Qual é a melhor forma de praticar gratidão? Pesquisadores brasileiros ajudam a responder
Estudo internacional compara seis práticas de gratidão e mostra que enviar uma mensagem de agradecimento tem o maior efeito sobre o bem-estar

Quando recebemos uma mensagem inesperada de agradecimento ou quando alguém reconhece uma ajuda específica, algo muda. Essas interações sociais não são apenas “gentileza”: elas podem produzir mudanças mensuráveis sobre emoções e relações, e estão sendo o ponto de partida de um megaestudo internacional sobre gratidão.
Publicado na revista científica "PNAS", o trabalho analisou 10.696 pessoas em 34 países para testar seis práticas diferentes de gratidão. Os pesquisadores observaram melhora imediata no afeto positivo, no otimismo e na satisfação com a vida, além de redução da inveja e do afeto negativo.
Um dos achados mais significativos é que esses efeitos não foram iguais para todas as formas de praticar gratidão nem para todas as culturas.
GRATIDÃO EM VÁRIAS FORMAS
O senso comum acredita que qualquer forma de agradecimento é válida. O estudo mostrou que o impacto no bem-estar varia conforme o método escolhido.
Entre as estratégias testadas, enviar uma mensagem para alguém a quem se é grato foi a que se mostrou mais eficaz. Já a mais conhecida, listar cinco coisas pelas quais a pessoa é grata, teve o menor impacto.
Ainda assim, todas as seis estratégias testadas tiveram resultados positivos quando comparadas às atividades de controle. Foram elas:
- Escrever e enviar uma carta a uma pessoa a quem se é grato;
- Fazer uma lista de cinco coisas pelas quais se é grato;
- Escrever uma carta a quem se é grato e não enviar;
- Escrever sobre três coisas ocorridas na semana anterior, refletindo sobre o que foi dado, recebido e o que mais poderia ter sido feito;
- Escrever sobre cinco coisas pelas quais se é grato e imaginar como seria a vida sem elas;
- Escrever uma carta a Deus (ou a uma força superior) reconhecendo o que lhe foi dado.
“Para a intervenção ser melhor, produzir mais efeito, ela tem de ser mais do que simplesmente pensar em uma coisa boa”, comenta o psicólogo Paulo Sérgio Boggio, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, que foi um dos coautores brasileiros do artigo.
EFEITO VAI ALÉM DO BEM-ESTAR
Embora a melhoria do humor seja um benefício imediato, os resultados indicam que o sentimento vai além de um estado emocional passageiro, alcançando também avaliações e comportamentos sociais
As intervenções reduziram a inveja e aumentaram a sensação de estar em dívida, entendida pelos pesquisadores como a percepção de que se recebeu algo de alguém e que isso provocou a vontade de retribuir.

"O nosso 'obrigado' pode ser entendido de várias formas. Uma delas é que sou obrigado a ser recíproco, a fazer o bem para o outro, a devolver", comenta o pesquisador.
Para Boggio, a gratidão é uma emoção com componentes sociais muito fortes. Quando alguém se sente grato, aumenta a probabilidade de querer ajudar outras pessoas. Esse mecanismo ajuda a explicar como o sentimento pode contribuir para formar laços e conexões.
DIFERENÇAS CULTURAIS
A resposta à gratidão muda de acordo com o país. Os resultados mais expressivos foram observados no México, enquanto na Noruega ficaram próximos de zero. O Brasil apareceu em uma posição intermediária entre os 34 países analisados.
O fator mais consistente entre as culturas foi o aumento do afeto positivo: as interações apontaram que as pessoas tornaram-se mais positivas em praticamente todos os contextos analisados. Os pesquisadores estimam que esse resultado apareceria em mais de 98% dos países, mesmo entre os que não participaram do estudo.
Quando alguém se sente grato, aumenta a probabilidade de querer ajudar outras pessoas.
Para entender as diferenças entre os indicadores que variaram de país para país, foram analisadas características culturais como rigidez das normas sociais, distância de poder e religiosidade. Esses fatores podem influenciar a intensidade dos efeitos observados, porém os próprios autores tratam essas relações como evidências preliminares e exploratórias.
A variação evidencia que, para compreender os efeitos da gratidão, não basta observar qual prática é utilizada. É preciso considerar o contexto cultural em que ela acontece.
Boggio ressalta que o estudo busca ampliar uma área de pesquisa ainda concentrada em países ocidentais e ricos. Cerca de 50% dos estudos sobre gratidão têm origem nos Estados Unidos. A ideia foi “fugir um pouco disso e aplicar o teste em países com uma grande variação cultural”, explica.
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A principal lição do estudo é mostrar que a gratidão está longe de ser apenas um exercício de autocuidado. Mais do que olhar para dentro, os resultados sugerem que colocar o sentimento em circulação, especialmente por meio da conexão com outras pessoas, pode torná-lo mais potente.