Psilocibina pode proteger os nervos dos efeitos da quimioterapia

Composto evitou sinais de neuropatia sem reduzir o efeito contra os tumores; teste clínico com pessoas está previsto para novembro.

Montagem com cogumelos, frascos de medicamentos, seringa e recipiente hospitalar
Créditos: Igor Omilaev, National Cancer Institute via Unsplash

Taylor Hatmaker 2 minutos de leitura
Favoritar no Google

A psilocibina, composto psicodélico responsável pelo efeito alucinógeno dos chamados cogumelos mágicos, mostrou potencial para proteger pacientes com câncer dos danos aos nervos provocados pela quimioterapia.

Por enquanto, a descoberta se limita a modelos animais. Pesquisadores do University of Texas MD Anderson Cancer Center descobriram que administrar psilocibina a camundongos antes da quimioterapia impediu o desenvolvimento de neuropatia periférica.

A condição é causada por danos aos nervos das extremidades e pode provocar dor, dormência, maior sensibilidade ao frio e perda de sensibilidade nas mãos, nos pés, nos braços e nas pernas. Os sintomas podem persistir mesmo depois do fim do tratamento contra o câncer, e as terapias disponíveis oferecem benefícios limitados.

LEIA TAMBÉM: Como sinais cerebrais podem ajudar a medir a intensidade da dor crônica

O QUE A PESQUISA ENCONTROU

Os camundongos receberam doses de psilocibina antes de passarem por ciclos repetidos de quimioterapia com medicamentos como cisplatina, paclitaxel e docetaxel.

Os animais que não receberam a substância desenvolveram hipersensibilidade à dor e ao frio, perda de sensibilidade ao toque e redução das terminações nervosas sensoriais presentes na pele.

A psilocibina protegeu os nervos sem reduzir o efeito antitumoral da quimioterapia.

Nos modelos tratados com psilocibina, duas doses foram suficientes para impedir esses sinais. Os nervos permaneceram preservados e a quimioterapia manteve sua atividade contra os tumores.

A psilocibina protegeu os nervos sem reduzir o efeito antitumoral da quimioterapia.

Os resultados foram publicados na revista científica Science.

COMO A PSILOCIBINA PODE PROTEGER OS NERVOS

Os pesquisadores acreditam que o efeito esteja relacionado aos receptores de serotonina 5-HT2A presentes nos neurônios sensoriais periféricos.

A quimioterapia pode prejudicar o deslocamento das mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia dentro das células, ao longo das fibras nervosas. A psilocibina ativou uma via que preservou esse transporte e manteve o fornecimento de energia às terminações nervosas.

Quando os pesquisadores bloquearam o receptor 5-HT2A, o efeito protetor desapareceu. Um composto não alucinógeno que ativa o mesmo receptor produziu proteção semelhante, indicando que o benefício pode não depender do efeito psicodélico da substância.

“Há uma necessidade urgente de tratamentos que previnam lesões nos nervos sem interferir na quimioterapia que salva vidas”, afirmou Moran Amit, professor assistente de cirurgia de cabeça e pescoço do MD Anderson e colíder da pesquisa.

Em vez de agir apenas sobre os sinais de dor, a psilocibina parece preservar os próprios nervos antes que os danos se tornem persistentes.

TESTE EM HUMANOS DEVE COMEÇAR EM NOVEMBRO

Os resultados serviram de base para o NeuroGuard, ensaio clínico de fase 2 que avaliará a psilocibina durante a quimioterapia em pacientes com câncer de mama, colorretal e de cabeça e pescoço.

Registrado no ClinicalTrials.gov, o estudo pretende acompanhar 83 participantes e comparar diferentes doses de psilocibina com o tratamento de suporte convencional.

O início está estimado para 4 de novembro de 2026. Até o momento, o ensaio ainda não começou a recrutar participantes.

O resultado obtido em camundongos não comprova que a psilocibina seja segura ou eficaz para prevenir neuropatia em seres humanos. Essa resposta dependerá dos testes clínicos.


SOBRE A AUTORA

Taylor Hatmaker é fotógrafa e jornalista especializada em mídia social, games e cultura digital. saiba mais