Profissionais estão rejeitando cargos de liderança por saúde mental

O que antes era visto como avanço natural na carreira agora passa a ser avaliado com cautela

cabeça humana em forma de estátua se desmontando como um quebra-cabeças
Crédito: VPanteon/ Getty Images

Redação Fast Company Brasil 4 minutos de leitura

Em diferentes setores do mercado, ao longo dos últimos anos, empresas têm enfrentado um movimento silencioso, porém crescente que é a recusa de profissionais a cargos de liderança.

O fenômeno ocorre em ambientes corporativos diversos, tanto presenciais quanto híbridos, e tem como principal motivação a preocupação com a saúde mental diante das exigências cada vez maiores dessas funções.

A mudança não se restringe a um único perfil. Uma pesquisa publicada na revista “Harvard Business Review“, com 3.625 profissionais de diversos cargos em empresas de diferentes tamanhos e setores nos Estados Unidos, revelou que apenas 34% buscavam posições de liderança e só 7% almejavam ascender a uma posição de C-level

O que antes era visto como avanço natural na carreira agora passa a ser avaliado com cautela.

PRESSÃO CONSTANTE AFASTA NOVOS LÍDERES

A liderança, tradicionalmente associada a reconhecimento e crescimento, passou a carregar um peso maior no cotidiano corporativo. A cobrança por resultados, a necessidade de gerir conflitos e a responsabilidade sobre equipes têm sido fatores que aumentam o desgaste emocional.

Muitos profissionais relatam que liderar exige disponibilidade quase integral. A sensação de estar sempre acessível e a dificuldade de desconectar do trabalho contribuem para níveis elevados de estresse.

Diante disso, a recusa surge como forma de evitar um cenário considerado insustentável a longo prazo.

SAÚDE MENTAL GANHA PRIORIDADE NAS DECISÕES

O avanço de debates sobre saúde mental no trabalho tem influenciado diretamente essas escolhas. Casos de esgotamento profissional e ansiedade se tornaram mais visíveis, o que levou trabalhadores a reavaliarem suas trajetórias.

Tatiana Pimenta, autora do livro “Saúde mental é inegociável” e fundadora e CEO da Vittude, explica que essa é uma das mudanças mais relevantes na forma como as pessoas tomam decisões de carreira.

“A saúde mental deixou de ser um tema invisível e passou a ser um critério concreto de escolha. Profissionais estão mais conscientes dos impactos que determinados contextos de trabalho têm sobre sua energia, sua saúde e sua capacidade de sustentar performance ao longo do tempo”.

Para a autora o tema ganhou mais força após a pandemia. “Após a pandemia, houve uma mudança importante nessa percepção. Muitas pessoas passaram a questionar modelos de trabalho que exigem disponibilidade constante, alta pressão e pouca previsibilidade, especialmente quando esses fatores estão associados a funções de liderança.”

Assumir um cargo de liderança, nesse contexto, é visto por muitos como um risco. A preocupação em manter estabilidade emocional pesa mais do que o status ou o aumento salarial. A decisão de não aceitar promoções passa a ser entendida como estratégia de preservação.

DESEQUILÍBRIO ENTRE RESPONSABILIDADE E RECOMPENSA

Outro ponto relevante é a percepção de que o aumento de responsabilidades nem sempre vem acompanhado de benefícios proporcionais. Em várias organizações, a diferença salarial entre liderados e líderes não compensa o nível de estresse psicológico envolvido.

Para Tatiana Pimenta, esse é um dos principais fatores e talvez um dos mais subestimados pelas organizações, que afastam os profissionais de cargo de liderança.

“Nos últimos anos, ampliou-se significativamente o escopo da liderança. Além de entregar resultados, espera-se que o líder seja gestor de pessoas, agente de cultura, mediador de conflitos, responsável por saúde mental do time, diversidade e engajamento, muitas vezes em estruturas mais enxutas e sob alta pressão. O problema é que, em muitos casos, a equação não fecha. A responsabilidade cresce em uma velocidade muito maior do que a autonomia, o suporte e, principalmente, a recompensa, seja ela financeira, simbólica ou de qualidade de vida”, afirma Tatiana.

Essa conta, feita de forma prática, leva muitos profissionais a concluir que o custo pessoal é alto demais. O resultado é a rejeição de cargos que exigem mais entrega sem oferecer contrapartidas claras.

BUSCA POR AUTONOMIA E QUALIDADE DE VIDA

A valorização do tempo pessoal também influencia essa tendência. Profissionais têm priorizado rotinas mais equilibradas, com espaço para vida fora do trabalho. Nesse cenário, funções que demandam controle constante e decisões sob pressão perdem atratividade.

Além disso, modelos de trabalho mais flexíveis reforçam essa escolha. A percepção de que cargos de liderança exigem menor liberdade contribui para o afastamento de candidatos internos.

MUDANÇA DE MENTALIDADE NO AMBIENTE CORPORATIVO

De acordo com Tatiana Pimenta, estamos vivendo uma mudança de paradigmas. “As pessoas continuam querendo crescer, mas não à custa da própria saúde. Isso não representa falta de ambição, mas sim uma busca por modelos de carreira mais sustentáveis e compatíveis com uma performance de longo prazo”, afirma.

“O que estamos vendo não é uma rejeição à liderança em si, mas uma rejeição a modelos de liderança que se tornaram insustentáveis”, afirma Tatiana.

Diante desse cenário, organizações enfrentam o desafio de tornar a liderança mais sustentável. Isso passa por rever cargas de trabalho, oferecer suporte psicológico e estruturar melhor as funções de gestão.

Sem mudanças, a tendência é que a resistência continue. O mercado de trabalho indica que uma liderança, hoje, precisa ser compatível com bem-estar. Caso contrário, o cargo deixa de ser um objetivo e passa a ser evitado.


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