecimento vai além de saber quais são seus pontos fortes e fracos. Trata-se de entender a narrativa que você absorveu sobre o que faz alguém ser aceito, valorizado ou estar em segurança.

Em muitos casos, essa narrativa nasce de experiências da infância, como famílias que associavam elogios exclusivamente ao desempenho, ou dos primeiros ambientes de trabalho, que normalizavam jornadas exaustivas e desencorajavam qualquer demonstração de vulnerabilidade.

Síndrome do impostor é a tendência de atribuir o próprio sucesso a fatores externos.

Nesses contextos, é natural que o sistema nervoso aprenda a seguinte lógica: “para estar seguro, preciso ser excepcional. Para ser aceito, não posso falhar.”

Uma forma de desenvolver o autoconhecimento é refletir sobre perguntas como: o que realmente importa para mim como indivíduo? Quais são meus valores essenciais? Como quero que minha vida seja e como desejo me sentir?

Essas reflexões não eliminam essa crença de um dia para o outro, mas permitem que ela deixe de parecer uma verdade absoluta e passe a ser algo que pode ser examinado.

AUTOCONSCIÊNCIA: IDENTIFICAR QUANDO A SÍNDROME DO IMPOSTOR APARECE

A autoconsciência torna possível uma mudança sutil, porém decisiva: trocar o pensamento “sou uma fraude” por “estou tendo pensamentos de fraude”. Essa diferença importa.

Na prática, isso significa ser capaz de reconhecer esses pensamentos no momento em que surgem, dizendo algo como: “recebi um feedback construtivo e minha mente está transformando isso em um julgamento sobre quem eu sou.”

Essa pausa abre espaço para outras respostas possíveis. Também oferece a perspectiva necessária para agir de forma intencional, em vez de apenas reagir automaticamente.

AUTOCOMPAIXÃO: A BASE PARA A MUDANÇA

Muitas pessoas confundem autocompaixão com complacência ou redução dos padrões de excelência. Mas as pesquisas mostram justamente o contrário: níveis mais altos de autocompaixão estão associados a maior resiliência emocional, menos ansiedade e depressão e menor risco de burnout.

Para profissionais de alto desempenho que convivem com a síndrome do impostor, a autocompaixão transforma a maneira como processam fracassos, críticas e momentos de vulnerabilidade. Em vez de reforçar a ideia de que “não sou suficiente”, cada dificuldade passa a ser interpretada como “isso é difícil e eu estou aprendendo.”

Nesse sentido, a autocompaixão não é inimiga da excelência. Ela é justamente o que torna padrões elevados sustentáveis ao longo do tempo.

autoconhecimento é uma das chaves para se livrar da síndrome do impostor
Crédito: Noah Buscher/ Unsplash

Um exercício simples pode ajudar. Depois de uma reunião difícil, de um erro ou de um feedback duro, escreva exatamente o que aquela voz crítica interna está dizendo. Depois, pergunte a si mesmo: “se um colega que eu respeito tivesse passado pela mesma situação, o que eu diria a ele?”

A diferença entre essas duas respostas costuma ser impressionante.

À medida que você passa a tratar a si mesmo como alguém que ama e respeita, e não como um inimigo que precisa ser vencido, a crença de que nunca é suficiente começa a perder força. Com o tempo, isso transforma não apenas a percepção sobre seu próprio valor, mas também a forma como você constrói relacionamentos.

VIRANDO A PÁGINA

Se você convive com síndrome do impostor, é improvável que esses sentimentos desapareçam por completo. Um certo grau de dúvida demonstra que você se importa com os resultados. O problema surge quando essa dúvida é alimentada pela crença de que “não sou suficiente”, pois o preço emocional que você paga por isso é muito alto.

O objetivo não é eliminar a incerteza, mas mudar sua relação com ela. É enxergar claramente a velha narrativa (autoconhecimento), perceber quando ela entra em ação (autoconsciência) e responder com a gentileza e a sabedoria que tornam o crescimento possível (autocompaixão).

Leia mais: Síndrome do impostor? A inteligência emocional pode ser o antídoto

Por trás das métricas, dos resultados e dos marcos da carreira, é aí que começam a verdadeira autoconfiança sustentável e a grande liderança.

E, caso ainda reste alguma dúvida: sim, você é suficiente.


SOBRE A AUTORA

Sally Clarke é uma ex-advogada de finanças corporativas que se tornou especialista em estresse e burnout, palestrante e líder de opini... saiba mais